Foi com incredulidade e consternação que “a Europa” e o seu numeroso contingente de opinionmakers, influencers, comentadores e colunistas, recebeu o memorando 2025 National Security Strategy, da Administração Trump. E o choque foi tal que muitos até viram coisas que lá não estavam.

Não era para menos: para os eternos desprevenidos, o documento tinha a brevidade brutal de um murro no estômago e a consequente clareza na definição de amigos e inimigos, de objectivos, estratégias e críticas.

Perante o documento, podíamos aceitar a realidade, a nova realidade, lamentando o fim da era da hipocrisia, “a última homenagem que o vício presta à virtude”, e o mundo cru e sem o consolo da sinalização de virtude que abria. Mas parece que já não vai ser preciso: o fim da era da hipocrisia ainda só chegou à Administração norte-americana, uma vez que, ao que tudo indica, “a Europa” promete continuar a manter-se firme no farisaísmo.

Em bom estilo trumpista, o dito documento abre então com uma crítica às elites dos EUA, que até agora confundiram “os interesses nacionais norte-americanos” com o domínio do globo. Foi a política dos neoconservadores, que se obstinaram em tentar exportar, à força e pela força, o modelo político-económico americano, semeando conflitos desde os Balcãs ao Médio Oriente, da Sérvia e Ucrânia ao Iraque e ao Afeganistão. Algumas destas guerras com resultados perversos, como o fim dos “cristãos do Oriente” ou a “retirada” do Afeganistão no tempo de Biden.

Palavras duras para quem combate o “discurso de ódio da extrema-direita” e dispõe da amplamente distribuída “licença para odiar” Trump, trumpistas e afins (licença de porte obrigatório para quem quer singrar em televisões e comissões e correr o risco de se deixar cegar).

Assim, este documento de estratégia nacional 2025, que traz a inequívoca marca de Trump e do America First, mesmo que não fosse chocante, seria sempre um choque para auditórios e cenáculos habituados a que os amargos e por vezes pouco éticos fins e meios políticos se escondam sob as doçuras de uma espessa camada de grandiloquência retórica humanitária.

De irmão para irmão

Aqui, o que mais choca “a Europa” é a exígua quantidade de referências ao Velho Continente (“só” três páginas em 29), bem como a substância das referências, que apontam para o condicionamento ou para a morte anunciada da Relação Transatlântica.

Será mera arrogância ou mais o conselho de um irmão – mais novo mas mais forte – ao mano que abusa da amizade, que se precipita para a desgraça mas que teima em não mudar?

De qualquer forma, “os americanos” – leia-se a Administração Trump – continuam a falar da essencialidade da relação atlântica, ainda que aconselhem os seus parceiros europeus (referindo-se, especificamente ao trio Macron, Merz e Starmer e aos dirigentes de Bruxelas Ursula Van der Leyen, António Costa, Kaja Kallas) a deixarem de ludibriar a democracia em nome da democracia, usando e abusando dos controlos censórios das redes sociais e manipulando os poderes judiciais para fins políticos, como anular eleições e banir dirigentes incómodos. Fazem-no com clareza, até porque sabem que a Europa e os europeus em questão talvez já não representem a maioria dos eleitores. Tanto que, em França, entre a União Nacional de Le Pen e a Esquerda de Mélanchon, o centrão macroniano é claramente minoritário; e que também no Reino Unido, segundo as sondagens, se houvesse eleições, os nacionalistas de Neil Farage varreriam à direita e à esquerda; ou que, na Alemanha, Merz, além de ter de se aliar com a esquerda do SPD num “bloco central”, tem a AFD a crescer. E fazem-no com a certeza de que todos estes partidos, se vierem a ser poder, tenderão a alinhar com as políticas norte-americanas. Cada um a seu modo, mas a alinhar.

Interferências

Curiosa também é a indignação, manifestada oficialmente, perante a “interferência” americana na política europeia, com a exposição, no documento, dos males da Europa –estagnação económica, imigração descontrolada conducente à mudança de identidade demográfica e cultural e outros males.

Ora se os dirigentes de Bruxelas acusam a Administração Trump de interferência, a Administração Trump também terá as suas razões de queixa. Foram mais que muitos os políticos europeus em funções e uma legião de comentadores que apoiaram Kamala Harris na eleição americana e que atacaram Trump implícita ou explicitamente. Ou mais explícita do que implicitamente. Outro motivo de indignação da “Europa” é a desfaçatez com que, num verdadeiro ataque aos “valores europeus liberais e democráticos”, se faz referência aos partidos nacional-conservadores e populares que já governam nalguns países da Europa ou que são dados como favoritos pelas sondagens.

Além de tudo isto, merece também duras críticas a posição realista de Washington quanto à guerra na Ucrânia, situada algures entre o presidente Trump e o Secretário de Estado Rubio (este atendendo mais às objecções ucranianas, aquele mostrando alguma impaciência com Zelensky).

Aparentemente, para “a Europa”, dizer que a solução tem vindo a ser obstaculizada por dirigentes europeus é estar a mentir. E parece ser também irrelevante para a paz que o trio Macron, Merz, Starmer, que a toda a hora reúne com Zelensky, se entretenha a embargar qualquer princípio de negociação, não dando alternativas e procurando criar a impressão de que Putin dita as condições a Trump e que Witcoff está a servir os russos.

Entretanto Macron, que, incapaz de encontrar um governo que passe no seu Parlamento se desdobra em declarações belicistas, arranjou um comparsa militar, um tal de general Mandon (sugestivo nome), especializado em propósitos tremendistas. Daí que a grande preocupação americana quanto à Ucrânia, e sobretudo quanto às consequências da continuação da guerra da Ucrânia, seja o risco de uma “potencialmente catastrófica escalada com a Rússia, chegando à confrontação nuclear”.

Este risco de escalada e de confrontação nuclear é um primeiro aviso que se faz no documento em relação à Europa. O segundo é de que a Europa deverá preparar-se a médio prazo para uma presença militar americana reduzida. O terceiro, é de que não vai haver expansão da NATO.

O documento, na sua clareza brutal – quase tão brutal como a realidade – refere ainda as “expectativas irrealistas” generalizadas quanto ao desfecho da guerra da Ucrânia. É isto que sublinha o The American Conservative, que noutros aspectos, como quanto ao Médio-Oriente ou à pressão sobre a Venezuela, é muito crítico de Trump.

No entanto, ao contrário do relatado, entre nós, por alguns comentadores, o Documento Estratégia 2025 não deixa dúvidas quanto a Taiwan, declarando que Washington é contra qualquer mudança unilateral naquele estreito.

Morte ao portador das más-novas

Mas talvez o mais importante seja o diagnóstico crítico que emerge do documento, o diagnóstico de uma Europa em “erosão civilizacional”. O declínio que os Estados Unidos apontam à Europa pode centrar-se na economia e na defesa, mas é a falta de valores de orientação, ou o seu desnorte, que o dita. As elites europeias, sobretudo as políticas e intelectuais, com os seus ideais mundialistas e hedonistas, abandonaram os valores religiosos, patrióticos e familiares que identificavam a Europa, privilegiando o materialismo consumista que as levou a reduzir a Política à Economia. Daí a política – também seguida até Trump nos Estados Unidos – de desindustrialização e deslocalização de indústrias, que acabou por marginalizar as classes trabalhadoras e abalar as classes médias.

Ao mesmo tempo, o chamado wokismo – a ideologia das novas esquerdas levada para a América por filósofos europeus, e que da América retornou à Europa em ponto de rebuçado –, não morreu e continua a tomar conta das sensibilidades intelectuais de meia-Europa, impondo os seus absurdos princípios como “novo senso comum” através de alguma Academia, de alguma intelectualidade e de grande parte dos meios de comunicação de massas.

A decadência de uma elite e de um povo caracteriza-se quase sempre pelo complexo de culpa; este, por sua vez, objectiva-se na relação com a História, que, no caso dos povos europeus colonizadores, é reduzida à opressão e à escravização, num mea culpa, mea maxima culpa que os grupos ou grupúsculos esquerdistas exploram, com grande habilidade, extorquindo o que dele podem moral e materialmente.

Os “europeus” parecem optar pela velha solução cleopátrica de matar o portador das más-novas. Aqui não matam, que o portador é maior e mais forte que eles. Mas moem.