Não acredito nem no Natal onde o presépio é escondido ou apagado, nem no Natal puritano, sem luzes ou consoadas. Não acredito nessa promessa, quase de quinto império, segundo a qual o verdadeiro Natal só existe na “província” à lareira, como também tenho dificuldade em entender o Natal cheio de sofreguidão e anonimato. Não acredito num Natal onde a verdadeira luz somos nós, esteja ela dentro ou fora de nós, como também não acredito num Natal que não nos implique. Não acredito num Natal que serve de anestesia ou aspirina para conflitos e distâncias, mas também me distancio de um Natal que só sirva para rever inimizades. Não acredito num Natal onde as acusações permanentes de superficialidade são atiradas contra todos, como se oferecer algo não pudesse ser um ato de generosidade genuína, e até religiosa. Não acredito num Natal transformado em festa de inverno ou apocalipse religioso.
Sobretudo, não acredito no Natal transformado em campo de batalha. Como quando, a cada dezembro, alguém declara que o “verdadeiro” Natal está sob ataque. E outros respondem que o Natal já nem deve sequer ser nomeado para evitar ferir suscetibilidades. Entre defensores zelosos e detratores militantes, o Natal vai sendo usado como arma.
Talvez ajude recuperar a natureza original dessa narrativa. O Natal não nasce como um postal. Nasce como contraponto discreto a um mundo convencido da sua própria glória. No tempo de Augusto, falava-se de uma Idade de Ouro, onde a paz, a prosperidade e a ordem eram garantidas pelo império. Em contraponto, acontece um nascimento sem pompa, fora das cidades importantes, fora das genealogias do poder. E ao deslocar-se a atenção do centro para a periferia, insinua-se que a grandeza nem sempre coincide com aquilo que o mundo considera grande.
Ainda hoje, essa deslocação continua a ser incómoda. O Natal tem esse efeito: ilumina zonas que preferíamos deixar à sombra. Como escreveu Jack London, numa carta de juventude, há dias em que a mesa de família nos faz sentir mais estrangeiros do que o mundo lá fora. O Natal tem esse talento estranho de revelar a fissura por baixo da decoração. Mostra-nos, com alguma crueldade, as ausências, os mal-entendidos acumulados, o que não soubemos reparar a tempo.
É talvez por isso que tanta gente sofre no Natal — e não por falta de espírito festivo. É porque a narrativa que insistimos em suavizar fala, no fundo, de vulnerabilidade. Não apenas da fragilidade de um recém-nascido, mas da nossa. E é precisamente aí que, paradoxalmente, o Natal se torna mais verdadeiro: quando deixa de ser anestesia e se torna claridade. Quando em vez de nos distrair, nos obriga a olhar.
Karl Rahner dizia que a noite só se torna “noite boa” quando algo irrompe dentro dela. Não quando é varrida para debaixo do tapete. É essa subtil diferença que separa o Natal como decoração, do Natal como acontecimento: no primeiro, tentamos fugir do escuro; no segundo, admitimos que ele existe — mas não tem a última palavra.
Por isso, continuo a não acreditar neste Natal — no Natal de plástico, nas trincheiras culturais, nas versões higienizadas ou tóxicas. Mas acredito num Natal mais pequeno, quase impercetível, que acontece quando a noite não desaparece. Um Natal que não resolve, que não consola por decreto, que não nos promete perfeição. Afinal de contas, depois do Natal, Jesus, Maria e José tiveram que fugir.