“Reféns libertados pedem a Israel que mantenha cessar-fogo em Gaza” — escreve a Lusa, agência dita de notícias, que neste ano de 2025 custará aos contribuintes portugueses 21,5 milhões de euros, a propósito das declarações feitas pelos reféns israelitas no momento em que eram exibidos como troféus pelo Hamas, em Gaza. Lendo o texto da Lusa somos levados a crer que a paz e a libertação dos reféns só dependem da boa ou da má vontade de Israel e do seu primeiro-ministro e que os reféns estavam livres no momento em que faziam aquelas declarações.

Mais espantosamente ainda, a nossa querida Lusa considera que os reféns foram libertados pelo Hamas em Gaza como se Ohad Ben Ami, Eli Sharabi e Or Levy pudessem a partir daquele momento dispor da sua vontade e dos seus movimentos, quiçá começando a passear no meio de Gaza: “Os três reféns israelitas libertados hoje pelo Hamas no centro da Faixa de Gaza, apelaram ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, para que não interrompa o cessar-fogo e prossiga com as trocas de prisioneiros palestinianos.”

O momento que a Lusa designa como libertação tem sido vivido pelos reféns como um dos mais assustadores desde o dia em que foram raptados: o rosto aterrorizado de Arbel Yehoud rodeada por homens do Hamas de cara tapada e no meio dos gritos de ódio da multidão quando estava para ser entregue à Cruz Vermelha a 30 de Janeiro espelha bem o medo de quem vive esse momento em que, segundo a nossa Lusa, se fica livre no meio de Gaza, o que a acontecer equivaleria muito provavelmente a uma sentença de morte para o israelita “recém-libertado”. Aliás, uma das perversões destas encenações do Hamas passa precisamente por colocar os reféns a olhar para os terroristas que os raptaram e maltrataram como os seus derradeiros protectores perante aqueles homens que os invectivam e ameaçam. Na exibição dos reféns não há libertação alguma, há sim uma demonstração de poder em estado bruto. E brutal.

Mas continuemos. Algumas frases são tão absurdas que nem fazem sentido: “Ami, 56 anos, surgiu visivelmente mais magro e envelhecido após mais de um ano de cativeiro, segundo a agência espanhola EFE.” Será que a Lusa precisa de recorrer à agência EFE para escrever que Ohad Ben Ami, foi raptado a 7 de Outubro de 2023 e portanto há mais de um ano? Ou que está mais magro e mais envelhecido? As imagens da Al Jazeera do Qatar que a Lusa referira antes para dar conta de como Ohad Ben Ami “rodeado de milicianos palestinianos” (eu acho que talvez sejam escuteiros!) declarava “Peço ao Governo israelita que continue na via das negociações, peço-lhe que cumpra a segunda fase do acordo” não eram suficientes para perceber que o refém está mais magro, mais envelhecido e, acrescento eu, com o ar de quem passou por uma terrível provação? E que o mesmo acontece com os outros dois reféns?

Querem comparar as imagens destes homens com as daqueles palestinianos que Israel tem libertado? Aliás, no meio da agit-prop em que as notícias sobre Israel e o Hamas estão transformadas, acaba a ser o próprio Hamas a desmontar alguns dos slogans que por aí andam, nomeadamente os do genocídio, da população a morrer de fome, de frio, e da região onde não há pedra sobre pedra: nas imagens feitas pelo Hamas de Ohad Ben Ami, Eli Sharabi e Or Levy a serem levados para o estrado onde seriam exibidos é possível perceber como os únicos mal alimentados são os reféns, que de genocídio nem sombra e que, ao contrário do que se diz e escreve na Europa, não estamos perante uma zona completamente destruída.

Em resumo, e tendo em conta o acendrado amor do Governo de Montenegro pela Lusa — além dos 21,5 milhões de euros inscrito no OE deste ano, o executivo de Luís Montenegro já tinha desembolsado 2,49 milhões de euros pelas participações da Global Media e Páginas Civilizadas na Lusa —, venho propor duas coisas que na verdade não se excluem uma à outra: a Lusa muda-se para Gaza, o que sempre libertava mais um edifício para habitação de renda acessível em Lisboa, e, segunda proposta, passa-se o orçamento da Lusa a ajuda humanitária aos palestinianos. Ficávamos todos a ganhar.

Luís Montenegro pode enterrar na Lusa o dinheiro dos contribuintes. Talvez assim espere conseguir alguma paz nas notícias. O que nós não podemos é aceitar os exercícios panfletários da agência dita noticiosa.

O bairro La Négresse (A Negra), da cidade francesa de Biarritz, vai ter mudar de nome. Assim o determinou a justiça, que deu razão aos activistas que consideram esta designação racista e colonialista. Como é óbvio não se sabe se La Négresse se referia exactamente a uma mulher, se essa mulher era negra ou até se não aludiria aos terrenos argilosos da zona. Nada disso interessou. La Négresse vai deixar de ser La Négresse porque os zelotas do costume não descansam enquanto não controlarem tudo e todos. Como é óbvio, se se proíbe o topónimo La Négresse (A Negra) também não se pode tolerar o La Blanche (A Branca), que também por ali existe. Também há que ponderar se a magia pode continuar a ser negra e as armas brancas. E o que fazer com os filmes negros e o branqueamento de capitais? E será que o texto em branco tem de passar a texto em negro?… Quantos aos topónimos será um nunca mais acabar. Com autárquicas à porta quem sabe.