Há um instinto antigo, quase tribal, que atravessa a história do poder: quando a notícia é má, mata-se quem a traz, como se calar a voz resolvesse o problema que ela anuncia. Os generais da Antiguidade degolavam mensageiros de derrotas. A política portuguesa, mais civilizada na forma, mas não muito diferente no conteúdo, limita-se a dizer, de forma educada, que a pessoa “tem um problema de tom”. É basicamente a mesma manobra, sem sangue e acompanhado de um comunicado de imprensa escrito por um qualquer assessor.
Esta semana, coube a Pedro Passos Coelho voltar a ser esse mensageiro incómodo. Disse, uma vez mais, o que já vem afirmando há meses: que o Governo devia “ousar mais” em reformas estruturais, que Montenegro precisa de estar “à altura da tradição do PSD”, e que um executivo anda entretido a gerir cortes no IRS e bónus a pensionistas, sem tocar no que imobiliza o país a sério — justiça, estado, produtividade, habitação, saúde —, estando a hipotecar o futuro para tornar o presente mais confortável. Nada disto é novo. O que é novo é a insistência: Passos já não fala de reformas para esta legislatura, fala de reformas pensadas a vinte anos, como quem percebeu que a diferença entre um país remendado e um país reconstruído não se mede em orçamentos, mede-se em gerações.
A resposta, previsível, veio de dentro de casa.
Leonor Beleza, vice-presidente do PSD, veio dizer que tem “muita dificuldade em compreender” as críticas do antigo primeiro-ministro. A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, preferiu o argumento da paciência: o Governo anda apenas a resolver problemas que já têm quinze anos, como quem pede desconto pelo tempo perdido antes sequer de explicar o que fez com o tempo que já teve. Passos respondeu com a calma de quem já viu o mesmo filme dezenas de vezes: disse que só quer “estimular a ambição” do PSD, que “respeita que as pessoas podem ter outras opiniões”, e voltou a fechar a porta a qualquer aventura de um novo partido, e bem — “eu sou do PSD e, portanto, não ando em aventuras construir novos partidos”. Não seria preciso dizê-lo, se dentro do próprio partido não houvesse quem preferisse colocar em causa a sua lealdade a discutir os diagnósticos assertivos que faz.
E o que ele diz é, no fundo, a grave patologia que atravessa toda a política portuguesa, não só o PSD: ninguém sabe qual é o projeto de país para daqui a dez ou vinte anos. Pergunte-se ao PS, pergunte-se ao Chega, pergunte-se a quem quiser — a resposta é sempre a mesma coleção de medidas para o próximo trimestre, nunca uma única ideia do que Portugal deveria ser na próxima geração. É uma classe política inteira a gerir o país como quem gere uma operação de tesouraria a curto prazo, entre o próximo orçamento e a próxima sondagem, sem que ninguém pareça muito preocupado com isso.
Os portugueses acham. Uma sondagem da Aximage, feita nos primeiros dias de setembro, mostra que 77% classificam a resposta do Governo ao custo de vida como inadequada ou muito inadequada — e, mais revelador ainda, 65% de quem votou PSD/CDS nas legislativas de 2025 pensa o mesmo do seu próprio governo. Quatro em cada dez portugueses dizem estar pior do que há um ano, e 63% esperam que a situação continue a piorar até ao final do ano. Isto não é desalento com uma medida ou com um ministro. É desalento com a ausência de qualquer horizonte — a sensação de que ninguém, em lado nenhum do espectro, está de facto a pensar no país que os filhos e netos de todos vão herdar.
Por isso faz sentido que cada vez mais gente olhe para Passos Coelho e veja, não um antigo primeiro-ministro nostálgico do seu próprio mandato, mas alguém que continua a ter razão antes do tempo — como já teve, para o bem e para o mal, noutras alturas em que incomodou muito mais gente do que convenceu. O desconforto que ele cria não é um efeito colateral das suas críticas. É a prova de que está a acertar em alguma coisa que o poder instalado prefere não ouvir.
Continuar a matar o mensageiro não vai apagar a mensagem. Só vai atrasar o dia em que alguém, finalmente, a leia a sério. E esse dia, certamente, está cada vez mais perto.