A pergunta impõe-se: porque continuamos a utilizar determinados materiais na construção quando existem alternativas com melhor desempenho ambiental, maior segurança e benefícios claros para quem habita os edifícios? Não há milagres. Materiais como o poliestireno expandido (EPS), o poliestireno extrudido (XPS) ou o poliuretano (PUR) apresentam excelente desempenho térmico, algumas vantagens acústicas e um custo reduzido. Tornam-se, por isso, atraentes para quem constrói, mas muito menos para quem vive nos edifícios, e ainda menos para a segurança das pessoas e para o ambiente.
Esta questão ganha particular relevância num contexto de combate às alterações climáticas, em que a sustentabilidade deixou de ser opcional. O recente incêndio ocorrido na Suíça voltou a expor uma fragilidade estrutural que a construção contemporânea continua a ignorar: a presença massiva de materiais combustíveis, muitos deles de origem petrolífera, em edifícios onde a segurança deveria ser um requisito inegociável. Espumas sintéticas de isolamento, revestimentos plásticos e outros derivados do petróleo aumentam significativamente a carga de incêndio dos edifícios. Em situação de fogo, libertam gases altamente tóxicos, colocando vidas humanas em risco e dificultando a intervenção dos meios de socorro. As classes de reação ao fogo dos materiais não podem continuar a ser tratadas como um detalhe técnico secundário. Num cenário de crise climática, maior densificação urbana e incêndios cada vez mais extremos, torna-se imperativo afastar materiais altamente combustíveis da construção e privilegiar soluções minerais e naturais, com comportamento previsível e seguro ao fogo. A proteção das pessoas deve estar acima de critérios económicos de curto prazo.
É fundamental alertar projetistas, equipas de fiscalização e donos de obra para um ponto frequentemente ignorado: eficiência energética não se resume ao desempenho térmico de um material. A escolha do isolamento deve integrar critérios de segurança, durabilidade e impacto ambiental. A tragédia da torre Grenfell, em Londres, em 2017, é um exemplo claro das consequências de decisões negligentes na seleção de materiais de construção.
Em Portugal, foi apenas em 2007, com a entrada em vigor do Sistema de Certificação Energética, que o isolamento passou a ser amplamente adotado. Isso não significa, porém, que tenha sido corretamente aplicado ou que os materiais escolhidos tenham sido os mais adequados. Muitas habitações continuam frias no inverno e excessivamente quentes no verão, falhando o objetivo principal do isolamento. A estas falhas soma-se um problema ambiental de grande escala. Os materiais plásticos representam hoje uma fatia significativa dos resíduos produzidos, incluindo os resíduos de construção e demolição. Quando chegam ao oceano, os impactos tornam-se particularmente graves: fragmentos ingeridos por animais marinhos causam danos mecânicos muitas vezes letais e, ao mesmo tempo, estes materiais absorvem contaminantes, libertando microplásticos que entram na cadeia alimentar humana.
Importa também desfazer um mito recorrente: a reciclagem destes materiais não é uma solução estrutural. Embora tecnicamente possível, não existe mercado capaz de absorver as quantidades produzidas, nem processos que permitam a sua reciclagem em larga escala sem perda significativa de qualidade. Usar a reciclagem como argumento de sustentabilidade é, por isso, enganador.
Passamos cerca de 90% do nosso tempo dentro de edifícios. É essencial que sejam energeticamente eficientes, mas é igualmente essencial que sejam seguros e construídos com materiais responsáveis. Continuar a escolher soluções apenas com base no preço é, aparentemente, uma irresponsabilidade técnica e ética. Se nada mudar, caminhamos para um futuro em que, segundo a Ocean Conservancy, haverá no oceano cerca de um quilo de plástico por cada três quilos de peixe e continuaremos a assistir a tragédias evitáveis, como a que recentemente chocou a Suíça.