A sensação inicial ao entrar em contacto com água a ferver é de frio. Nem por isso calor intenso, mas frio. Isto porque as terminações nervosas estão tão surpreendidas como o nosso corpo e, por conseguinte, confusas, dando assim a sensação de frio, muito frio, quase como se mergulhássemos num mar de gelo.

Afinal, ninguém está à espera de ser cozido vivo.

Rapidamente constatamos estar em água a ferver e a dor dispara.

Se tivermos a sorte de ter a cabeça à tona de água, deste modo evitando a cozedura da massa cinzenta dentro do próprio crânio, o cérebro fará tudo ao seu alcance para sobreviver, inundando o corpo de endorfinas e concentrando as suas energias nos órgãos vitais. Histaminas são bombeadas em doses industriais enquanto o sangue corre para a superfície. O corpo incha e avermelha num esforço vão para controlar a temperatura interna, a qual só tem um sentido: continuar a subir.

Para quem pense não ser possível sentir dor quando dentro de água a ferver, estão enganados. A dor é real, tão real como a pele e os membros a queimar, a arder, a cozer, uma dor agonizante e prolongada. Por várias horas.

Após a cozedura da pele, membros, gordura e carne, os órgãos internos serão os próximos elementos desta receita macabra, cozidos entre sucos digestivos e sangue, do estômago ao fígado, dos rins aos intestinos, do pâncreas ao coração, entre outros.

De caminho cegámos e os pulmões queimam por dentro a cada inspiração. E o pior é estarmos conscientes durante a maior parte do tempo, deste modo condimentando a carne e os órgãos na perfeição enquanto tentamos nadar para fora deste poço da morte.

Por esta altura a pele do nosso corpo revestiu-se de uma textura coriácea, desprendendo-se aqui e ali da carne e ossos à mostra nesta figura meio morta, meio viva acabada de sair de um filme de terror onde, desta vez, nós somos o protagonista.

E chega. Chega para passar a mensagem e o exemplo quando, em plena época estival, assistimos em cada restaurante, em cada café, em cada bar e cozinha de Portugal a uma tortura típica dos tempos medievais para com milhares, não, milhões de gastrópodes, sim, entre caracóis e caracoletas, cozidos vivos para deleite de quem os come sem dó nem piedade para com estes animais.

E se a tortura acima descrita se aplicava em tempos imemoriais a homens e mulheres por pura crueldade, não vejo razão alguma para sujeitar a natureza em redor a igual sorte e é urgente evoluir,  não só como espécie, mas como elementos de uma sociedade que se diz civilizada.

E como em tudo, é preciso coragem, por mais ridículo que pareça, e quem nunca comeu um caracol que atire a primeira pedra. Eu incluído. Coragem para exigir uma vida digna, mas também uma morte digna, para os animais e plantas cujo destino é o nosso prato, a começar por estes pequenos gastrópodes vítimas dos requintes cruéis da cozinha portuguesa.

A mensagem é simples: ninguém merece ser cozido vivo, nem um caracol. E enquanto assim for, recuso-me terminantemente a ser cúmplice deste ritual impiedoso, sanguinário, carniceiro, sanguissedento, entre outros adjectivos descritivos do pior da natureza humana quando, em pleno século XXI insistimos em cozer animais vivos porque o segredo está no molho.