No pain, no gain. Esta expressão é usada pelos frequentadores assíduos de ginásios. Esforço, no caso físico, para ganhar musculo, ou um six pack digno de inveja. Milhares de peregrinos, anualmente, dirigem-se a santuários, a pé; dezenas, por vezes centenas de quilómetros, num esforço sobre humano. Acreditam que para garantir o seu pedido, para limpar a sua alma, para se encontrarem, precisam desse esforço. Só através desse esforço se libertarão.
Estas certezas existem desde o princípio dos tempos. Desde que, nas cavernas, para fazer lume era preciso esforço, para caçar, com uma simples lança era preciso esforço, para atravessar um mar era preciso esforço, muito e também coragem.
Para nascermos é preciso esforço, das nossas mães. Muito e sofrido.
Mas tudo o que vale ou valeu a pena, teve muito esforço na sua origem, esforço em que muitos perderam a vida. Dar novos mundos ao mundo. Circum-navegar esta esfera. Construir uma catedral, uma barragem, uma estrada, fazer uma cirurgia, um projecto. Competir nos 100 metros ou na maratona.
Muitas pessoas que nasceram duas gerações atrás, iam para a escola descalços. Percorriam quilómetros a pé. Eram castigados fisicamente por darem erros ortográficos. Ultrapassaram tudo e chegaram a locais impensáveis ou improváveis. Sempre com esforço, com muito esforço.
Ninguém nasce maratonista ou neurocirurgião. Nasce criança e vai passando por estadios sucessivos, como numa subida onde se começa com uma rampa de pequena inclinação e esta vai subindo até que passa a escada, na escada os degraus vão aumentando a sua altura, o esforço vai aumentando, até que a realidade se espraia numa planície onde podemos andar com menos esforço. Sentimo-nos como se tivéssemos chegado ao Olimpo.
Depois do esforço e risco, como o alpinismo, na subida do Evereste, imaginemos como se sente o alpinista a andar numa vulgar cidade.
E o prémio? O prémio, mais importante, na maioria das vezes, é só a satisfação dessa “ultrapassagem”. O efémero de subir a um pódio, ou de um simples beijo de felicitações.
O esforço faz parte da essência da vida. Hoje vivemos numa época onde o esforço não é valorizado, nem premiado. Tende-se a criar a ilusão, sim porque de uma ilusão se trata, que as coisas podem acontecer sem esforço. Que os alunos devem ser admitidos sem exames, que são, somos todos iguais. Acreditem, a felicidade está muito overrated. A felicidade é como a saúde, um estado provisório que não augura nada de bom. Percebe-se, sempre que um ser humano “atinge” a felicidade, fica infeliz e parte em busca de outra, num processo dinâmico, como na busca pelo infinito.
Mesmo felicidades muito provisórias, só são entendidas quando há um contraponto, alguma “infelicidade”. Quem nunca esteve infeliz só pode ser um idiota. Dostoievski explica-o melhor que eu.
A vida, que vale a pena ser vivida é mesmo uma montanha russa, chegamos ao topo e assim que lá chegamos percebemos que vamos cair, perder, apodera-se o medo, o pânico.
A vida não se ensina, aprende-se, com esforço, com quedas e mercurocromo.
E competição, muita competição, numa corrida, com uma bola, com uma bicicleta, com uma nota, numa entrevista de emprego. Na empresa. Em todo o lado.
A sensação de perda, de morte, faz parte da vida, (como os impostos) não a podemos escamotear. A vida não é uma ilusão. Há 50 anos era comum viverem, coabitarem, três gerações na mesma casa. Como era normal a pessoa ou pessoas da geração mais velha partir desta vida nessa casa. Com o conhecimento de toda a família, jovens incluídos. Ninguém era poupado. Nem aos problemas, que as famílias tinham, as dificuldades financeiras, as doenças, eram “partilhadas” com os mais novos.
Hoje nada disto acontece. As “crianças”, mesmo as de 18, 20 ou 30 anos, são poupadas aos horrores do esforço, à tragédia da infelicidade, seja ela de um chumbo ou de perder um jogo em que participou e perdeu. A geração mais velha esfuma-se num “lar”, “hotel sénior”, onde não recebe visitas dos mais novos para não os traumatizar com a visão da degradação humana, a que todos chegaremos, pelo menos os que tivermos…sorte.
“Citius altius fortius” o lema da superação olímpica fica para os outros.
As tropas especiais são as que têm o treino mais duro, mais esforço, mais pain. Mas costumam ser as que têm menos baixas.
A pré-escola é uma preparação para a escola, esta para o “ciclo” e por aí fora. Só que o “liceu” não prepara para a universidade, não a questão académica, ou melhor não é esta falha a que mais incomoda. É o jovem chegar a uma sala, com 60 colegas o professor debitar a matéria de forma ininterrupta e ir à sua vida. Primeira frequência e notas negativas. Como é possível se sempre me disseram que tudo o que eu fazia perfeito?
A competição nunca acaba. Se há 100 anos os competidores estavam ou na mesma aldeia ou na vizinha, hoje o competidor pode estar, está, na China, na India, em Silicon valley. E ou pedalam ou caiem
Temos vindo paulatinamente a reduzir a pressão sobre a próxima geração
Estejamos antentos, aquilo que a China e a India produzem mais e que mais afectará as nossas economias, não são baterias, carros eléctricos, roupa ou sapatilhas baratas, nem sequer o software, ou as ogivas nucleares, as maiores produções são de cérebros. Cérebros que depois produzem as baterias os carros eléctricos, satélites, ogivas nucleares e outras minudências. E como? Com esforço, com a mesma persistência com que treinam os atletas. Caindo e levantando-se, tantas vezes quanto necessário.
Os nomes dos melhores estudantes nas universidades americanas, nas que (ainda) desenvolvem tecnologia e ciência, têm pouco de anglo-saxónico e menos ainda de latino. São nomes como Manjul Bhargava (medalha Fields), ou Adrienne Lai a lista é grande.
Talvez ainda vamos a tempo.