Portugal tem falta de intelectuais. Em geral, este é o tipo de diagnóstico feito por quem não é intelectual, mas não se importava que o reconhecessem como tal. Ainda assim, no momento em que se discute o Orçamento de Estado, a ausência deste tema no debate é, no mínimo, escandalosa.

Pelo menos temos Isabel Figueiredo. Com obra publicada, participação em fóruns e uma coluna num semanário, é, por natureza uma intelectual. Por isso, na semana passada, desmoronou, sem pudor, as convenções da cultura dominante, e num daqueles olhares ácidos e mordazes, a que só um intelectual tem acesso, diagnosticou: temos um problema e esse problema é o Preço Certo.

Se o leitor está surpreendido com a conclusão é provável que a autora seja mesmo uma intelectual. Se o leitor concorda com a autora é provável que, também seja, um intelectual. Por isso, como gosto de me armar em esperto, que é o primeiro passo para ser intelectual, mesmo estando surpreendido, concordo com ela.

Isabela Figueiredo assinala – e bem – que o Preço Certo é um “chinfrim” insuportável, que “parou no tempo”, e com valor cultural “nulo”. E eu concordo. É melhor acabar, de uma vez por todas, com tudo o que é inútil e uma balbúrdia na televisão. Por exemplo, debates e coisas de política. Quantas vezes não é só gritaria? Esta coisa de as pessoas discordarem livremente umas das outras não estará fora de moda? Afinal de contas, quanto é que tudo isto contribui para o PIB? Existia a real mesa censória, depois o lápis azul, eu sugiro à ERC a criação de uma fiscalização preventiva que avalie a utilidade económica e cívica de cada programa.

Mas desengane-se quem crê que a crítica de Isabela Figueiredo é apenas polemista. A autora quer, também, apresentar propostas, mostrando, assim, contrariamente ao que dizia o meu tio Vítor, que os intelectuais não são todos inúteis. A sugestão é trocar o Preço Certo por “qualquer coisa de construtivo”, algo, até, com uma “função didática”.

Eu não sou historiador, mas tenho a sensação que os regimes que só permitiam coisas construtivas e didáticas na televisão, não eram, propriamente, democracias. Mas Isabela acrescenta: nada como aqueles “programas sensaborões de cultura geral, como o Joker de Vasco Valentim [Eu sei que é Vasco Palmeirim, mas a citação é autêntica]. Os Big Brothers da vida”.

É estranha esta associação entre o Joker e o Big Brother. Assisti uma vez a um programa do segundo certame, e não me lembro de perguntarem aos concorrentes, que engenheiro projetou a Ponte da Arrábida. O mais perto que o Big Brother alguma vez teve dum concurso de cultura geral foi quando perguntaram a três concorrentes “o que é que a Iury aconselha a provar em Aveiro?” e um respondeu “um moliceiro”.

Mas a sugestão tem a sua razão de ser. Quem nunca desejou ver uma tragicomédia checa do pós-guerra, uns desenhos animados suecos sobre urbanismo sustentável em Oslo, ou um documentário sobre a reprodução do lince ibérico com narração de Camané, quando chega a casa depois de um dia de trabalho?

E é precisamente aqui que se vê uma das facetas clássicas do intelectual. Isabela Figueiredo sente-se incompreendida, e vê-se forçada a confessar: “As pessoas talvez não queiram programas construtivos, querem é festa”. Trata-se, afinal, de uma conclusão refrescante, com o mesmo nível de densidade intelectual de sucessos como: “as crianças preferem gelado a brócolos” ou “prefiro Cartuxa a vinho de pacote”.

Mas o texto não termina sem compaixão. Isabela aponta que, ao menos, se salva “a autenticidade do público”, “portugueses reais”, que se parecem com “os familiares da terrinha, que visitamos no Natal”, “gente boa que mata o seu porco, quando chega a altura correta do ano”. É um elogio que aleija. Tenho notado, aliás, um aumento significativo deste fenómeno. Achamos que alguém é parolo, mas para não o ofender, chamamos-lhe “rústico”. Entendemos que alguém é mal-educado, e dizemos aos pais que “o miúdo é um vivaço”. Em princípio, ficamos sossegados com a nossa consciência, e o nosso interlocutor, em geral, sai lisonjeado.

A xenofobia é, certamente, um dos problemas dos nossos tempos, mas este tipo de segregação do povo português, entre “gente boa que mata o seu porco” e quem não o faz, tem o meu aval. Quem não come sarrabulho deve ser ostensivamente discriminado. Isso, sim, devia fazer perder a nacionalidade.

Eu não tenho as qualificações literárias da professora Isabela Figueiredo. Não tenho, nem quero. Mas, em geral, quando alguém usa os termos “portugueses reais”, “familiares da terrinha”, e “gente boa”, não está propriamente a fazer um elogio. É o contrário. É o que se diria dos indígenas ou dos primatas. E se calhar é isto que Isabela Figueiredo precisava. Em vez de achar que o Preço Certo é um programa de entretenimento, devia vê-lo como um documentário da BBC Vida Selvagem. A seguir podia organizar um safari.