Na tarde em que a luz colapsou, resgatei um momento da infância que me parecia perdido. É o que acontece quando encontramos tempo e espaço para olhar em volta. De repente, há qualquer coisa que ressurge e que não percebemos de onde vem. José Cardoso Pires escreveu que essa capacidade (de recordar) nos faz medir e sentir o tempo. (José Cardoso Pires, em De profundis, Valsa Lenta).

Há uns anos, os meus pais estavam a construir uma casa, inserida no coração do campo. Não existiam ainda portas ou janelas, mas lembro-me que já havia luz. Esta pirâmide de necessidades é interessante. Portas e janelas, claro, mas primeiro a luz. Era de noite quando um morcego ali entrou em direcção a uma das lâmpadas. Rodeou-a em movimentos repetitivos e desorientados, porque a regra do morcego é a escuridão e não tanto a luz. Talvez essa seja também a ordem que sustenta o mundo: a luz, não como a constante, mas como excepção.

Entre os dois mamíferos (um morcego e um humano) sinto uma profunda admiração pelo primeiro. Principalmente porque, numa ocasião anómala, não é capaz de levar para casa centenas de garrafões de água, papel higiénico, atum, tampouco triplica o preço dos rádios e das lanternas. Essa violência está apenas ao alcance do segundo, e a explicação é simples, embora terrível:

“Os que se salvaram [do Lager] não foram os melhores, os predestinados ao bem, os portadores de uma mensagem: tudo o que vi e vivi demonstrava o exacto contrário. Sobreviviam de preferência os piores, os egoístas, os violentos, os insensíveis, os bufos (…) isto é, os mais adaptados. Os melhores morreram todos.” (Primo Levi, Os que sucumbem e os que se salvam, D.Quixote).

Mais uma vez, os campos como reflexo de uma sociedade doente. Em situações-limite, um bom coração pode ser dos primeiros a parar, pois é à custa desse que os outros continuam.

Assim, termino como só Goethe soube terminar: “Mehr Licht!” (mais luz!).