Contratar um crédito tornou-se, nos últimos anos, um exercício hercúleo. Entre a complexidade dos produtos bancários, a multiplicação de campanhas promocionais (muitas vezes recheadas das já habituais “letras minúsculas”) e a pressão crescente sobre os orçamentos familiares, a experiência de financiamento está longe de ser simples ou transparente.

Com a digitalização dos processos e o aumento da concorrência no setor financeiro, os portugueses passaram a ter mais opções – mas também mais dúvidas. Neste cenário, e tendo em conta que a literacia financeira em Portugal ainda é limitada, os intermediários de crédito tornaram-se, silenciosamente, uma peça central. E os dados confirmam-no.

Segundo o Relatório de Acompanhamento dos Mercados de Crédito do Banco de Portugal, só em 2024, 56% dos contratos de crédito habitação foram celebrados com intervenção de um intermediário. No crédito ao consumo, a percentagem já atinge quase metade do montante total concedido (49,9%), com especial incidência no crédito automóvel, em que 83,1% do montante foi contratado com ajuda destes profissionais.

É uma mudança de paradigma. Os consumidores passaram a confiar em quem lhes apresenta soluções e não apenas produtos. E fazem-no porque no mundo do crédito ter informação não basta – é preciso saber interpretá-la, compará-la e aplicá-la ao caso concreto de cada família ou empresa.

Quando o crédito precisa de tradução

Durante muito tempo, a atividade dos intermediários de crédito foi vista como um simples “apoio burocrático” no processo de contratação de um financiamento. Contudo, os dados mais recentes não deixam margem para dúvidas: os intermediários são hoje estruturais no acesso ao crédito em Portugal – e a sua importância continua a crescer.

O intermediário de crédito não é apenas alguém que “trata do processo” ou “adianta papelada”. É, acima de tudo, um tradutor entre o jargão bancário e a vida real das famílias. Estes profissionais analisam a capacidade financeira do cliente, comparam propostas de várias instituições e apresentam cenários claros sobre custos, riscos e implicações futuras. Isto significa que têm um papel fundamental na promoção da literacia financeira e na democratização do acesso ao crédito.

Num mercado em que, tantas vezes, os spreads variam por milésimos, mas as consequências podem valer milhares de euros, o intermediário de crédito é, muitas vezes, a voz do lado do cliente. E num contexto de taxas de juro ainda elevadas, salários pressionados e contratos de financiamento cada vez mais longos, esse papel tornou-se crucial.

É por isso que o crescimento da intermediação é uma boa notícia. Significa que os consumidores estão a procurar ajuda especializada, a tomar decisões mais informadas e a conseguir melhores condições. Significa que a confiança já não é depositada cegamente no balcão de um só banco. É, sim, canalizada para a comparação e escolha consciente.

Portugal precisa de um mercado de crédito competitivo, transparente e acessível. E os intermediários são uma parte essencial da solução.