O assunto TAP tem uma capacidade de apaixonar o país como mais nenhum outro. Eu, culpado, me confesso. Acho, aliás, que a paixão com que se discute a TAP deveria ser incluída no teste de cidadania que o Dr. Ventura quer implementar para a obtenção da nacionalidade. Um estrangeiro só pode ser verdadeiramente considerado parte da comunidade portuguesa quando tem não só uma opinião firme e inamovível sobre a TAP, mas também a intenção de a expressar de forma sanguínea. Falando mais a sério, o assunto TAP está novamente na ordem do dia e vale a pena rever a matéria dada.

  1. Ao longo das décadas, a TAP constituiu-se como uma vaca sagrada do regime, com sinecuras múltiplas distribuídas pelos amigos do costume, enquanto o povo pagava à laia da manutenção dos interesses estratégicos do país, do orgulho em viajar numa companhia de bandeira e da necessidade de transportar a diáspora. Que países como a Irlanda ou a Grécia, com diásporas bem maiores do que a Portuguesa, já tenham há anos privatizado as suas companhias de bandeiras é irrelevante enquanto princípio de emulação nas políticas públicas. Até a estatista França já alineou há muito o controlo público da Air France. Tudo isto é irrelevante para a elite que pastoreia o bom povo português.
  2. A privatização da TAP feita por Passos Coelho à décima quinta hora poderia ter tido mais lisura processual. No entanto, foi um sucesso total. Durante os anos de Neeleman, aconteceram três coisas fundamentais. Em primeiro lugar, o fim da obsessão ridícula e sem sentido com o mercado brasileiro e a reorientação da TAP para o mercado americano. Em segundo lugar, Neeleman conseguiu renovar completamente a frota da TAP. Quem viaja frequentemente na companhia sabe a diferença abissal entre o antes e o depois do empresário americano. Em terceiro lugar, Neeleman inventou a ideia de short-stop em Lisboa, fazendo do país um ponto de entrada de americanos que, depois de fazerem uma paragem curta em Portugal, fazem ligações para o resto da Europa. Que Neeleman seja tratado como um empresário de vão de escada pela imprensa portuguesa é risível. Nos Estados Unidos criou a JetBlue, uma das maiores empresas do mercado mais competitivo e difícil do mundo. Para além disso, Pedro Nuno Santos, em toda a sua esplendorosa sapiência, despediu Antonoaldo Neves porque, supostamente, não percebia o suficiente de aviação para gerir tão excelsa companhia. Uns meses depois, foi contratado como CEO da Ethiad, uma das principais companhias aéreas do Golfo.
  3. Quando chegou o momento da pandemia, diferentemente dos outros países europeus, que exigiram às companhias a devolução do dinheiro emprestado, em Portugal injectaram-se 3,2 mil milhões de Euros a fundo perdido. Agora, José Luís Carneiro, novo líder do PS, consegue dizer, sem se rir, que o partido fará da recuperação deste valor uma condição indispensável ao apoio político do PS à privatização.
  4. Eis-nos chegados ao momento esplendoroso do Dr. Montenegro que, aparentemente, pretende continuar a acumular trapalhadas na TAP. O erro cometido pelo primeiro-ministro é evidente: trata as condições políticas para a venda da companhia como algo exógeno ao processo político no qual é um dos principais actores. Por outras palavras, em vez de procurar uma solução política para maximizar a venda da companhia, sujeita este processo às condições políticas possíveis. Aparentemente, que se saiba, não houve quaisquer negociações com os Socialistas ou com o Chega para obter um equilíbrio político que permitisse vender a companhia nas melhores condições possíveis. Montenegro apresenta-nos, assim, o facto consumado da venda de uma posição minoritária na companhia que, garantem-nos, terá não só interessados como suscitará um bom valor de mercado.
  5. A solução encontrada por Montenegro parece preocupar-se mais com a estabilidade política e com as considerações de não ter demasiadas chatices nos próximos meses do que propriamente. Exactamente como António Costa, Montenegro não tem qualquer plano para o país para além do viver habitualmente e da gestão diária, quase como um gestor de massa falida.
  6. Do ponto de vista estritamente do utilizador, todo o argumentário em torno da TAP parece francamente ridículo. Senão vejamos. Há a ideia, sempre repetida, da manutenção do hub em Lisboa. Mas, permitam-me perguntar: qual hub? Existe um hub quando o aeroporto não tem remotamente as condições para acolher os passageiros? Quando as filas para passar a fronteira são intermináveis? Quando os atrasos decorrentes dos constrangimentos de espaço aéreo são inenarráveis? Diz-se que Lisboa é a grande porta de entrada do Brasil na Europa. Sê-lo-á para cidades de província no Brasil, com pouco interesse económico ou cultural. No entanto, segundo os dados mais recentes, a ligação Madrid-São Paulo, a cidade mais importante do hemisfério Sul, transporte cerca de 300.000 passageiros a mais por ano do que a ligação Lisboa-São Paulo. Nem vou falar da total ausência de qualquer ligação ao resto da América Latina, como Buenos Aires, Cidade do México ou Lima. Alguém falou em hub?
  7. O aeroporto da Portela tem condições dignas do terceiro mundo. Qualquer passageiro que passe frequentemente por aeroportos com hubs, por exemplo, Frankfurt, Istambul, Madrid, ou Amsterdão para não sair da Europa, sabe perfeitamente que Lisboa não tem um hub, tem um projecto de hub. Dir-me-ão que o hub surgirá quando houver um novo aeroporto. No entanto, o valor da TAP está intrinsecamente ligado ao seu controlo – diria quase tentativa de monopólio – dos slots da Portela. Quando Portugal tiver um novo aeroporto, se esse dia alguma vez chegar, confesso que sou muito céptico, com a multiplicação dos slots o valor estratégico da TAP cairá em flecha, porque as companhias estrangeiras conseguirão finalmente aceder a slots em condições de igualdade, tal como defendido frequentemente nos relatórios da União Europeia.
  8. Chegados aqui, penso que os contribuintes portugueses devem entender a TAP como um custo afundado. Felizmente para nós, Bruxelas protege-nos do nosso próprio governo, impedindo-o de meter mais um euro que seja na companhia. Interessa, acima de tudo, livrar-nos da TAP o mais rapidamente possível para que seja, então, possível direccionar as atenções políticas e financeiras para a construção do aeroporto e, acima de tudo, do TGV. Ficámos, de resto, a saber esta semana que Portugal perdeu mil milhões de euros de financiamento Europeu a fundo perdido para a construção da alta velocidade, um crime de lesa pátria com o qual ninguém parece verdadeiramente estar preocupado. Foi apenas uma nota de rodapé nos jornais.