Longe da cidade, o silêncio é uma fábula, uma fantasia contada por quem pouco tempo aqui passa, ou anda desatento. A vida no campo preenche-se por uma azáfama de sons e músicas naturais ou humanas, com as raras exepções das horas tórridas de tardes de verão ou a calada das noites geosas do inverno. A melodia da vida é musicada por solfejos da brisa ou rajadas fortes do vento, por cantos de pássaros distintos, pelas asas dos sei-lá-quantos insectos, pelo balir das ovelhas, pela chuva que cai, do motosserra que corta, pelo cão que ladra noite fora à luz da lua.

Neste “silêncio”, há uma plenitude simples que se abraça e nos entorpece a razão, apaziguando monstros e exorcisando demónios filhos do ruído mecânico, sempre constante nas ruas da sempre movimentada cidade.

Longe vai o tempo em que ao ouvir um avião se erguiam os olhos, para decifrar a origem e destino de um colosso de plástico e metal que cruzava o nosso céu. Curiosos, olhávamos o céu em busca de respostas, que só a imaginação conseguia satisfazer. Nos últimos anos, no entanto, no advento da constante mobilidade e do turismo de massas, o “silêncio” do campo viu-se afastado pelo constante zumbido dos céus, marcado a giz por um emaranhado de nuvens finas, rectilíneas — pegadas que insistem em cortar os nossos céus e a nossa tranquilidade. A quantidade profusa de aviões era tal que o seu zumbido quase que se deixou de ouvir, nas vivências do dia, tornando-se parte integrante da paisagem musical, o dia inteiro e noite fora.

Sacrificados por caprichos ou necessidades secundárias, tudo era motivo para viajar, e assim a paz e o sossego das serras e dos campos foram lentamente substituídos pelo constante zumbido mecânico. Já nem nas noites frias de inverno, onde o silêncio reinava costumeiro, esse barulhinho, zunzum constante de motores, se fazia de escusado. A proximidade mundial afastou-nos do “silêncio” do campo, fazendo dele uma nova memória.

Certo que em nada se compara o ruído de fundo, o estrepitoso roncar dos aviões nas imediações dos aeroportos das nossas maiores cidades. Por exemplo, em Lisboa, no âmago da nossa capital, sobre a cidade universitária, onde alunos e professores deveriam ter o privilégio de poder pensar em silêncio, o ribombar de motores faz tremer paredes e calar vozes, para que aterre ou levante voo mais um leviatã dos ares.

Com o Covid a atacar em todas as frentes, incluindo turismo e transportes, o “silêncio” voltou. Aos pássaros e aos outros bichos foi-lhes devolvida a voz e a nós a tranquilidade. Em dias de céu azul, olham-se os céus sem mais e mais rastos de mais e mais de aviões. Hoje, nas raras exepções em que se escuta um avião, erguem-se os olhos ao alto, indagando sobre origem e destino de tal louca viagem.

Nesse novo mundo que aí vem, do qual sabemos muito pouco, o zumbido dos aviões no campo ou o trovejar dos motores na cidade aviões são das coisas que tenho pouca ansiedade para voltar a encontrar.