Em 1948, o realizador italiano Vittorio de Sica mostrava ao mundo, através da sua lente neo-realista, a vida do pós-guerra, num drama que ainda ecoa nas nossas realidades. Ladrões de Bicicletas retrata uma jovem família, empobrecida durante a guerra, que numa Roma em ruínas tenta sobreviver num mundo que se reconstrói. Com esforço, o jovem pai consegue um novo trabalho, para o qual necessita de uma bicicleta. E, spoiler no título, roubam a bicicleta ao já empobrecido e miserável homem. O resto da película retrata o pesadelo pelo qual vai esta jovem família passando, quando lhes é tirado o seu único – eventual – sustento: uma tão simples e efémera bicicleta.
O impacto social e político do filme é notório: inspirou estratégias e programas sociais para que, neste velho continente, sob ataque de todas as direções, se a um jovem pai, lhe roubarem a bicicleta, encontrará uma rede de suporte social, fugindo assim à fome e à miséria.
A Segunda Grande Guerra vai longe. No Velho Continente, fomos esquecendo aos poucos a verdadeira miséria generalizada. Felizmente, para uma vasta maioria de nós, deixámos de pensar o quão importante pode ser uma bicicleta (ou uma scooter), para um pobre. E com este esquecimento, completámos um círculo, voltando à Roma de 1948, em que para muitos, uma bicicleta é a diferença entre a fome e trazer alguns trocos para casa. Ainda nas ondas do covid, em que ficámos ainda mais isolados, ainda mais distantes, é-nos difícil ver a miséria escondida que nos bate à porta de casa, chegada de bicicleta (ou numa scooter), encomendada através da app mais hip do momento.
Valha-nos a tecnologia que nos traz diretamente aos nossos sofás, ao conforto e aconchego da nossa casa, o fruto diário do trabalho escravo de modernos pais de família que debaixo dos pingos da chuva, tentam fugir à miséria. As nossas cidades enchem-se de bicicletas e motorizadas e carros ativados por um sinal sonoro, pelo clique da app. Estes modernos escravos chegam cá sabe-se lá como. No entanto, vivem como já sabemos todos muito bem. Muitos sobrevivem a palmar uma sandes aqui, um hambúrguer além, um poké acolá, duma encomenda que acabou por nunca chegar. Reclama-se na aplicação, mas os donos da mesma precisam deste trabalho escravo como de água para beber, pelo que se calam e acartam despesas.
Diariamente, por mais por conformismo que conforto, sacrificamos o valor das coisas e das pessoas no altar da pobreza alheia. A cada dia que passa, em conluio com traficantes de pessoas, exploradores, apps desreguladas, desperdiçamos o nosso dinheiro, a nossa saúde, o nosso futuro. O just-in-time perfeito traz-nos à porta, ao quarto, à cama, aquilo que naquele momento o impulso do polegar nos fez carregar, ludibriando-nos com a facilidade e em que grandes tempos modernos vivemos.
O just-in-time que nos faz esquecer, de boca cheia, as vidas frágeis e precárias que dormem em camas quentes, trabalhando à chuva, ao vento, ao sol, todo o dia, toda a noite. Aquele hambúrguer que veio mesmo a calhar, que nos apaga da memória o progresso pelo qual gerações, mais empáticas talvez, decidiram que era inumano estar dependente das bicicletas.
De barriga cheia, deitamos fora, junto com o lixo que continuamos sem separar, valores que herdámos para que, sempre que nos apeteça, nos venha parar à mesa um hambúrguer morno, embrulhado os guardanapos empapados, mirrado sob o efeito de condensação do embrulho do papel de alumínio ou de mais uma das centenas e milhares de caixas de papel plastificado que se amontoam num qualquer aterro. Um hambúrguer sem paladar, feito numa cave pelas mãos cansadas de alguém que sobrevive no limiar da pobreza e entregue à porta de casa por alguém a quem se lhe roubarem a bicicleta que ficou lá no fundo, perde o norte e a parca fonte de rendimento.
Mais de setenta anos depois, Roma já se construiu e se viu livre de muita miséria, assim como as nossas aldeias, vilas e cidades. Em todas estas décadas, evoluímos tanto que voltámos ao mesmo: ao triunfo da fragilidade dos mais pobres. E na indiferença das nossas vidas cada vez mais solitárias, esperamos apenas que os ladrões de bicicletas mudem o seu ofício, pois para além de mais miséria, iremos ficar sem os hambúrgueres frios para o jantar.