A sustentabilidade é uma autêntica chatice. Por causa da insistência de grupos ambientalistas, sociais e económicos, as nossas vidas são agora muito mais complicadas. Saudosos são os tempos em que se faziam descargas para os rios, sem qualquer preocupação; despejavam resíduos sólidos poluentes a céu aberto, onde calhava; quando se pagava “ao escuro” a parte substancial do pessoal; quando a ASAE nem sequer existia. Estas e muitas outras coisas “boas” que aliementavam vícios e vicissitudes das empresas em Portugal e no Mundo. Certo que muitos destes comportamentos ainda existem, mas é cada vez mais fácil “apanhá-los”.

Este controlo deve-se em grande parte à burocratização das organizações. Se por um lado a complicou as nossas vidas, também tem vindo a tornar economias e sociedades mais transparentes.

No entanto, 2025 está aí a chegar. Dentro dumas semanas terá acabado o primeiro quarto de século deste novo milénio e, a União Europeia, virada para o futuro vai ser posta em prática mais uma carga burocrática às médias e grandes empresas: a Diretiva de Reporte Corporativo de Sustentabilidade (CSRD). Ainda que criada em 2023, este será o primeiro ano em que médias e grandes empresas terão de reportar os seus esforços de sustentabilidade.

Para os distraídos, esta diretiva visa que todas as empresas (Médias e Grandes) estabelecidas na UE e todas as outras fora da UE, com um volume de negócios acima de 150 milhões de euros no continente terão de reportar, de uma forma detalhada todos os esforços ambientais, sociais e de governação.

Isto, nos papéis de Bruxelas, faz todo o sentido: mais transparência, mais justiça. Assim, poderemos saber com detalhe e poderá escrutinar-se os que realmente trabalham para a sustentabilidade e aqueles que dizem que fazem, mas que nada fazem. No papel, é uma ideia excelente e pioneira. No papel, fará a nossa sociedade melhor. No papel, é o caminho para um futuro mais verde, mais sustentável, mais justo. No papel…

No mundo de carne e osso, sem papel (desmaterialização!), as coisas passam-se de outra forma. O caminho para a sustentabilidade tem tudo de nobre: ninguém quer ver rios poluídos, ninguém quer ver famílias pobres com salários indignos, ninguém quer ver corrupção impune. No entanto, a sustentabilidade corre um sério risco de se tornar mais um simples papel, uma carga de papelada a ser entregue ao final do ano, em mais um departamento do Estado qualquer, para se levar um carimbo e um certificado. Este reporte pode ser visto como mais um peso. Na nossa União Europeia, com claros problemas de competitividade, com a sua maior economia e mercado em estagnação e decrescimento, em que a indústria foi relocalizada para mercados externos, trazer mais uma burocracia para cima da mesa pode ser contraproducente.

Por outro lado, pode acontecer um desvirtuar dos objetivos reais da sustentabilidade: melhorar a qualidade de vida de todos os membros de uma sociedade. Trilhou-se um longo caminho desde o hippie que se agarrava às árvores, que chega agora ao burocrata que, muitas vezes sem conhecimento do “mundo real” impinge estes tópicos a quem está na linha da frente.

Sem um esforço conjunto e prático, vai ser só mais um amontoado de papéis que ninguém na organização quer saber. Tomemos o exemplo de Portugal e as suas finanças: todas as empresas declaram impostos, mas a nossa literacia financeira continua a ser uma miséria.

A burocratização da sustentabilidade, amontoada com outros papéis, papelinhos e papeletas, poderá afugentar as pessoas duma causa que deveria ser de interesse para todos, tornando-se em mais um relatório arrumado numa pasta, numa drive, num servidor na cloud, que ninguém leu, nem ninguém quer saber, mas que tem de ser mostrado às autoridades.

Estabelecendo um paralelismo entre sustentabilidade e finanças: todos os anos as organizações têm de prestar contas ao estado, mas continuamos com níveis elevados de iliteracia financeira. A burocracia fez de nós cidadãos com melhores aptidões financeiras? Bom, as estatísticas apontam para o contrário.

Na sustentabilidade (e na literacia financeira), a base para desenvolver projetos robustos e de longo prazo tem de ser assente na formação e envolvência das diferentes partes interessadas. Deverá ser um vetor (real) da estratégia da empresa, sem adulterar a sua missão e objetivos. Deverá, claro, ser um misto de bottom-up e top-down (perdoem o anglicismo), que torne a sustentabilidade algo tangível e mensurável. Pela burocracia, o caminho será mais difícil.

Aliado a isto, vai-se ter de desenvolver uma infraestrutura humana e de serviços para esta nova burocratização: quem perceba dos relatórios para os preencher, quem perceba de sustentabilidade para os ler. Vamos ter mais gastos para as sociedades e isso pode-nos tornar ainda menos competitivos, aumentando as despesas da organização.

Mais que papéis, ações reais de sustentabilidade têm de passar primeiro por gerir, integrar, formar e educar. Burocratizar… também é um caminho, mas veremos os reais resultados no final de 2025!