O mundo aguarda com um misto de curiosidade e inquietude a tomada de posse do 47º presidente dos Estados Unidos da América, no próximo dia 20 de janeiro. E em virtude disso, são já inúmeras as intentas da imprensa internacional em procurar prever o modus operandi do novo executivo. Umas com mais eficácia que outras diga-se. Estarão já todas esgotadas? Creio que não.
Surgiu um elefante na sala que tem sido deveras ignorado. Esse elefante é a política monetária do governo americano. Já que, tal como um elefante, se polido impõe respeito, descontrolado oferece estragos.
E como é este novo elefante? Donald Trump já tornara diversas vezes público que desejava um dólar mais fraco, isto é, desvalorizado. No fundo, que o poder negocial da moeda americana estabelecido na sua escassez de oferta e procura de atividades económicas que usam o dólar, seja diluído. Por outras palavras, que o montante de moeda estrangeira necessário para comprar o mesmo dólar seja menor.
Bem sei, que neste momento o leitor deve ter matutado: “Mas… esse elefante já não tinha um dono? E não tinha o seu dono de nome Federal Reserve Bank?”. O leitor matuta e matuta bem… Porém, embora ele tenha o referido dono, às vezes é “visitado” pelo governo americano, que por sua vez o influencia com certos hábitos. Esses hábitos podem mudar ou não, a cada 4 anos. Trump pretende mudar tais hábitos.
Formulou Newton, que a toda uma ação se segue uma reação. Importa portanto perceber de onde vem esta reação do novo inquilino à Casa Branca, entendendo a sua precedente. Para tal, precisamos mergulhar no famoso american dream. Em sinopse, o Santo Graal da criação de valor para qualquer americano.
Ora, na crença americana da livre eficiência dos mercados, é natural que surja a maximização da criação de valor. Mesmo que nunca perfeita, é natural. É um estímulo para “ir a jogo”. E o que representa maior criação de valor? Maior número de bens e serviços para o mesmo montante de moeda na economia. Sendo o efeito prático a valorização da moeda. Afinal de contas, a mesma quantidade de moeda consegue agora adquirir mais bens e serviços.
Posto isto, Trump argumenta que o alto valor do dólar enfraquece as empresas de manufatura nacionais já que funciona como um desincentivo à importação por parte de países estrangeiros. Mais além, atua como um imposto sobre as empresas exportadoras.
De facto, é verdade. Mas o que não diz Trump é que apesar de tudo isto, os Estados Unidos da América permanecem como beneficiários da alta cotação do greenback. Tudo porque o lado da balança que Trump tanto protesta só abarca uma força, enquanto o contrário oferece duas. O resultado líquido é portanto positivo.
A primeira, sendo o facto de que se um dólar forte significa um imposto para as empresas exportadoras, funciona como um subsídio para as empresas importadoras. Por vezes é mais que um subsídio, mas mesmo um negócio. Exemplo disso é o mercado petrolífero. A dados de 2022, em dólares, os EUA importaram 199 biliões em petróleo bruto, e exportaram 118 biliões em petróleo bruto mais 138 biliões em petróleo refinado. Um dólar forte, permite importar barato para exportar algo transformado caro.
Segundo, o alto poder do dólar atrai de forma invejável capital estrangeiro de todos os cantos do mundo. Com desejos de altos retornos, quer em títulos do tesouro quer em investimentos privados, os EUA beneficiam de uma capacidade de financiamento e liquidez impressionante. Fruto disso, consegue baixos juros de dívida pública e menores custos de financiamento às suas empresas na emissão de obrigações ou capital.
Deste modo, Trump, ao querer novos hábitos como taxas de acesso ao capital estrangeiro investido nos EUA de forma a desvalorizar o dólar, está nada mais nada menos que a destruir as bases da economia americana. Pior, se o poder do dólar funciona como imposto sobre as empresas exportadoras, o que seria ter um imposto sobre toda a economia americana: a inflação. Seria o pior dos impostos, e o resultado de um coartar do dólar.
A narrativa, de que os EUA são uma vítima do comércio mundial é pior que errada, é perigosa. Passa uma imagem de que o rumo é outro, quando não há nenhuma evidência disso. Para se ter ideia, o greenback perfaz cerca de 59% das reservas do Banco Central Mundial e é usado como meio de troca em metade das trocas comerciais mundiais. Mais ainda, os ativos americanos representam um quarto do portfólio de ativos mundial, quando no início dos anos 2000 ficava-se por um quinto.
Foi exatamente a globalização económica que empoderou os americanos e não o contrário. Foi poder colocar em qualquer supermercado, montra ou website por esse mundo fora os seus produtos de mais alta gama tecnológica. Foi ser capaz de inovar e criar tanto valor, que a sua moeda aspirou e conseguiu o posto de reserva de valor. Muitos produtos por esse mundo fora estão quase que indiretamente indexados ao dólar.
Já lá vai o tempo, em que todos os países tinham de ser bons a criar valor em todas as áreas, porque na realidade não o são. Tornaram-se mais eficientes, ao especializarem-se naquilo que são melhores, e comercializar com parceiros aquilo que não são tão bons. A Suíça, por exemplo, não se queixa quanto às suas apostas estratégicas em setores como o relojoeiro, chocolateiro, financeiro e farmacêutico.
No mesmo sentido, os EUA emergiram como suprema potência mundial, por ter sido capaz de aliar o seu desenvolvimento tecnológico, construído sobre uma moeda estável e forte, às aspirações legítimas de todo o globo.
O próprio, mobiliza a maioria dos seus esforços para produtos inovadores e em virtude disso opta por importar bens comuns do estrangeiro. Por conseguir tirar proveito, cria maior valor. E por criar maior valor, faz valorizar o dólar. Por fazer valorizar o dólar, torna-o uma reserva de valor, atraindo por conseguinte investimento estrangeiro. Que por sua vez faz valorizar de novo o dólar.
Um dólar e “elefante” forte, não é só um sinal da sustentabilidade da economia americana, mas também a sua causa.