Findo o processo eleitoral, e através do pronunciamento soberano dos portugueses, o mesmo cessou de forma inabalável com a re-legitimação de Luís Montenegro. Era óbvio que assim se sucederia. Aliás, sempre o foi. Isto porque em 50 anos do presente regime, sempre que um governo foi derrubado sem um avultado motivo, saiu reforçado. Foi assim com Cavaco Silva, António Costa e agora Luís Montenegro.

Só a bolha mediática, que preferiu passar horas a fio a caracterizar o caso Spinumviva como algo para rasgar as vestes, é que se deve ter espantado.

Boa lição esta, que os portugueses deram de que não é caso alguém ter uma empresa, já que não foi cometida qualquer ilegalidade, e todo o mediatismo se processava à volta do “e se?” ou do “suponhamos”. “E se…” que também poderíamos aplicar a qualquer cidadão português sobre qualquer crime. Não só não é correto, como é anedótico. Especialmente num país que ao invés de políticos de carreira, seria melhor servido se mais políticos da sociedade civil surgissem. Ditosamente, o bom senso do povo português deu bons presságios para tal…

Todavia, virada a página eleitoral, urge olhar para o futuro. E que futuro é esse? Poderemos estar perante um Montenegrismo, isto é, um novo Fontismo? Tudo dependerá do próprio, se bem que os astros alinham-se de maneira idêntica àqueles que se alinharam na segunda metade do século XIX.

António Maria de Fontes Pereira de Melo, primeiro-ministro na maioria dos reinados de D. Pedro V e D. Luís I fora o responsável pelo avanço fugaz do país no encurtar de distância face às grandes potências à época. O avanço fez-se pelas conhecidas linhas de ferrovia, telecomunicações e correios que encurtaram as distâncias tempo e de custo. Seguiu-se a crescente industrialização e constituição das mais diversas firmas por benefícios fiscais, até à remodelação do sistema de ensino em sinergia com as empresas nacionais.

Certo também que tais investimentos provocaram uma escalada da dívida pública. Mas uma dívida que o futuro veio a provar ser uma “dívida boa”, já que fora aplicada em capital estrutural, que em muitos casos perdura até aos dias de hoje. Fora uma alavancagem para o aumento da produtividade, e não um crédito para os rentistas da efemeridade.

Por outras palavras, mesmo que com defeitos, foi o período de maior reformismo que o país havia visto até hoje. Terá esse reformismo surgido do vazio? Do vácuo? Não creio.

O ambiente da época, marcado nas últimas décadas pela constante instabilidade resultante das invasões francesas, perda do Brasil, da guerra civil, e das efémeras, mas inúmeras, crises financeiras, era melhor descrito talvez como o de “tábua rasa”. Há muito, que um governante em Portugal não tinha o cenário de um país que, apesar de severamente atrasado, não tinha que ser resgatado de uma imediata bancarrota.

Pois bem, Luís Montenegro vê-se numa situação similar à de Fontes, já que pela primeira vez desde 1975 o PSD tem um líder com a oportunidade de governar sem estar a braços com uma bancarrota, pântano, ou intervenção externa. Existe espaço de manobra, mesmo face ao panorama internacional.

Segunda, mas não última, similitude que deve agradar a Montenegro, é que também à época se vivia um sentimento de desprendimento face à mais recente revolução, a liberal. Tal qual aquele que se vive atualmente face à revolução de abril de 1974. Um sentimento de reconhecimento da sua importância histórica, no seu contexto, nos seus contributos, mas com a eloquência suficiente para não deixar que os ideólogos cegos fizessem do país, só e apenas só, essa data. Afinal de contas, Portugal, uma nação de séculos de história nunca poderá ser reduzida a um só dia.

Foi esse pragmatismo, em comunhão de entusiastas das novas gerações, com abertura ao que de fora nos podia ser útil,  mas tendo como derradeira a potenciação do país, que Fontes rompe com o rentismo de setores obsoletos do Estado a diversos níveis.

Luís Montenegro vive aos dias de hoje perante os portugueses, e particularmente nas classes mais jovens, com esse ideário de uma vontade de mudança. Um país que sabe o seu potencial, e que está farto de que esse potencial seja submergido pelo conformismo e o status-quo.

Não obstante, Fontes também procedeu a reformas em sentido contrário de fomento a novos comércios, firmas, regiões e do pouco produtivo mundo rural, Porém, com condições para que as diversas fatias da sociedade se comprometessem com mudanças. No fundo, Fontes transporta aquilo que se espera de um governante: um ideário com uma concretização realista plena, um ideário para todo o território nacional, um ideário focado nas fontes do progresso..

O facto de a resposta do Fontismo ter ido ao cerne da vida dos portugueses fez o partido Regenerador ter a conquista eleitoral, em custo do capital eleitoral de movimentos mais à esquerda como os Setembristas e Republicanos, ou os que tinham sido manifestamente crescentes face ao atraso do país no pós guerra civil e mais à direita, como os Cartistas ou Miguelistas.

Eis algo, de que Luís Montenegro também poderá beneficiar, dada a desconexão do PS com o mundo real dos portugueses e as soluções fáceis do Chega já legitimamente sedimentadas em fatias do país onde a prosperidade não tem chegado.

O PSD, dando resposta aos maiores anseios de bases de constituição de família das novas gerações, e uma visão de país como deu Fontes, tomará o lugar como partido charneira de Portugal e poderá sem as dificuldades que muitos apregoam dissolver o Chega. É preciso que o queira.

Por último, é deveras relevante recordar, que mesmo tendo terminado o seu legado ainda à caça dos níveis cosmopolitas dos impérios de Inglaterra, França, Alemanha, Holanda ou Espanha, Fontes deixou um país que os avós dos novos nados vivos nunca sonharam vir a viver. Mais que isso. Um país em que esses novos nados vivos nasciam a acreditar que um novo algo era possível. E isso não tem preço.

Existe no fundo campo fértil. Que haja o bom senso para o semear com os grãos armazenados, ao invés de pelo medo de serem os últimos grãos, os consumamos até não nos restar nada. Fontes soube colocar o Estado onde o país precisava dele, e tirá-lo da frente onde o mesmo só estorvava. Que Luís Montenegro o consiga também fazer.