Não há outra forma de começar este artigo. Tudo aquilo que Rui Rocha esteve a defender, em matéria de imigração, no debate frente a André Ventura, não está escrito no programa eleitoral da Iniciativa Liberal. Pior. Aquilo que defendeu, cheio de um estranho entusiasmo, foram precisamente as medidas que o partido deixou cair face ao programa de 2024.

Para alguns, estes serão apenas ziguezagues típicos de quem habita um mundo ideológico em constante contradição com a declaração de princípios do partido que lidera; para outros, um sinal de puro eleitoralismo de quem já percebeu que as próximas eleições são um teste definitivo à sua liderança. Para mim, tudo isso e um pouco mais.

Vamos ao histórico para ser mais fácil perceber a dimensão do equívoco. No programa eleitoral de 2024, a Iniciativa Liberal defendeu que a entrada em Portugal deveria “ser necessariamente precedida da prova, por parte do cidadão requerente, de meios de subsistência”, ao mesmo tempo que propôs que as autorizações de residência deveriam basear-se em “contratos de trabalho previamente celebrados”. Acontece que na última convenção do partido, em fevereiro, os membros aprovaram uma moção setorial sobre imigração que recomendava que a IL, por questões de coerência ideológica, abandonasse estas exigências e colocasse o foco nas políticas de integração. Nesse sentido, e respeitando a vontade das bases, o atual programa eleitoral integrou essas alterações e colocou o foco nas políticas de integração.

Foi neste contexto que Rui Rocha se apresentou no debate frente a André Ventura, com um programa eleitoral assente no reforço da AIMA, na desburocratização e na simplificação de procedimentos que permitam uma integração mais rápida e eficaz de quem chega. O problema é que não foi isso que o líder da IL defendeu em horário nobre. Sobre o que realmente está no programa, nem uma palavra. No cara a cara com o líder da extrema-direita, Rui Rocha recuperou a ideia de exigir um contrato de trabalho à chegada, sublinhando que tem de haver uma “ligação directa entre as necessidades da economia e entrada das pessoas”. Por outras palavras, quotas, essa coisa profundamente antiliberal.

Rui Rocha defendeu uma visão instrumental do ser humano ao serviço da economia, enterrando, entre outras bandeiras liberais, a da inquestionável crença no mérito. O líder da IL chegou mesmo ao absurdo de citar o programa eleitoral de 2024, sabendo perfeitamente que aquilo que estava a citar já não consta, por vontade dos membros, no programa que vai ser sufragado pelos eleitores.

Quando falta carisma, energia, rasgo e dotes de oratória, que pelo menos não falte a coerência nas ideias, sobretudo num partido que sempre se batei por elas. Não se pede a Rui Rocha que tenha o jogo de cintura de João Cotrim de Figueiredo, mas que evite tropeçar nos pés. Também não se exige que tenha a genialidade de Carlos Guimarães Pinto, mas que pelo menos respeite o guião. A verdade é que começa a ficar evidente que existe uma clara contradição entre aquilo que a Iniciativa Liberal escreve e o que Rui Rocha defende. Das duas uma: ou o que a Iniciativa Liberal escreve não se pode dizer, ou aquilo que Rui Rocha diz não se escreve.