O pior que pode acontecer a um partido recente, jovem, irreverente e muito ideológico é aceitar ser a muleta aritmética de um urso que cheira a mofo. O PSD de hoje é velho, conservador e nada reformista. Até os seus quadros mais jovens, como é o caso de Leitão Amaro, tresanda a naftalina, como ficou claro no 25 de abril, na sua excitada reação ao chumbo da Lei da Eutanásia e à forma eleitoralista como tratou o assunto da deportação de imigrantes.
Um partido como Iniciativa Liberal só deve aceitar integrar um governo se tiver garantias de poder influenciar, de facto, uma governação que coloque em causa o rumo que nos trouxe até aqui. Menos do que isso é uma história já vista. Entrega-se um ou outro ministério insignificante, abrem-se as portas a meia-dúzia de membros que viram assessores, silencia-se uma bancada parlamentar incómoda e prepara-se, de imediato, um conjunto de coligações autárquicas que até ajudam a encaixar alguns dirigentes locais. É a crónica de uma morte anunciada.
Antes de coligações, ministérios e ministros, é preciso ter força, que é como quem diz, votos. Rui Rocha tinha consciência disso quando definiu a meta dos 15%, mas das duas umas: ou perdeu a ambição, ou deixou fugir a memória. Agora, parece que metade disso basta desde que garanta um lugar no Conselho de Ministros.
Há quem faça depender a vitória liberal da percentagem suficiente para garantir uma maioria parlamentar. Errado. Uma maioria, só por si, não é necessariamente uma vitória liberal. Aliás, essa pode mesmo ser a grande derrota do projeto reformista que a Iniciativa Liberal apresentou, desde a sua fundação, aos portugueses. A irrelevância política do projeto liberal pode começar, precisamente, por aceitar o abraço do urso.
Antes de estar preocupado em atirar nomes ministeriáveis para a praça pública, Rui Rocha deveria ser capaz de explicar ao país porque não pode passar cheques em branco a alguém que acusou de falta de transparência e irresponsabilidade. Quem anuncia que vem para “acelerar” e “mudar” não pode, por respeito ao seu eleitorado, aceitar integrar um governo a qualquer custo. Ao ajoelhar-se perante o urso laranja, como tem feito durante esta campanha, Rui Rocha está a reduzir o espaço de uma eventual manobra negocial no pós-eleições e a abrir caminho para o nascimento de um CDS 2.0.
Quem vota na Iniciativa Liberal quer mudanças profundas no sistema fiscal, sim, mas também quer o elevador social a funcionar, através de um sistema educativo que não condene ninguém por ter nascido onde nasceu; quer revolucionar um sistema de saúde que deixa à margem os mais pobres, sem meios para fugir às listas de espera e às urgências fechadas; quer um Estado que não condicione as suas decisões privadas, a sua relação com o corpo, com a vida e com os outros; quer uma reforma a sério do sistema de Segurança Social; e não aceita a cobardia na hora de defender os Direitos Humanos, como a que teve Paulo Rangel em relação a Moçambique.
Todos sabemos o que o PSD pensa sobre este caderno de encargos. Na hora da verdade, são socialistas light na economia e conservadores nos costumes. Aceitar o abraço do urso laranja é meio caminho andado para o sufoco dos liberais.