Aviso à navegação: se é daqueles liberais que acredita que o liberalismo começa e acaba na carteira, tome já um comprimido para as náuseas, a viagem vai começar.
Sou liberal. Acredito na liberdade individual, numa economia aberta, na responsabilidade cívica e na moderação política. Mas também acredito que a liberdade exige coerência, respeito pelas instituições e um compromisso profundo com o interesse público. É por isso que, nesta encruzilhada política, rejeito a candidatura que se mascara de liberal e apoio António José Seguro para a Presidência da República.
João Cotrim Figueiredo foi essencial para afirmar o liberalismo em Portugal. Conseguiu, sozinho no Parlamento, dar voz a um espaço político que muitos julgavam impossível de construir. Para a história fica um trabalho que merece respeito e gratidão, mas o problema começa quando a ambição pessoal ultrapassa o compromisso público. Cotrim foi eleito para representar os portugueses no Parlamento Europeu. Um ano depois, lança-se para Belém sem respeito pelo mandato que lhe foi confiado. Respeitar o voto é respeitar a liberdade de quem o deu. É uma questão de coerência e responsabilidade.
Para além desta questão, que muitos desvalorizam por ser, segundo eles, uma questão de forma, há a parte da substância. Cotrim promete uma candidatura plural, humanista e liberal. Estranho humanismo que aceita abrir portas a quem tem dinheiro e fechá-las na cara de quem trabalha e contribui; estranho liberalismo que confunde uma manifestação de imigrantes com descontrolo, dizendo hoje coisas bem diferentes daquelas que defendia ontem; estranho sentido humanista que não se cala, e bem, sobre a Ucrânia, mas treme para falar de Gaza; estranho liberal que sobre a Lei de Estrangeiros faz tábua rasa dos mais elementares princípios liberais, esquece a defesa de liberdades fundamentais e acantona-se junto dos conservadores que, em êxtase, já perceberam que têm ali um aliado.
Por tudo isto, é fácil perceber que o voto em Cotrim não é um desperdício, mas um engano.
Num tempo em que a democracia liberal é desafiada por populismos, autoritarismos e extremismos de todas as cores, é urgente recentrar o debate. A história de António José Seguro fala por si. É um humanista que compreende a liberdade como um valor universal, não como um privilégio de meia-dúzia. Num país em que o cenário político se recicla sem se renovar, Seguro fala de ética, coerência e coragem com a propriedade de quem foi triturado por uma ala socialista que nunca olhou a meios para concretizar objetivos. Num tempo em que todos gritam, Seguro representa aqueles que ainda acreditam no diálogo, na responsabilidade e na moderação.
Seguro afastou-se da política por assumir que não pode valer tudo. Onde outros viram ingenuidade, sobra seriedade; quando muitos fomentaram divisões, procurou pontes. E num dos momentos mais críticos da história, preferiu a estabilidade ao protagonismo. É isto que António Costa e Augusto Santos Silva não lhe perdoam, que tenha colocado sempre o País à frente do partido.
Para alguns liberais, a quem este artigo já está a provocar demasiada comichão, deixo um anti-histamínico. Sim, discordo de António José Seguro em matérias importantes como o papel do Estado na economia, o nível de intervenção pública ou o ritmo das reformas estruturais. São divergências naturais que distinguem um liberal de um socialista, mas há valores que estão acima de algumas diferenças ideológicas.
O essencial nestas eleições é garantir que o voto dos liberais não serve, por omissão ou ingenuidade, para eleger alguém profundamente iliberal. A defesa da liberdade exige vigilância, e nesta escolha o risco não é teórico, é real e imediato.
Faço parte de uma ala liberal que acredita que o liberalismo não se esgota na carteira ou na declaração de IRS. Talvez seja por isso que, mesmo partindo de caminhos distintos, não tenho qualquer problema em reconhecer em António José Seguro as qualidades que devemos validar nas próximas eleições presidenciais. Num tempo de egos e ressentimentos, a escolha é agora menos ideológica e mais civilizacional, porque a liberdade só sobrevive quando certos valores são inegociáveis.