“O liberalismo sem coração é apenas uma teoria económica.” Há frases que captam o espírito de um tempo. Esta, escrita pela eurodeputada liberal Abir Al-Sahlani a propósito das eleições nos Países Baixos, resume a grande lição que podemos tirar do triunfo de Rob Jetten e do D66: o liberalismo europeu renasce quando fala de valores, de empatia e do triunfo da esperança sobre o medo.
“É possível” foi o slogan de campanha dos liberais progressistas. Quando todos julgavam impensável recuperar da grande derrota de 2023, Rob Jetten provou que ninguém perde por ser fiel à sua declaração de princípios. Há dois anos, recusando lutar na lama com extremistas e conservadores pelo “quanto pior, melhor”, sobretudo no que dizia respeito às políticas de imigração, o D66 pagou o preço da coerência ideológica. Daí até a um histórico triunfo foi apenas uma questão de (pouco) tempo.
Rob Jetten mostrou que sim, é possível derrotar a extrema-direita sem ceder ao populismo. “É possível derrotá-los sem os imitar.” A frase do jovem líder deveria servir de mantra a muitos partidos liberais europeus que têm vindo a ceder ao facilitismo e a enterrar aquilo em que sempre acreditaram. O triunfo do D66 é a vitória do possível.
Sim, é possível combater os nacionalismos bacocos defendendo a integração europeia como um ideal de progresso humano e não apenas como um mercado comum; sim, é possível derrotar o medo falando de esperança, união e propósito; sim, é possível colocar o ambiente e as alterações climáticas no centro do debate sem cair em maniqueísmos que bloqueiam qualquer reforma urgente.
Os resultados nos Países Baixos deveriam obrigar os liberais europeus a parar para pensar. É que a vitória do D66 significou também a derrota dos liberais conservadores do VVD. Sem deixar de falar de competitividade, crescimento, política fiscal e combate à burocracia, Rob Jetten falou também de inclusão, elevador social, igualdade de oportunidades e sentido de comunidade. Dito de outra forma, o líder liberal progressista, essa palavra que causa pânico em muitos liberais portugueses, devolveu ao liberalismo a dimensão emocional que sempre o tornou inspirador.
É este liberalismo com coração que tem potencial para revitalizar o centro político europeu. É que afinal, ao contrário do que muitos vaticinaram, o centro não morreu. O triunfo do D66 incomodou a direita e deixou a esquerda sem argumentos. Não é isso que se espera de um partido liberal? O futuro da Europa está num centro que clama por prosperidade com o mesmo entusiasmo com que diz, como disse Jetten, que o acolhimento deve vencer o medo. Na noite da vitória, as dezenas de bandeiras da União Europeia fizeram justiça a um líder que, apesar de tudo, ainda se emociona quando fala da necessidade de reforçar o nosso projeto comum de paz e liberdade.
Num continente saturado pela polarização, há espaço para quem acredita que a liberdade individual e o bem comum não são inimigos, mas complementares.
É por isso que a vitória de Rob Jetten é profundamente revolucionária (outra palavra que afasta mais uma dezena de leitores). Quando o jovem liberal abre a porta a possíveis coligações com os Verdes e, ou, com os sociais-democratas, sublinha a necessidade de criar pontes em nome de um bem maior.
A vitória do D66 é um vendaval de esperança na Europa, mas um incómodo para alguns parentes da sua família política europeia. Os sorrisos amarelos e os aproveitamentos mediáticos de certos partidos ditos liberais dizem quase tudo. É que o discurso do coração de Rob Jetten esbarra, sem complacência, nas vozes numéricas de liberais que decidiram imitar os extremistas para tentar disputar o seu eleitorado. A diferença é que o D66 vence e inspira, enquanto outros tendem para a irrelevância.
Dos Países Baixos chegou a certeza de que é progressista e humanista o liberalismo que funciona e faz falta à nossa Europa. Aconteça o que acontecer, Rob Jetten fica para a história como o jovem que resgatou um partido das cinzas para nos dizer que “é possível”.