Rui Rocha prometeu acelerar Portugal, mas resignou-se a “caminhar mais devagar do que queríamos” e deixou a Iniciativa Liberal numa espécie de ponto morto. Para quem se apresentou como “o partido de governação que vai mudar Portugal”, ter apenas mais 18 mil votos e quase meio ponto percentual em relação a há um ano é poucochinho, quase insignificante.

Os liberais perderam mais uma oportunidade de afirmação. Com Rui Rocha, o partido não descola, não marca a diferença, não consegue afirmar-se como um projeto de esperança. Os resultados de domingo são o reflexo de uma campanha cheia de equívocos, passos em falso e erros grosseiros. Ao contrário do que defendeu na noite eleitoral, a Iniciativa Liberal trocou a força das convicções pelo eleitoralismo primário. Com Rui Rocha, o partido deixou o centro para namorar os extremistas e enrolar-se com os conservadores. Foi traído, não por eles, mas pela sua fome de poder. Antes de ter ministros, é preciso ter votos.

Numa altura em que as democracias liberais estão em risco perante o crescimento da extrema-direita, a IL meteu na gaveta o ideário da liberdade política e escolheu não beliscar André Ventura por puro tacticismo político. Rui Rocha sonhou disputar os votos da pocilga, mas saiu enlameado. Com a AD foi deslumbramento. Enamorou-se tanto que se esqueceu de si e dos seus. Quem nunca?

O problema da Iniciativa Liberal de Rui Rocha não é falta de estratégia, mas estratégia a mais. A IL de hoje pensa muito, mas sente pouco. Vende-se por promessas de amor eterno e acorda sozinha na cama, isolada, a ligar para o psicoterapeuta, porque há perguntas para as quais precisa de respostas urgentes. Quem sou? Para que sirvo?

Não vale a pena recordar o resultado de João Cotrim Figueiredo nas eleições europeias para perceber que esta IL está longe do seu potencial eleitoral. Recuperar o deputado que tinha sido perdido em Lisboa, há um ano, não basta para mascarar a desilusão. O resultado não é só fraco em relação às expectativas; é, sobretudo, desolador face aos sacrifícios eleitoralistas impostos à base ideológica do partido.

Com Rui Rocha acabou-se o “nem de esquerda nem de direita” que os liberais, com orgulho, tatuaram em centenas de camisolas nos tempos de Carlos Guimarães Pinto e João Cotrim Figueiredo; com Rui Rocha, o Ser Humano passou a ter a sua existência associada ao seu valor económico e as ideias em matéria de imigração confundiram-se com as de André Ventura; com Rui Rocha, a sessão solene do 25 de abril foi transformada num comício, fraquinho, em detrimento de um palco de afirmação dos princípios liberais fundadores das Democracias; com Rui Rocha, como escreveu um dos seus vice-presidentes, “nunca houve nada disso”, referindo-se à participação da IL nas marchas LGBTQI+; com Rui Rocha, o grupo parlamentar da IL dividiu-se na questão do aborto e votou ao lado dos conservadores para que fosse retirado das escolas o guia para a prevenção da violência e não discriminação em função da orientação sexual, identidade e expressão de género; com Rui Rocha, alguns fundadores da IL escondem-se por vergonha e outros calam-se por solidariedade.

Rui Rocha prometeu matar o wokismo, mas o que fez foi enterrar o liberalismo social, um dos três pilares ideológicos do partido, na esperança de que isso lhe valesse votos. Valeu a pena? Os números estão aí para quem quiser refletir, sobretudo quando comparados com o ritmo de crescimento do Livre nos grandes centros urbanos.

Ao contrário do prometido, a IL não acelerou. Traiu a sua história de insubordinação face ao poder do bloco central e calou-se perante as estratégias de ódio que ameaçam a Democracia. Chegou a hora de refletir. Estará a Iniciativa Liberal disponível para ser o autocarro da esperança onde cabem todos, todos, todos, ou prefere continuar refém de uma pequena carrinha de nove lugares que se acomoda com o pára-arranca?