A CIA manifestou via Twitter o seu pesar pela morte de John Le Carré, com uma citação do escritor: Out of the secret world I once knew, I have tried to make a theater for the larger worlds we inhabit.

E, logo abaixo, sobre a fotografia do autor, uma breve homenagem: Few can capture the intrigue of espionage as masterfully as John Le Carré. Many will remember this literary giant’s life and works for generations to come.

Curioso este epitáfio da famosa “Agência”, que Le Carré não tratou com especial carinho nos seus romances. Nem na magistral trilogia Karla, nem em The Perfect Spy, nem, sobretudo, em The Russia House, onde “os Primos” da Agência americana têm um papel muito pouco simpático, para não dizer pior.

Le Carré, lá de onde está, terá com certeza achado curioso o twitt da CIA, tanto mais que era um grande crítico da opção electrónica nos Serviços Secretos, ou da chamada SIGINT, Signal Iintelligence. Fervoroso adepto da HUMINT – Human Intelligence –, via os Americanos obcecados com as máquinas da “inteligência técnica” e pretendendo, numa farsa frankensteiniana, prescindir dos homens do terreno. E é pelas máquinas que algumas das suas personagens do MI6 britânico se enfeudam servilmente à CIA, como Percy Alleline, o director do Serviço inglês, manipulado pela Toupeira. Ou como uma outra personagem de Russia House, Clive, um homem da tecnologia, pouco à vontade com fontes humanas, admirador incondicional dos “hardware and powerfull Americans”.

Le Carré era crítico da confiança cega nas máquinas, na tecnologia, e atribuía alguns dos grandes desastres dos Serviços Secretos ocidentais ao abandono das práticas da velha escola, em que o seu herói, George Smiley, é mestre.

O topo da sua carreira de autor, os anos setenta, coincide com um dos pontos mais baixos do poder americano, com a derrota e humilhação na guerra do Vietname, de que o Honourable Schoolboy,Jerry Westerby, é testemunha na sua peregrinação indochinesa. Foi por essa época, no rescaldo do Watergate e da rendição do Vietname, com a vinda de Jimmy Carter para a cabeça do Império, que se deu, na Intelligence, a revisão maniqueísta da exaltação tecnológica. Chegou com o almirante Stansfield Turner, que trouxe com ele o que então ficou conhecido como Navy Mafia para proceder a uma “noite das Facas Longas” entre os operacionais.

Mas em 1980, com a vitória de Ronald Reagan, tudo mudaria outra vez, quando o novo Presidente nomeou DCI – Director Central Intelligence – o seu Director de Campanha, William (Bill) Casey, que restauraria a prioridade da HUMINT. E de que modo. Bill Casey vinha do velho OSS (Overseas Special Service), o precursor da CIA, e durante a guerra trabalhara primeiro nas operações da guerra económica e coordenara depois, a partir de Londres, os agentes aliados nos países dominados ou ocupados pelo Reich.

Era irlandês e católico de missa diária; e quando foi para Langley quis conhecer os chefes de todos os movimentos anti-comunistas. Uns levaram-lhos, outros foi ele visitá-los. Quando os Sauditas, um tanto ou quanto incomodados com o facto de Casey ter a bordo do avião da Agência o seu capelão, lhe disseram que, dados os costumes religiosos do Reino, não eram muito bem-vindas aquelas manifestações de fé católica, Casey soube dizer-lhes que se não pudesse ouvir missa todos os dias, não poria lá mais os pés.

Foi a restauração da velha intelligence, centrada nos homens mas sem negligenciar “as máquinas”. Casey retomou a ideia do seu predecessor dos anos 50, o general William Bedell Smith, que, segundo Walter Laqueur, foi o primeiro chefe influente da Agência, o que a pôs a CIA no mapa do poder em Washington; o que, “na linha da famosa consideração de Marx, a pôs mais a querer mudar o mundo que a interpretá-lo”. Daí vieram vários golpes de mão e de Estado – Teerão, Guatemala e outras intervenções mais ou menos bem-sucedidas até ao desastre da Baía dos Porcos.

Le Carré era então um operacional relativamente modesto. Em 1964, o seu primeiro sucesso literário – The Spy who Came in from the Cold – deu um belo filme de Martin Ritt, com Richard Burton, Claire Bloom e Oscar Werner. Seguiu-se, em 1968, A Small Town in Germany, um livro cuja acção se passa na capital da RFA, Bona, uma cidade onde fui um par de vezes e que me ajudou a perceber a Guerra Fria e o medo da bomba, ao ver manifestações de pacifistas, recriando os medievais terrores de um apocalíptico Sétimo Selo.

Um mundo de sombra, este. Ou de sombras – sombras pobres inglesas, sombras ricas americanas, sombras sombrias russas. Os ingleses, dos chefes do Establishment aos dedicados operacionais, como o guarda-costas de Smiley e o bando de saneados que ele recupera e recruta em Smiley’s People – toda uma baixa hierarquia operacional que habita o MI6 e compõe o seu dicionário de calão: os scalphunters, os ferrets os shoemakers e, na logística de suporte, os lamplighters.

Em Tinker, Tailer, Soldier, Spy (A Toupeira), Smiley procura o traidor no interior Serviço. Há quatro possibilidades, todas entre os chefes. Quem é que ali, no coração da Inteligência britânica, no Santo dos Santos, podia trabalhar para o Centro de Moscovo?

Le Carré serviu no tempo das grandes toupeiras. De todas, a maior foi Kim Philby. Philby, que comprometeu e entregou ao inimigo operações e operacionais, Philby o grande traidor que, também por solidariedade de classe, foi poupado por alguns colegas, como Nicholas Elliot, que o deixaram escapar para a União Soviética.

Em 1986, John Le Carré entrevistou Nick Elliot para lhe perguntar, precisamente, porque é que ele, Elliot, e outros da cúpula do Six, tinham deixado Philby sair incólume para a Rússia: “Nobody wanted him in London, old boy”, respondeu Elliott. “My dear chap, he was one of us”. Fora, assim, por esta espécie de cínica solidariedade de classe que Elliot o deixara escapar, tal como conta Ben McKintyre em A Spy Among Friends, chamando à conversa entre Elliott e Philby em Beirute, antes deste partir para Moscovo, “uma das mais importantes conversas da história da Guerra Fria”. A conversa foi gravada pela contra-inteligência do MI5.

Philby, “Sonny” para os seus tutores soviéticos, era o mais importante agente duplo da rede de traidores de Cambridge: em 1951, dois dos seus colegas e subordinados – Guy Burgess e Donald McLean – tinham sido desmascarados pelos Americanos e passaram a Cortina de Ferro; mas Philby sobreviveu e foi até exonerado de responsabilidades publicamente pelo Primeiro-ministro McMillan. E continuou a trabalhar para Moscovo.

Elliott – que eu conheci ao longo de quase 20 anos, espião reformado e trabalhando com “Tiny” Rowland – era, como observou Le Carré, igual a uma personagem de PG Wodehouse, “com um sorriso na cara e o cotovelo posicionado para levantar o copo de Martini ou o cigarro”.

Le Carré conheceu, viveu, sentiu, sofreu, esta e outras cumplicidades nos Serviços, que levaram a muita surpresa e desgraça. De resto, há um anedotário inglês muito vasto de histórias do género: como a reacção do Primeiro-ministro McMillan quando, em 1963, os Serviços o informaram do caso do seu Secretário de Estado da Defesa, John Profumo, com Christine Keeler, uma modelo de 19 anos. McMillan, farto de escândalos homossexuais na política e nos Serviços, teria ficado muito aliviado quando soube que o caso era com uma mulher… Só que Keeler tinha, ao mesmo tempo, um caso com o Adido militar soviético, Yevgeny Ivanov. O Governo McMillan acabaria por cair no Outono, graças também ao “caso Profumo”.

Philby foi o modelo da toupeira, da Grande Toupeira, no coração, não só do Serviço Inglês, mas da própria comunidade de inteligência anglo-americana e era amigo desde 1944 de James Jesus Angleton, o director da Contra-Inteligência da CIA a quem chamavam Noknock (por poder entrar no gabinete do Director sem bater à porta). Philby e Angleton aprofundaram a amizade em Washington, quando Philby foi nomeado Primeiro-Secretário da Embaixada Britânica na capital dos Estados Unidos.

Angleton ficou conhecido pela sua insistência na procura de uma Toupeira de alto nível dentro da Agência. Procurou-a toda a vida sem sucesso. Num verdadeiro enredo irónico-trágico, há quem sustente que algumas operações anglo-americanas fracassadas, no imediato pós-guerra – como a tentativa de subversão do Governo comunista albanês –, tenham sido reveladas por Angleton a Philby em confidências de melhores amigos do mundo, no curso de longos e bem regados almoços em Georgetown. Aí, já Philby seria a Toupeira que o pobre Angleton procurava…

Um cenário destes, nem Le Carré poderia ter imaginado.

Ou se calhar podia. E talvez seja também um autor para o futuro, se o futuro das grandes guerras passar mais pela guerra fria do que pela guerra quente. Não sei. Sei que devo a John Le Carré muitas horas de fascinante leitura ao longo de cinquenta anos; sei que lhe devo também, com as suas adaptações ao cinema e à televisão, outras tantas horas de suspense, em salas escuras, reconstituições de Berlim e de Londres, no Inverno e na noite; e personagens fascinantes, como George Smiley.

E muitas reconstruções e memórias deste grande teatro do mundo, que ele encheu com os seus heróis, os seus vilões, no claro/escuro onde tudo sempre se mistura. Devo-lhe, como milhões de homens e mulheres, essa janela aberta sobre um mundo paralelo e próximo do nosso, nos seus riscos e nas suas escolhas, um mundo de lealdades e deslealdades profundas, onde os homens e as mulheres que vivem da sombra compõem, na sombra, silhuetas estranhamente humanas. E, no fim, iguais a nós ou, como queria Antero de Quental, “um misto (feliz ou infeliz) de trevas e de brilho”.