1. Não há nada a fazer. O esquerdismo internacional e o português em especial julgam que a política é a insurreição permanente. É adepto de um poder radicalmente criador, espécie de versão secular do divino poder de criar uma ordem sem a ela ficar submetido, livre de todo o constrangimento e, portanto, por natureza violento.

O esquerdismo confunde o poder constituinte, poder originário do povo e a poucos limites sujeito, com a insurreição. O lugar desta não é obviamente o parlamento nem qualquer instituição submetida ao direito. A legitimidade popular é apenas a decorrente do activismo, contra qualquer forma de institucionalização. O poder está só na rua e não tem limites. A política é pura acção  e vive apenas do presente. O presente é a eternidade. O passado não conta para nada. O lugar da insurreição é a barricada. E atrás da insurreição vem a tão desejada violência. O simples nome da agremiação da extrema-esquerda francesa (La France Insubmisse) capitaneada por um esquizóide de nome Melenchon, diz tudo.

Para eles a própria noção de povo confunde-se com a do povo insurrecto ou seja, o povo só existe enquanto está insurrecto e por detrás da barricada, sempre «em luta». Fora disso nem existe. O esquerdismo faz o que pode para manter viva e incandescente a insurreição para assim cumprir a promessa «democrática». Institucionalizar o poder, rodeá-lo de cautelas jurídicas, dividi-lo e limitá-lo, nem pensar: é atraiçoar o ímpeto revolucionário que o esquerdismo quer cavalgar.

Era por tudo isto que o malandro do Saint-Just quis adiar a feitura da Constituição do ano 1 (que seria aprovada em 1793) com receio de comprometer a força revolucionária e que o p. c. português quis, em conluio com um determinado sector do MFA, protelar as eleições que acabariam por se realizar em 1975 e tentou por todos os meios condicionar o voto (lembram-se da propaganda ao célebre «voto em branco» que equivaleria a «votar no MFA», de modo a diminuir os votos nos PS, no PSD e no CDS?) e manipular a feitura do texto constitucional (lembram-se do cerco à Assembleia Constituinte?). Eu lembro-me: assisti.

Há sempre pretextos para alimentar a insurreição. Desde o ódio ao clero e aos aristocratas durante a revolução francesa, aos capitalistas, latifundiários (mais tarde simples kulaks), exploradores e sabotadores da revolução bolchevique, até aos «fascistas», «padres reaccionários» e «caciques locais» de 1974/5, cá no país. Ainda hoje a insurreição é instigada no nosso ensino primário e secundário ensinando às crianças e jovens que no nosso país existiu um execrável e sanguinolento «feudalismo», que os portugueses são os culpados do esclavagismo, que antes deles até não existia, evidentemente, nem continuou depois, que mataram muitos «milhões» de africanos negros e não negros, que a história do nosso país é pouco mais do que uma sucessão de «crimes contra a humanidade», que antes do 25 de Abril muitas pessoas viviam em «campos de concentração», que a pide matou «centenas de milhares» de portugueses, que existiam 90% de analfabetos no nosso país, que a fome grassava, que os pobres estavam «proibidos de ir à escola» e que as mulheres não tinham acesso ao ensino secundário nem à universidade e que todas levavam pancada em casa. O ensino público secundário português já esteve pior, mas continua a ser, com o óbvio patrocínio da Direcção Geral da Educação, sobretudo nas disciplinas de história e de filosofia, um hino ao preconceito e à mentira e visa apenas deformar na revolta em vez de formar adultos autónomos e dotados de espírito crítico. Um ensino de insurrectos que pretende formar outros que tais.

Não deixa de ser curioso que os esquerdistas ainda não tenham compreendido uma coisa elementar. Quanto mais se deturpa a cabeça das crianças mais depressa elas, quando deixarem de o ser e começarem a pensar por elas próprias, se afastarão das patacoadas que lhes ensinaram e se voltam para posições opostas. Verifica-se hoje o que se passava no meu tempo de menino, mas ao contrário. O ensino primário e liceal fabricava então futuras gerações de esquerda, aborrecidas do relambório nacionalista e piedoso que lhes impingiam, e hoje prepara gerações de conservadores e liberais, cansados de se verem insultados na sua inteligência e discernimento.

2.Dentro e fora da escola a insurreição é o alimento dos esquerdistas. Começou com a luta de classes mas como o proletariado já não lhes liga nada, foi necessário descobrir novos pretextos. Agora é pôr as mulheres contra os homens, os negros contra os brancos, os homossexuais contra os heterossexuais, os animais e a natureza contra os humanos, os imigrantes contra os nacionais, os peões e ciclistas contra os automobilistas, os queridos criminosos contra a malvada polícia e por aí fora. Qualquer pretexto serve. Qualquer insatisfação é logo arvorada a «contradição» e utilizada como arma «contra o capital», até o sexo anal, imagine-se, como exibia escrito nas costas um atrasado mental luso numa manifestação gay. As próximas contradições a explorar serão a dos magros contra os gordos, dos baixos contra os altos, dos feios contra os bonitos e dos estúpidos contra os espertos porque se aqueles o são é porque a culpa é obviamente do «capital». De quem mais poderia ser? A noção clássica de que a vida em sociedade se resolve pela concórdia e pela colaboração alimentada pelo direito e pelos valores morais da tolerância e do respeito mútuo é insuportável.

Longe deles a ideia tão antiga segundo a qual as pessoas devem comportar-se de forma decente numa ordem social baseada na liberdade, na tolerância e na concórdia ou seja, num mínimo ético.

3.O conspícuo marquês de Sade, coevo da revolução francesa, percebeu perfeitamente aquela realidade. É dele a afirmação, constante da sua obra A Filosofia da Alcova, segundo a qual «a insurreição é o estado permanente da uma república», frase que deve ser, obviamente, compreendida no contexto histórico particular em que foi escrita.

A exaltação da insurreição, livre de quaisquer limites, foi também vulgarizada pelo já falecido esquerdista A. Negri, activista condenado das infames Brigate Rosse, que quis fazer dela, imagine-se, a matriz da prática «democrática» e do exercício do poder constituinte. Mas também agradava ao outro lado. Para Carl Schmitt, um dos principais teóricos do nazismo alemão, a insurreição activa era a «decisão» criadora da ordem política, para além do bem e do mal e totalmente alheia aos valores e ao direito. Num asserto hegeliano, a violência seria o veículo da passagem da consciência em si do homem empírico para a consciência para si do cidadão reconhecido como tal e já membro da comunidade.

4. A insurreição não é o poder constituinte. A superioridade da força constituinte não é absoluta, alheia a tudo quanto a possa limitar. Não é um poder sem forma e sem limites. Não é aqui o momento de desenvolver este aspecto. Mas uma coisa é certa: a energia insurreccional, espontânea ou provocada, não tem acolhimento no quadro constitucional. Uma vez instituída a democracia política, toda a acção directa como as barricadas nas ruas, os insultos à polícia, as agressões físicas e verbais, o assédio moral aos «reaccionários», as pichagens nas paredes, a destruição do património público e privado, os insultos às procissões católicas, o wokismo, a tinta verde atirada aos adversários políticos, etc…, não são modos legítimos de expressão da vontade popular. O liberalíssimo judeu luso-descendente Bento de Espinoza, um dos maiores filósofos de todos os tempos, não hesitava em condenar a arruaça.

5.O abade Sieyès, para mim o teorizador principal da Revolução Francesa, distinguia entre o poder constituinte e o constituído e gostava claramente mais do primeiro do que do segundo, que para ele não era mais do que o rotineiro exercício do poder pelos representantes eleitos. Mas foi sempre um democrata moderado, adepto do sufrágio universal e redactor até da Constituição do ano III, muito mais equilibrada do que a primeira, e apoiou o golpe do Thermidor que pôs fim ao terror revolucionário. Nunca apoiou a insurreição nem viu nela a expressão autêntica da vontade do povo.

Mas isto é demasiado para a cabeça dos esquerdistas em geral e dos portugueses em especial. Distinguir entre poder constituinte e insurreição? Que trabalheira. É muito mais fácil ser herdeiro do arruaceiro Blanqui do que do democrata Sieyès. Mesmo que se condescenda com certas formas de contestação porque é próprio da juventude contestar «com o corpo todo», como dizia um velho professor meu, há limites.

Força! Ide para a rua atirar pedras aos polícias, cocktails molotov às infames famílias reaccionárias, armem-se em «vítimas» de tudo sei lá, do fascismo, do capital, da raça branca, da masculinidade, pichem todas as paredes públicas e privadas arvorados em meninos rabinos pinta-paredes e insultem o parlamento em cartazes «revolucionários». Primeiro metam na cabeça meia dúzia de patacoadas próprias de adolescentes cheios de hormonas, tudo em nome do «povo», obviamente, e desatem aos pontapés.