Munido de uma maioria absoluta, Emmanuel Macron iniciou a sua presidência com um projeto destinado a liberalizar e dinamizar a economia francesa. Os impostos sobre as empresas diminuíram, o desemprego caiu, a legislação laboral foi modernizada e, mais tarde, o aumento da idade da reforma veio reforçar a viabilidade do sistema de pensões. Porém, os protestos dos coletes amarelos inverteram o rumo de contenção das contas públicas, a que se sucederam as crises pandémica e energética. Embora Macron tenha tido o azar da conjuntura, não se poupou nas medidas de apoio a empresas e consumidores, ficando para a história o seu discurso de março de 2020, em que prometeu agir “quoi qu’il en coûte” (“custe o que custar”) para atenuar os efeitos da crise sanitária. O resultado foi uma resposta de emergência sem precedentes, com pacotes avaliados em mais de 200 mil milhões de euros, acima do esforço realizado por muitos dos seus pares.

Hoje, o défice orçamental francês caminha para 6% do PIB – o mais elevado entre os países da zona euro -, enquanto a dívida pública ronda os 116%. A França mal consegue suportar os juros da sua dívida soberana, que enfrenta sucessivos downgrades das principais agências de rating. Mas o problema é estrutural, não conjuntural: o Financial Times revelou recentemente que os pensionistas franceses recebem, em média, mais 2% do que o salário médio dos trabalhadores no ativo; a Bloomberg acrescenta que quase seis em cada dez cidadãos franceses recebem mais do Estado do que aquilo que contribuem.

Para agravar ainda mais a situação, soma-se a crise política desencadeada durante o segundo mandato de Macron, marcado por uma instabilidade constante (desde 2024, a França conheceu seis governos e cinco primeiros-ministros, um cenário inédito na quinta república), resultante da convocação precipitada de eleições legislativas após os resultados das eleições europeias e pela sucessiva nomeação de primeiros-ministros oriundos de partidos minoritários, sem base parlamentar suficiente para concretizar um programa de governo minimamente austero. Sem espaço para aumentar ainda mais a carga fiscal sobre os contribuintes e perante um bloqueio institucional que impossibilita cortes ambiciosos na despesa pública, a França vê-se encurralada.

A ideologia experimental de Macron – o centrismo pragmático – conquistou o eleitorado francês em 2017 pela sua versatilidade: ora lançava reformas favoráveis ao investimento e às empresas, ora promovia medidas em prol do Estado social redistributivo; ora recrutava para os seus governos figuras de relevo dos republicanos, ora resgatava notáveis socialistas. Mas foi precisamente esta proposta híbrida que levou à erosão do eleitorado de centro-esquerda e do centro-direita, ambos sugados para a órbita do campo presidencial, abrindo espaço à ascensão das forças políticas radicais de Mélenchon e Le Pen/Bardella na oposição. O resultado é a França de hoje: fragmentada em três grandes blocos que não conseguem governar em conjunto, nem conseguem chegar a acordo para estancar o endividamento galopante das finanças públicas, que, como alertou François Bayrou, aumenta à velocidade de 5 mil euros por segundo.

A França está bloqueada e, em política, a única forma de desatar o nó é regressar às urnas. No entanto, desengane-se quem pensa que uma nova dissolução da Assembleia Nacional resolveria o impasse, uma vez que todas as sondagens apontam para um novo bloqueio parlamentar, sem perspetiva de uma maioria estável. Num regime constitucional como o francês, apenas as eleições presidenciais têm a legitimidade para redefinir por completo os destinos da república e estabelecer um mandato político incontestável. Assim como fez De Gaulle em 1969, o gesto mais digno de Emmanuel Macron – cuja taxa de reprovação atingiu níveis históricos – seria poupar tempo aos franceses, reconhecer o seu fracasso em materializar uma agenda transformadora e pré-anunciar a sua demissão. Tal decisão permitiria preparar uma campanha presidencial antecipada onde se debata com serenidade o desafio estrutural que a França enfrenta quanto à sustentabilidade do seu modelo social, seguida de eleições legislativas que promovam uma composição parlamentar coerente com o novo panorama político.