Depois de 75 anos de sucesso, conseguindo manter a paz na Europa e a unidade entre os seus membros, a Aliança Atlântica irá, sem qualquer dúvida, entrar num momento único da sua história, tendo de encontrar nos seus valores e na solidariedade dos Estados que dela fazem parte, a capacidade para responder aos enormes desafios trazidos pela alteração do quadro geopolítico nos últimos anos.
Apesar de muitos apostarem na sua inevitável destruição, face à nova realidade europeia e à imprevisível política externa da nova administração norte-americana, torna-se ainda mais fundamental entender as razões do seu sucesso ao longo destes anos e da sua importância no futuro, como elemento fundamental de defesa dos valores da democracia e da liberdade.
A Aliança irá atravessar o momento mais desafiante da sua história, tendo de reencontrar-se para conseguir dar uma resposta cabal aos vários desafios que se lhe colocam atualmente.
À cabeça, a ameaça direta proveniente da Rússia, que adotando uma postura de crescente agressividade no sistema internacional, invadiu já a Ucrânia e lançou a suspeita de não ficar por aí na sua tentativa de alterar a ordem geopolítica europeia e mundial e consolidar a sua presença no Mar Báltico e Mar Negro.
Nas fronteiras da NATO, esta é, sem qualquer dúvida, a principal ameaça ao futuro da organização.
Para complicar ainda mais a já por si esta difícil equação, a Europa e a NATO têm de conciliar as imprevisíveis consequências da nova postura externa norte-americana que acaba por ser um reflexo da própria a impetuosidade governativa de Donald Trump.
De facto, a abordagem essencialmente transacional do presidente norte-americano na relação com os outros atores internacionais vem acrescentar um considerável fator de risco à ordem internacional tal como a conhecíamos após a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo.
Assim, do tão confortável fim da História de Fukuyama, que anunciava o sucesso do modelo liberal e democrático e anos de paz duradoura, a Europa enfrenta agora a dura realidade de uma guerra dentro das suas fronteiras e a necessidade de assumir, finalmente, um papel determinante na sua própria defesa tendo em conta a possível retração dos EUA, que concentram agora as suas preocupações no espaço asiático para fazer frente à China.
Importa salientar neste ponto, que os EUA sempre procuraram que os seus aliados europeus assumissem mais as suas responsabilidades na defesa da Europa. A diferença para Trump é que este é muito mais vocal e objetivo, optando por uma postura internacional sem grandes filtros.
Que a Europa tenha agora a capacidade, para entender estas exigências como uma oportunidade para se preparar, em termos militares, para o que aí vem, de modo a garantir a segurança de todos os europeus, é o principal desafio que se coloca a todos os líderes europeus que terão de ser capazes de explicar que o investimento em Defesa é uma necessidade para a segurança de todos.
A defesa europeia estará à altura? Entendo que sim, pois a situação não é assim tão má e não partimos do zero. Para isso, é determinante que os europeus consigam ultrapassar as suas diferenças gerando sinergias em matéria de defesa que potenciem as capacidades já existentes, através do reforço da coordenação de meios e de uma gestão inteligente na aquisição e produção de meios futuros.
A NATO desempenhará sempre um papel crucial nesta nova arquitetura de defesa tendo por base o caminho que já foi sendo percorrido desde Gales, em 2014, com a maior parte dos Estados-membros já a ultrapassar os 2% de investimento em Defesa aí acordados. Olhando para a realidade atual, esse valor afigura-se manifestamente insuficiente, devendo os Estados procurar ir bem mais além de modo a garantir a sua defesa e segurança.
Infelizmente, Portugal, fruto das opções tomadas nesta área, pelos Governos socialistas, está no grupo daqueles que ainda estão longe de alcançar essa meta, tendo em 2023 atingido, em gastos efetivos com a Defesa, apenas 1% do PIB, valor que não se diferencia muito daqueles alcançados durante os anos anteriores da governação socialista.
Esta situação obriga agora a um enorme esforço e tem sido isso mesmo que o Governo da AD fez durante estes meses em que governou, reconhecendo que há muito a fazer e que será pedido, em termos orçamentais, um enorme esforço para conseguirmos ter orçamentos de defesa compatíveis com os compromissos que assumimos internacionalmente.
A decisão de antecipar o cumprimento dos 2%, foi apenas um passo nesse sentido, que foi acompanhado ao longo destes meses por um verdadeiro investimento nas pessoas e na modernização de equipamentos. A valorização das nossas Forças Armadas foi uma das prioridades do governo da AD e um sinal claro de que Portugal está de corpo e alma neste processo de fortalecer a defesa europeia, quer através da União Europeia, quer através da NATO.
Para além da gestão da relação com os EUA, com a Rússia e com a China, a NATO terá igualmente de ser capaz de dar resposta a outros desafios, igualmente impactantes para a segurança internacional, nomeadamente, as ameaças ainda presentes do terrorismo global, da guerra cibernética, das mudanças climáticas ou ainda do crescimento da influência geopolítica de novos atores, como a China ou o Irão, capazes de transtornar a ordem global existente.
Tudo isto, obriga a uma complicada e difícil coordenação das estratégias de defesa e segurança, através de um inequívoco reforço da cooperação entre os membros da NATO e um aumento do financiamento para o setor da defesa.
Estou certo de que, mais uma vez, a NATO será capaz de se reencontrar, encontrando nas críticas de Trump, a força necessária para se manter coesa e para demonstrar que continua a ser fundamental para garantir a segurança do sistema internacional. É claro que o novo estilo do presidente americano, provocou uma evidente alteração daquela que era a dinâmica tradicional nas relações da NATO com os EUA, trazendo algumas tensões, mas também permitindo alguns avanços em matéria orçamental.
Assim o futuro da Europa está nas mãos dos europeus, da sua resiliência e da capacidade de se reinventar como bloco coeso e forte na defesa da sua população.