Ao contrário do que aconteceu a vária gente, não tive nenhuma irritação particular com a unanimidade mediática em torno de Manoel de Oliveira aquando da sua morte. Em primeiro lugar porque creio que Oliveira era, mesmo para a maioria das pessoas que não o conheciam e que há muito não viam filmes dele, ou nunca tinham visto, uma personalidade genuinamente simpática, até pela maneira como convivia com a extravagância (não sei que outra palavra utilizar) de uma vida tão longa. Em segundo lugar, porque, a partir de certa idade, as indignações com a artificialidade dos rituais sociais amansam muito, quanto mais não seja porque ocupam tempo demais para aquele que nos sobra. Limitei-me, portanto, a não ver televisão durante dois ou três dias, o que dificilmente pode ser caracterizado como uma tortura.

Dito isto, é verdade que essa tal unanimidade, se vista além da coisa da simpatia, coloca algumas questões interessantes. E o meu espírito foi transportado para os longínquos finais de 1990, ou princípios de 1991, na bela cidade de Paris. Tinha acabado de lá chegar para fazer o doutoramento, graças a uma bolsa da FCT (então JNICT), e a Gulbenkian parisiense organizava na sua sede uma projecção de Non, ou a Vã Glória de Mandar, que acabara de sair, com a presença do realizador. Fui ver, e gostei tão pouco que saí a meio. Na manhã seguinte, vindo de um supermercado e carregado de sacos de plástico, cruzei-me com um amigo da altura. “Então o Oliveira?”, foi a pergunta. Expliquei-lhe que não tinha gostado. O que deu lugar a uma resposta muito assertiva: “O quê? É genial!”. De repente lembrei-me: “Não me lembro de te ter visto lá”. “Ah, só cheguei na altura do debate”.

Esta história (que, em versões menos radicais, é trivial) diz algo sobre a relação do gosto com a sociedade, algo que David Hume, o filósofo escocês, explicou bem num ensaio célebre sobre “Os padrões do gosto”. Nas questões de gosto introduz-se sempre a possibilidade da simulação. O simulador (deve haver tradução melhor para pretender, que é a palavra de Hume, mas não me estou a lembrar) é aquele que, seguindo a opinião geral, pretende experimentar um qualquer prazer estético, quando de facto não o experimenta, e tenciona ser admirado pelo seu bom discernimento.

De uma certa maneira, isso corresponde a um falseamento da nossa relação com a arte. Ignoro se essa situação é completamente escapável (embora avaliar a coisa só pelo debate me pareça declaradamente excessivo). Para corrigir essa possibilidade de falseamento só contamos, na ausência de melhor doutrina, com dois processos, que, de resto, chocam em parte um com o outro: mantemo-nos fiéis às nossas intuições estéticas (dito de outra maneira: gostarmos do que gostamos) e, ao mesmo tempo, procurarmo-nos educar na matéria (isto é, no limite: arriscar ir contra o nosso próprio gosto).

O verdadeiro problema da simulação, diga-se já agora, é quando ela extravasa para as questões políticas. Não se simulam menos opiniões políticas do que opiniões estéticas, e a veemência e taxatividade na sua expressão é tudo menos uma prova do contrário. Como o simulador de Hume, muita gente diz em matéria política aquilo que não pensou por si para dar prova de bom discernimento. A verdadeira atenção ao real e às suas rugosidades é dispensada, como é dispensada, no que respeita à arte, a busca das razões pelas quais gostamos ou não. Ficamo-nos por uma superfície irritantemente afirmativa. Naturalmente, é à esquerda que a coisa bate recordes. Porquê? Por várias razões, sem dúvida, uma delas sendo a de a esquerda parecer possuir uma “política do espírito” (expressão de direita, de resto) que a direita não possui. E é o brilho disso que atrai a simulação. Mesmo a dos velhos que, depois de dissipada a juventude à direita, procuram uma cura de rejuvenescimento à esquerda.

Voltando às questões do gosto. É claro que o facto de não existir nada em Portugal (em França também não, de resto) que se assemelhe à New York Review of Books ou ao Times Literary Supplement facilita a simulação. O exercício da vigilância crítica que, mesmo que doa, permite aprender, é um poderoso obstáculo a que se jogue tudo na aparência do discernimento. Cria, em princípio, padrões de apreciação educados que impedem o elogio apressado e a detestação fácil e obrigam a ver as coisas de perto e a estarmos conscientes dos contextos. À falta de revistas assim que nos permitam melhor olhar para nós (e é óbvio que, por muitas razões elas não podem entre nós existir), resta o recurso ao bom-senso. É o único antídoto contra uma excessiva facilidade de acreditar e, simultaneamente, contra a má-fé. Ensina em princípio que o gosto deve ser cultivado, mas que esse cultivo não deve divorciar-nos das nossas intuições espontâneas, sem as quais não há gosto verdadeiro.

Há muitos anos, contaram-me uma história, daquelas que só podem ser verídicas, passada com um grupo de teatro amador já não me lembro de que terra. Tinha saído um filme de Alan Resnais, Providence (não um mau filme, se bem me lembro) e vários membros do grupo tinham ido vê-lo. No ensaio do dia seguinte, entusiasmados, convenceram um dos outros actores, aparentemente mais lento de espírito, a ver o filme. Ele lá foi, e, à pergunta se tinha gostado, respondeu: “Lá gostar, gostei, mas vi-me lixado para gostar”.

Não sei, é claro, se naquele caso o esforço fez verdadeiramente sentido e se a proclamação do gosto foi destinada a, em benefício do convívio social, apresentar bom discernimento. Mas nalguns casos o esforço faz sentido, sem contradição real nenhuma. De qualquer maneira, eis um bom exemplo de alguém que não era um simulador. Se toda a gente usasse de tão abundante franqueza, as conversas sobre o gosto eram pelo menos bem mais fáceis.