Talvez nenhuma outra crise económica ao longo da História tenha explicação mais simples. Não é um conjunto de factores, não requer uma longa exposição sobre os antecedentes, não é a tempestade perfeita. É um cenário totalmente lógico, previsível, com princípio, meio e, de uma forma ou de outra, algures, um fim. A crise económica global de que podemos estar à beira tem uma causa simples: Donald J. Trump. O Presidente da nação mais poderosa do mundo, que escolhe não ouvir ninguém a não ser ele mesmo e que decidiu, ao contrário do que o bom senso recomendou durante décadas a toda a espécie de líder político – bom, mau, péssimo – atacar um dos pontos mais delicados do planeta para o funcionamento da economia mundial.

Iam ser três a seis semanas, garantiu o homem que não ia mais meter os Estados Unidos em guerras; no fim, o Irão estaria livre para que o seu povo fizesse dele o que quisesse. Eis-nos sete meses depois, atolados num impasse sem fim à vista. O petróleo e o gás a subirem para valores fora de órbita, a fazerem disparar os custos da energia e, por arrasto, da produção de tudo, com os combustíveis e produtos alimentares no topo da lista, acelerados pelo estrangulamento da passagem de fertilizantes. Se, nos primeiros meses, foram valendo a exploração de bypasses alternativos à passagem do gás e do petróleo, a libertação de reservas de combustíveis ou a contenção da China nas compras, o arrastar do tempo e dos acontecimentos acabaria por nos trazer ao ponto em que estamos hoje, sabendo que ainda podemos ficar bem pior. Nos mercados, a perspectiva de uma inflação de longa duração tornou as obrigações pouco atractivas, fazendo disparar os juros das dívidas soberanas para máximos de dez anos. Enquanto isso, o receio de uma repetição do caso de Ormuz ou os anúncios de planos para a criação de “portagens”, espoletaram lutas pelo controlo dos estreitos marítimos navegáveis que ameaçam devolver o comércio mundial ao século XIX.

Tudo obra de um homem que, supostamente, saberia fazer negócios. Um político cujos valores morais ou intelectuais poucos se ofereceriam para defender, mas cuja argúcia económica era uma maravilha visível do Espaço. O preço a pagar por, alegadamente, impedir o Irão de desenvolver uma bomba nuclear, a mesmíssima possibilidade que o mesmíssimo Presidente decidiu, entretanto, oferecer à vizinha e rival Arábia Saudita, enquanto, dia sim, dia não, ameaça os iranianos de aniquilação. Que é como quem diz, conseguindo de caminho a proeza adicional de dar ao Irão ainda mais razões para querer ter a bomba.

Curiosamente, a direita radical ainda não começou a pagar o preço político da crise. Pelo contrário. Por agora e por todo o mundo ocidental, o aperto financeiro de famílias e empresas só parece estimular ainda mais a contestação aos partidos ditos do “sistema”. Exigem-se descidas de impostos, ajudas de Estado, desistir da Ucrânia e reabrir a torneira à Rússia, para voltar a ter energia barata, em suma: vender a segurança das nossas fronteiras – para já não falar da nossa alma – a troco de um tanque de combustível cheio e de aquecimento no Inverno.

Por cá, André Ventura ensaiou uma espécie de demarcação, em resposta a um jornalista, à saída de uma reunião da família política europeia do Chega, denunciando os “erros cometidos por Trump no último mês”. Mas o problema não começou nos erros de Trump no último mês, nem sequer nos últimos sete; o problema está em toda a filosofia económica da grande referência da nova direita nacionalista, seguida e imitada por populistas de todo o mundo. O regresso ao proteccionismo, o abandono do livre comércio global, as “negociações” sob ameaça da força, a imposição de tarifas a literalmente meio mundo, o constante ameaçar, recuar, mudar de ideias e de discurso, a teoria do “homem louco” e da imprevisibilidade em geral como suposta arte negocial a que, na verdade, os mercados são alérgicos.

Não sabemos o que sairá das eleições intercalares nos Estados Unidos em Novembro, mas seria bom que, entre as várias falências de Trump ao longo da carreira, não viesse, um dia, a contar-se a do mundo. Sabemos que os níveis de aprovação do Presidente estão historicamente baixos e que há abundantes sinais de preocupação entre os republicanos em estados que, ainda há dois anos, escolheram esmagadoramente o bilhete Trump/Vance. Não sabemos se pagará os 5 mil dólares que prometeu a cada eleitor que vote republicano, e que além de constituírem o mais evidente reconhecimento do falhanço da sua política (se é tão bom Presidente, porque precisaria de comprar votos?) e um suborno em forma de prego no caixão das democracias liberais, seriam lançar ainda mais gasolina (má escolha de palavras) para a fogueira da inflação. Mas será interessante perceber que efeito terá no apoio aos populistas de todo o mundo o primeiro grande teste real às suas teorias. Isto é, porque até agora, de Farage a Ventura, da AfD a Le Pen, só ouvimos conversa (Meloni, não por acaso, há muito que não se deixa confundir com desastre natural em forma de político).

Enquanto isso, na frágil pátria lusitana, não deixa de ser curioso que, sobre os dois grandes partidos tradicionais, vão pairando como potenciais sucessores à liderança os seus maiores paladinos das “contas certas”: Passos e Centeno. Os tempos são incertos e as revoluções são giras, mas custam imenso dinheiro. E o dinheiro, como Trump sabe, é que governa o mundo. E não se importa muito com deuses nem cores de bandeiras.