1 É oficial, mesmo que já se suspeitasse: várias ruas europeias encarregaram-se de certificar, com veemência, a “oficialização” da crise das democracias – ou deveria dizer do seu ocaso? – e a glorificação da sua subversão. Produzida, encenada e heroicizada por uma nova classe de protagonistas – “jovens” sempre, é claro, mas hoje autointitulados “activistas”. O que julgam ser o seu “sucesso” europeu levou-os a exibirem-se a “bureaux fermées”: não foram precisos bilhetes, nem público, bastam-se a si mesmos, com a antecipada certeza da presença de uma média feliz e disponível à sua frente. Acolhendo, ampliando e amplificando nos seus écrans cada episódio deste novo conto de outono.
2 A verdade é que em tudo isto só espantou o vertiginoso grau da violência usada em França. O resto já estava sombriamente inscrito no ar deste tempo de tibiezas, abdicações e renúncias nas lideranças das democracias do mapa ocidental.
Quando o presidente Macron, grave e compungido, começou a sua intervenção há dias por consternadamente perguntar aos franceses “como se chegou até aqui?”, percebeu-se instantaneamente que talvez nunca lhe tenha ocorrido interrogar-se a si mesmo, pelo menos de forma muito audível “por este caminho vamos chegar até onde?”
O Presidente francês, autor da pulverização do centro-direita e do centro-esquerda políticos do seu país, não (se) perguntou. Em vez disso deixará em herança os extremos do sistema: um que mete medo e o outro que nem pensar em prová-lo. E nos espaços políticos entre um e outro, as lideranças que dele se têm ocupado, quase fazem pena. Mesmo que se repita à exaustão ou até “ad nauseam”, que “a França é a França” e “tem a revolução no sangue”, não fora a demissão de uma considerabilíssima parte dos seus líderes ao abstraírem-se da realidade económica, política e social da sua pátria e nunca o solo dos activistas do mundo de hoje, teria sido semeado com tanta fertilidade. As governações de centro-direita ou centro-esquerda aqui e na “Europa” olharam para onde, pensaram em quê, cuidaram de quem?
Se nenhuma violência é suportável nem admissível, a “malaise” é indisfarçável. Pior, é natural.
Quando José Luís Carneiro diz sem saber o que diz que “o importante é olhar para as causas que levam as pessoas a ir para a rua”, quando o seu partido esteve oito anos no poder deixando uma folha de resultados embaraçante, como pensa ele ser escutado ou sequer olhado pelos “jovens activistas” (ou mesmo por qualquer ser humano normalmente constituído?). Como é que o PS + extremas-esquerdas olharam para a grande “causa” da Habitação durante anos? Como se ocuparam dela numa “geringonça” de (certamente!) muito má memória para os parceiros extremistas e de não brilhantes feitos do governo? Dos governos socialistas – no plural – onde o suposto relevo dado à Habitação foi inversamente proporcional ao que ela implicava no país e ao que os portugueses careciam?
Depois não se admirem com tanta gente nas praças das cidades europeias.
3 Conhecíamos militantes de encarnações passadas – menos demencialmente irracionais e menos assumidamente perigosos no modo como se “manifestavam” em algumas ruas da Europa. Mas era no tempo de ontem. Quando havia líderes políticos que, por o serem, substituíam a desordem pela racionalidade, e reconduziam as coisas às regras e exigências do jogo democrático, honrando a decência desse compromisso. Sempre houve contestações com uns de um lado e outros do outro e praças com jovens ululantes, reclamando tudo e o céu também. Do que talvez não me lembre é de um desajuste tão eloquente – grandiloquente – como o que testemunhámos, França fora, nas tardes e noites do último fim de semana.
4 É impossível não sublinhar o óbvio, apesar de tão óbvio. As crises das democracias ocorrem num período perigosíssimo onde coincidem flagelos que embora de diversa natureza, se interligam no desastre: a fragilidade das lideranças actuais da UE e, em contrapartida, a força delas, em lugares estratégicos do mundo; o “estado de doença avançada” da França e da Alemanha, pilares e reivindicados autores estratégicos do andamento da UE; a inoperância e irrelevância de uma Europa desarmada com a qual já se deixou de contar; a existência em simultâneo de mais do que uma guerra: a visível, a híbrida e essa portentosa guerra silenciosa e invisível de que a Rússia, sua autora, é a exímia – e exitosa – fabricante: dos fundos dos mares aos cumes dos céus, passando por onde for preciso.
5 A UE tem de ser capaz de se defender. Só assim se protegerá e nos protegerá e até La Palisse se recusaria a assinar esta verdade tão prosaica e comezinha embora sem sombra de efeito até hoje.
Mas – ah, os “mas”… – quem paga uma Europa forte na sua Defesa e convicta dessa absoluta necessidade? As ruas das suas cidades certamente que não e a fraqueza da vontade política do velhíssimo continente, também não.
E ainda mais certamente não se vislumbra por aí ninguém capaz de querer recuperar alguns valores e coordenadas do mundo de ontem, que conduziam os caminhos ora das direitas moderadas, ora das esquerdas sociais-democratas pelas alamedas certas. De que são bons exemplos Francisco Sá Carneiro ou Helmut Kohl, Filipe Gonzalez ou Mário Soares.
Surgem-nos como irreversivelmente submersos nos desesperantes combates entre o bem e o mal que envenenam hoje o mundo e nos atormentam as vidas. Mas segundo me lembro, parece-me que nem esses valores nem essas coordenadas tinham prazo de garantia. Surgiam-nos naturalmente como eternos.
Ou afinal tinham mesmo prazo de garantia?
6 Fica-se espantado com militantismo tão obsoleto; ainda hoje não lhe perdoam nem o que fez ontem, nem o estar tão presente e atento, hoje. Adjectivos mal escolhidos, substantivos despropositados, frases de efeito, clichés, pescados do mar da fantasia para apagar o Passos Coelho de 2011/2015.
Não têm conto as tentativas, bem-sucedidas aliás na sua longa duração, para apagar a verdade desses anos. Era preciso manipular a herança da governação do ex-primeiro-ministro, negar os seus bons resultados no palco nacional e europeu,
Muito bem-sucedidas, quer pelos próprios herdeiros, mas sucede que hoje, não há nem ressentimento nem militância que possam combater o que já está em relevo na nossa história recente: um feito governativo
Parece-me simplesmente extraordinário