1.São coisas diferentes? São. Até opostas. Quem preconceitua é porque é incapaz de ajuizar. Infelizmente é o que se vê e lê mais entre nós na imprensa escrita e na televisão. E então nas redes sociais nem se fala.

Sem preconceitos ninguém vive. A sociedade actual é tão complexa e fragmentada que sem lançar mão deles, adquiridos sabe-se lá como, por osmose ou por tradição ou seja lá como for, ninguém se conseguiria mexer na vida prática. Não são mal nenhum. Os preconceitos são uma realidade insofismável. Têm raízes no passado. E servem de orientação no presente.

O preconceito é seguro. Através dele não precisamos de questionar a verdade que transporta. É funcional ou seja, escorrega bem e evita problemas porque não deixa soluços nem arrependimentos. E, sobretudo, reconcilia-nos connosco. Não temos de sair do casulo e de nos aventurar em terrenos inóspitos. Que bom! É fácil, é barato e, quiçá, dá certezas.

O problema está em sair dele. É que pode facilmente bloquear a compreensão da realidade presente. É este o perigo do preconceito. E isto porquê? Porque evita o juízo o qual, por sua vez, consiste na interpretação da realidade presente sem critérios «a priori» de que partir. Dissipar o preconceito é que é tarefa difícil. É preciso fazer distinções, tarefa sempre complicada e perigosa, e interpretar bem a realidade, sempre em diálogo com o próximo, mais difícil ainda. É que o juízo não tem natureza automática, muito menos compulsória.

2.O mundo actual caracteriza-se pela perda de critérios. E nunca mais os encontrará. A verdade é que desde a política interna à externa, desde a vida privada à pública, desde o conhecimento à ignorância, desde as perguntas às respostas, nada é hoje certo. Os problemas actuais disso mesmo se ressentem. Só os homens das ciências sociais e da psicologia, imersos numa abordagem sistémica que evita os problemas em vez de os resolver, é que se sentem em casa.

O cidadão comum que queira compreender está atirado para um mundo estranho, complexo e imprevisível. Daí que o mais fraco se sirva do preconceito, o que se compreende. Tem medo de sair do redil, tal como o grego antigo tinha receio de abandonar os muros da pequena polis que o tinha visto nascer e onde se sentia seguro ao pé dos seus concidadãos  e tal como o comunista tem receio de sair para fora dos poucos axiomas em que confia. Se o fizer, parece um peixe fora de água. A inteligência tem de ficar pelo caminho e mais, prejudica. Toca, portanto, a afirmar que a infelizmente desaparecida URSS favoreceu «o povo» e que o fascismo foi igual de Auschwitz até Stª. Comba Dão.

3.O preconceito é uma boa arma. Quem dele faz fé usa-o como uma arma de arremesso contra a realidade. Os esquerdistas portugueses são especialistas nisto.

Perante a realidade em vertiginosa transformação o preconceituoso não soçobra. Como? Idealiza o ponto de partida e transforma-o num vade mecum para todas as questões. O preconceito logo alimenta a ideologia ou seja, a lógica da ideia, sem querer saber da realidade nem do problema. Preconceito na mão, tudo está bem e tem resposta pronta.

4.O preconceito é geral. Tal como a cantiga da rua, anda na boca de toda a gente. Mas há alguns mais conspícuos do que outros. A história tem derrubado muitos, desde o preconceito nobiliárquico, que já lamentava Herculano, ao preconceito oligárquico, este sempre a despontar num país inculto como o nosso em que a notoriedade pública e a riqueza tudo perdoam, ao preconceito académico, em declínio, ao ideológico, mais recente e robusto (não uso o bárbaro termo «resiliente», que nem sei nem quero saber o que é: penso que é para avaliar a robustez dos materiais).

Pelo que a este último preconceito diz respeito, que é hoje o mais forte, há, contudo, uma precisão a fazer. Um sector da opinião pública, hoje maioritário, geralmente alcunhado de «direita», não tem nem nunca teve certezas. Viveu sempre imerso no problema e funcionou e funciona quase sempre por exclusão de soluções que considera irracionais e perigosas. Pensa pela negativa e está à defesa. Alguma esquerda socialista, ainda pouca, navega hoje finalmente nas mesmas águas, o que só vai a favor dela pois que a hesitação é a porta aberta para o juízo, não para o preconceito. Está no bom caminho. O preconceito já não habita hoje em todo o PS. Excepcionam-se alguns casos oligofrénicos, infelizmente numerosos. Já a extrema-esquerda, essa não, pois tem certezas evidentes. Não hesita, afirma. Não questiona, deduz. Leu pela obscena vulgata da contracultura (pseudo) marxista e está sempre ao ataque. A estratégia é de sobrevivência e como se sente assustada, cada vez mais preconceituosa será. Ajuizar seria a sua morte.

5.Preconceituar? Pois claro, pois que «bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus», como consta do Sermão da Montanha (Mateus, 5.3). Deus deve gostar deles.