matuto = diz-se de quem vive no mato e a quem falta traquejo social; caipira; matreiro.
O verbo matutar, todavia, significa meditar ou ponderar.

O Matuto precisava cortar o cabelo. Num gesto furtivo passou a mão pela guedelha. Sem dúvida. O Matuto sempre achara que a relação dum homem com a sua melena era algo de primitivo. Tipo, as pinturas rupestres… O Matuto atirou-se a pensar nisso. Era uma relação que tinha a ver com uma certa generosidade. Sim, porque o cabelo deve ser das poucas coisas que o ser humano ostenta, exibe… Aquele gesto desplicente de passar os dedos pelas madeixas, como se fossem praias de ternura. Aquele cuidado com a grenha num prazer-fora que dá conteúdo ao prazer-dentro numa desenvoltura trémula… O Matuto ficou-se. Cortar o cabelo era preciso. Urgente! Premente!

Aí o Matuto deu-se conta da dificuldade da tarefa. Na cidade, interior do Estado de São Paulo, onde o Matuto vive há muitas barbearias. Na verdade, existe uma invasão de “barbearias gourmet”. O Matuto fica de cara à banda com tanta diversidade e criatividade. Sim, porque o Matuto está a par das últimas. “Up-dated” – é assim que se diz agora. O Matuto googlou o que precisava… Existe, por exemplo, a Barbearia Vitello (com dois “élles”, por gentileza!). No seu site o Matuto leu a informação essencial: “Quem passa pela Vitello busca mudança. Seja para testar um novo corte de cabelo, seja para valorizar seu estilo ou mudar o clima do dia com um bom bate papo”. Bom, o Matuto não queria mudar nada. Só queria cortar o cabelo. O Matuto continuou lendo. Ficou com a cara ainda mais à banda quando percebeu que a barbearia oferecia uma escolha de “suculentos burgers e cervejas artesanais” que eram “uma desculpa perfeita para esticar o horário da barba”. O Matuto sentiu-se um gentleman Inglês: Sploit for choice! E aí o Matuto viu as fotos. Homens de juba farta com ar de lenhadores russos que emborcam vodka como quem respira. Impressionante! Mas, o Matuto só queria cortar o cabelo.

O Matuto continuou. A lista era enorme… Barber shops. Que chique! Será que terá de comunicar em Inglês!? O Matuto refresca mentalmente o seu Inglês. Dá para o gasto – I’ll manage! É a “Barbearia Fillipo”, a “Bunittas”, “Barbearia duu Bigode”, “Barbearia Pappito”, “Styllu’s Barbearia”, “Vikings Barbearia, etc. A lista era imensa e a predominância das consoantes duplas evidente. O Matuto sentiu a cabeça andar à roda com tanta informação. Algumas barbearias oferecem “toalha quente e cerveja gelada” (será por esta ordem?), outras “cerveja e o velho rock and roll, e toalhas cheirosas”, outras ainda oferecem “um ambiente 100% masculino”. O Matuto não gostou da ideia. Porquê tanto homem? E que mariquice era essa das toalhas!? E cerveja para quê? O Matuto, ou ia numa bar-bearia ou num bar! E aí vinham os nomes. Um campeonato à parte. Havia desde o macho “Black Barba” à Al Caponesca “Mafia da Navalha” (que medo!), passando pela plácida “Confraria da Barba” e terminando na esotérica “Espaço Alpha – Barbearia Premium”.

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O Matuto sentiu-se cansado de tanta opção. Desistiu. Pediu socorro. Um amigo gentil indicou: “Vai no Dailton. É simples e perto da tua casa”. Certo. No dia combinado o Matuto dá uso sábio às suas pernas e sobe a rua. Desemboca numa pracinha. Os últimos dias de Agosto. Há um leve cheiro de flores no ar. Na cidade onde o Matuto vive, as árvores Ipês florescem em Agosto. É uma sinfonia de cor. As Ipês rosa florescem nos primeiros dias de Agosto. Nos últimos dias de Agosto é a vez das Ipês amarelas e brancas. O Matuto espanta-se: Como será o mistério das flores? Numa esquina da praça, a barbearia. Ausência de publicidade. Só umas portadas generosamente abertas para abraçar as Ipês. O Sr. Dailton, octogenário de cabelo hirsuto, indica a cadeira de barbeiro. O Matuto instala-se. Começa o delírio das “kachinkas” das tesouras. Norte e sul, passando por todos os paralelos e meridianos, o Sr. Dailton arrasa o pelo do Matuto. De repente, sobre o som das “kachinkas” ouve-se um retinir de telefone. O Matuto estica o pescoço a medo, mas não vê telefone nenhum. “Só um minuto” – diz o Sr. Dailton. Papel e lápis na mão o homem corre para a frente da barbearia. O Matuto vê-o enganchar o pescoço num orelhão (telefone público). “Barbeiro” – anuncia a voz de tenor. Acertados os detalhes com o cliente virtual o Sr. Dailton volta e retoma o corte de cabelo do Matuto. “Kachinka” – faz a tesoura na mão esquerda, “kachinka” – responde a tesoura da mão direita. O Matuto arrisca a pergunta: “O Sr. Dailton não tem telefone?” A resposta vem pura: “Não preciso! O orelhão é aqui na frente da barbearia. E celular é perda de tempo. É como as novelas da Globo. Só tem bobeira!” O Matuto ficou a matutar na inteireza da coisa. Fazia sentido. O Barbeiro deu o serviço por terminado com umas toalhas quentes embebidas em álcool. E o Matuto ponderou na ironia: Ele só queria cortar o cabelo. Mas as toalhas e o álcool intrometeram-se.

Professor de Inglês, vive no Brasil há 9 anos