Há números que nos apanham de surpresa. Outros que confirmam aquilo que já sentíamos, mas que, ainda assim, nos devem realmente inquietar.
O estudo “Saúde Preventiva nas Mulheres Ativas”, desenvolvido pela VOH CoLab em colaboração com a CUF, analisou os hábitos de prevenção, autocuidado e rastreio clínico de 2.564 mulheres inseridas no mercado de trabalho, mais precisamente de cinco grandes empresas: Meo, Pestana, Jerónimo Martins, Hovione e CUF. Os dados que emergiram não são apenas estatísticas: são um retrato fiel de uma realidade que vemos todos os dias.
Das mulheres inquiridas, 58% acumulam funções profissionais com o cuidado de dependentes familiares e 38% admitem colocar a saúde dos outros à frente da sua. Estes dados revelam que a prevenção não é apenas uma escolha de literacia, mas depende de condições logísticas e emocionais que, atualmente, falham no apoio à mulher ativa. Estas mulheres não são negligentes. Pelo contrário, são, na maior parte dos casos, extraordinariamente dedicadas – às famílias, ao trabalho, às causas que abraçam.
Na Oncologia, o tempo não é apenas um recurso, é um fator determinante de prognóstico: 35% dos cancros permanecem totalmente assintomáticos nas fases iniciais. Aguardar por sintomas visíveis pode resultar num atraso de seis a doze meses na intervenção. Isto não é um pormenor, é a diferença entre tratamentos menos agressivos e situações de maior complexidade clínica. É a diferença que muda vidas.
O que o estudo também nos revela – e isto é igualmente importante – é que o problema não reside apenas na vontade ou na literacia em saúde. Está nas condições estruturais em que estas mulheres vivem e trabalham. Embora 74% das mulheres refiram ter flexibilidade para consultas, 47% têm uma flexibilidade condicionada. Apenas 26% gozam de flexibilidade efetiva, o que leva ao adiamento ou ao cancelamento de atos preventivos. Quase metade das mulheres tem de negociar o direito a cuidar da própria saúde. E quando a logística falha, é a prevenção que fica para amanhã.
Os dados sobre rastreios são particularmente reveladores. Assiste-se a uma maior adesão às recomendações de exames oncológicos femininos, sobretudo a partir dos 45 anos, nomeadamente de mamografia, ecografia mamária ou citologia ginecológica – e isso é uma boa notícia. Mas mais de 70% das mulheres nunca realizaram exames para a detecção do cancro digestivo, que é responsável por 30% das mortes por cancro. Adicionalmente, 86% nunca realizaram exames para avaliação da osteoporose, a chamada “densitometria óssea”. E estes são exames que detetam doenças em fases tratáveis e podem fazer a diferença no prognóstico da doença. São exames que salvam vidas ou que têm um impacto grande na qualidade da mesma – e continuam a ser sistematicamente adiados.
Como diretora da CUF Oncologia, há uma mensagem que repito constantemente: a prevenção é uma necessidade de quem quer ter futuro. E o cancro, tal como outras patologias, não espera pelo momento em que temos um espaço na agenda.
Seria injusto reduzir este problema à responsabilidade individual. O estudo desenvolvido demonstra que a prevenção depende de um ecossistema onde a cultura organizacional é determinante para apoiar ou inibir as intenções preventivas individuais.
As doenças cardiovasculares e os tumores representam quase 50% da mortalidade em Portugal e a “progressão silenciosa” de doenças assintomáticas resulta em diagnósticos tardios, gerando absentismo severo, quebra de produtividade e perda de talento e conhecimento por reformas antecipadas. São custos humanos e económicos que nenhuma organização pode continuar a ignorar.
Do ponto de vista clínico, cada consulta facilitada, cada rastreio promovido, cada barreira removida pode representar um diagnóstico precoce. E um diagnóstico precoce pode representar uma vida, ou uma vida melhor.
Há ainda um caminho importante a fazer na literacia em saúde e na criação de condições que tornem a prevenção mais fácil e mais regular. Os rastreios e as consultas de rotina são fundamentais para identificar precocemente doenças que, muitas vezes, evoluem de forma silenciosa. Adiar a prevenção até ao aparecimento de sintomas pode significar perder tempo clínico relevante.
O estudo foi apresentado. Os dados estão na mesa. O diagnóstico, em sentido literal e figurado, está feito. Chegou a hora de agir. Porque na medicina, como na vida, o melhor momento para prevenir foi ontem. O segundo melhor momento é hoje.