Ainda estávamos a acordar de uma noite de fim de ano e logo fomos confrontados com uma notícia que nos deixou confusos.

Donald Trump decidiu prender Nicolás Maduro, através de uma operação especial que, com uma rapidez notável e com uma precisão de acção extrema, deixou o Mundo dividido quanto à bondade da acção e do seu resultado.

Por um lado, acredito que uma considerável maioria dos cidadãos venezuelanos ficaram felizes por se verem livres de um dos maiores criminosos que o Mundo já conheceu, que durante décadas foi destruindo um país e um povo e que se mantinha no poder em resultado de uma fraude eleitoral.

Por outro lado, muitos cidadãos venezuelanos – seguramente todos os que não gostaram da prisão de Maduro e muitos daqueles que mencionei antes – ficaram preocupados por ser possível um país estrangeiro poder intervir unilateralmente no destino do seu país.

Ainda assim, aqueles que gostaram do resultado desta operação e que são uma enorme maioria, esperavam que esta tivesse mais efeitos sobre a vida política da Venezuela e terão rapidamente ficado frustrados por verificarem que isso não aconteceu.

Da parte dos países, as reações foram as esperadas.

A maioria valorizou a queda do ditador criminoso que ao longo dos anos levou um país rico à miséria e o seu povo a uma vida de enorme sofrimento, ao mesmo tempo que aqueles que vinham a beneficiar com as acções criminosas deste regime, como a Espanha, a Rússia, o Irão e a China, se declararam totalmente contra a dita operação.

Tudo isto foi, de facto uma surpresa que deixou o Mundo perplexo e sem saber o que esperar como desfecho.

Neste momento ainda pouco se sabe daquilo que irá acontecer, contudo, há algumas circunstâncias que nos deixam desde já esperanças de que seja possível ver uma solução positiva para o povo venezuelano e para o Mundo.

Se, por um lado, vamos ouvindo as frases bombásticas de Trump que sempre dispara em todos os sentidos, por outro lado assistimos a uma nova presidente da Venezuela que se afirmou inicialmente como grande opositora aos Estados Unidos a afirmar, depois de a terem feito presidente, que estaria disponível para seguir uma ligação mais alinhada com a vontade do governo americano.

A afirmação de que não será entregue o poder a uma oposição que teria ganho umas eleições forjadas por Nicolás Maduro para se manter no poder deu aos venezuelanos a perspectiva de que não se estaria a cumprir uma passagem para um regime democrático.

Contudo, a verdade é que a passagem imediata de um regime para uma oposição que não controla nenhuma instituição no país e que não tem qualquer estrutura organizada para assegurar o controlo da segurança e do governo da Venezuela seria de uma enorme inconsciência e seria perigosamente provável a passagem para uma situação de guerra civil.

A manutenção das estruturas do regime, durante um tempo para garantir uma passagem estável para uma solução futura é, seguramente a melhor opção que poderá ser tomada e, estou convencido, é essa a estratégia que estará a ser levada a cabo pelos Estados Unidos.

Para aumentar a confusão criada, Donald Trump decidiu deixar no ar veladamente que irá proceder da mesma forma noutras realidades próximas e mencionou a Colômbia e a Gronelândia.

Nem eu nem ninguém, provavelmente, poderá ter qualquer noção daquilo que poderá estar no espírito de Trump e isso é sempre a sua mais eficiente arma.

A forma como ele nos deixa a discutir as suas ideias, as suas ameaças, as suas decisões que muitas vezes são contrariadas quase imediatamente, é aquilo que ele pretende sempre conseguir e que é, deixar o seu adversário fora de pé para poder de seguida marcar ponto na negociação.

Até agora, de tudo o que Trump ameaçou e que nos foi afligindo, pouco foi realmente realizado. Muitas vezes teve custos e outras vezes foi, principalmente desagradável, mas o resultado não foi verdadeiramente mau.

A má relação com a Europa levou-nos a acordar de um marasmo que nos estava a destruir.

A relação de guerra comercial com a China não resultou em nenhum drama maior.

A intervenção na Ucrânia obrigou a Europa a preparar-se para assumir as suas responsabilidades e isso, se um dia viermos a precisar de não depender dos Estados Unidos, será seguramente uma vantagem.

A intervenção em Gaza, goste-se mais ou menos, terminou um conflito.

É verdade, 2026 nasceu confuso, mas isso não significa que não possa ser um grande ano.

Já nos meus tempos de jovem ouvia os ciganos dizer que não gostavam de ver bons princípios aos filhos, porque é a dificuldade que os faz medrar melhor.