Foi observado que os maiores conflitos começam por coisas muito pequenas; e que frequentemente mais ninguém a não ser as partes em conflito consegue ver as diferenças que geraram tanta animosidade. Além disso, quando passa o tempo nem os herdeiros dessas partes conseguem ver as diferenças. Os sassânidas já não sabem quem eram os gregos; os gregos já não se lembram que nessa altura ainda se chamavam romanos a si próprios; e os romanos já desculparam um pouco aos normandos e aos ostrogodos.
A probabilidade de as diferenças virem a ser esquecidas não é suficiente para impedir conflitos. Na altura em que os conflitos são gerados o que parece importar mais são essas diferenças; e não consola que a longo prazo deixem de se notar. Apesar disso, mesmo quando um conflito começa, e não só entre países, é a semelhança entre as partes que permite que as diferenças sejam tão importantes. As diferentes partes descrevem-se invariavelmente como muito diferentes entre si; os choques de civilizações, como os de planetas, são porém muito menos frequentes do que se imagina, e os oponentes pertencem uns aos outros mais do que se imagina.
O acordo entre duas pessoas, ou entre dois países, como exemplificado num tratado assinado pelas partes, é um acordo em relação à verdade de certas proposições ou à desejabilidade de certas resoluções. Mas essa parecença é entendida de modo flexível. Observou-se que faz parte desses acordos não levar a mal que uma das partes ou ambas suspeitem de que a outra entende as proposições e as resoluções comuns de um modo um pouco diferente. É todavia uma duplicidade com conta, peso e medida, e por isso aceite com bonomia nas chancelarias e pelos psicólogos.
Acontece que uma cólera muito maior que a suscitada pelas pequenas diferenças é concitada pelas grandes semelhanças. Dispensamos o nosso melhor rancor a quem concorda connosco em todos os pontos substanciais. Não são realmente as dissensões que atraem a máxima cólera; bem vistas as coisas trata-se sempre de diferenças pequenas; e as diferenças pequenas até aquecem a alma a quem as tem. É antes a concordância que é sentida como um insulto; como se a outra parte, ao concordar connosco, nos estivesse a confiscar qualquer coisa de muito substancial.
Recebemos assim com fúria a concordância dos outros. O grande modelo é o da Rainha Neves, na história conhecida. O que a preocupava e a levava a nunca parar de fazer perguntas ao seu espelho não era poder haver gente diferente dela, mas poder existir alguém igual a ela. A sua antipatia pela pequena Branca, uma activista inócua, indicava preocupação com a possibilidade de estar a ser secretamente replicada. Preocupava-a a eventualidade de um membro da geração mais nova lhe roubar o aspecto. Como à Rainha Neves, nada nos aborrece tanto nos nossos semelhantes como o poderem parecer-se connosco.