Como todos sabem, o cérebro humano é um órgão notável em capacidade de integração de informação, graças à enorme quantidade de neurónios e à ainda maior quantidade de conexões entre eles. Como será também já sobejamente conhecido, embora não tanto,  as conexões nervosas involuem ao longo da vida se não forem utilizadas, e os neurónios, esses, morrem mesmo se não forem utilizados com uma certa frequência. Kaput, sem retorno!

A Direção Geral da Saúde, DGS, talvez mercê de uma atividade repetitiva, pouco diversificada, e que envolve essencialmente a aplicação de protocolos sanitários de proveniência internacional, sem grande necessidade de integrar informação diversa para produzir conclusões novas, vulgo raciocínio, aparenta todos os sintomas de possuir um só neurónio.

Quando a Covid-19 chegou a Portugal, embora já fosse óbvio e comprovado o seu caráter fulminante pela situação de inúmeros países, incluindo vizinhos nossos, o neurónio DGS aplicou pressurosamente os princípios da cartilha que estudou dedicadamente ao longo de anos sobre as ações a tomar no início de uma epidemia. E assim decretou que só se faziam testes aos doentes ou suspeitos que possuíssem “link epidemiológico”.

Durante cerca de duas semanas, os médicos deste país viveram impotentes sob a ditadura do “link epidemiológico”. Não interessava o seu juízo clínico do doente. Quando o médico pedia a necessária autorização para fazer o teste, se não houvesse “link epidemiológico”, não havia teste. Uma doente oncológica imunodeprimida, com todos os sintomas da doença, com três passagens recentes para fazer exames no hospital para onde convergiam a maior parte dos casos detetados até à altura no país, não tinha “link epidemiológico”, pois não tinha estado fora do país, etc. — nada de teste. E a doente voltou pacientemente para casa não-referenciada, foi tratada pelo seu marido com dedicação, este continuou a visitar com igual dedicação a sua mãe octogenária no lar em que vivia, e os dois filhos do casal continuaram a ir para a escola todos os dias, sem sintomas mas muito provavelmente contagiosos. E foi assim, multiplicado pelos muitos casos similares, que o “link epidemiológico” decretado pelo neurónio DGS promoveu a disseminação silenciosa e exponencial da Covid-19 durante quase duas semanas.

O neurónio DGS anda muito ufano com o achatamento da nossa curva, mas eu peço aos leitores que procurem, e aos jornalistas que divulguem, o que se passa na Grécia. E como as medidas certas na hora certa permitiram que a Grécia tenha oito vezes menos casos e cinco vezes menos mortes, para uma população que tem o mesmo tamanho que a nossa (valores de 13 de abril)!

Mas o neurónio DGS é dedicado como já referi. E bem vivo, porque sendo só um, é utilizado continuamente. E nesta situação faz o que sabe: lê protocolos e artigos, cintila de alegria quando encontra algo relacionado com a situação e aplica a receita. Mas como é só um, não consegue cruzar o que leu com as variáveis complexas da situação real. E assim emite a norma 9/2020 de 2/04 relativa a doentes oncológicos em que, entre coisas essenciais que só não se percebe serem emitidas um mês depois de a pandemia ter chegado ao país, decreta o seguinte:  que um doente oncológico que faça quimioterapia deve obrigatoriamente ser testado para a Covid-19 antes do tratamento (ponto 17).

Significa isto que um doente oncológico que faça tratamento semanal (o mais frequente), vai passar a ter que se deslocar duas vezes por semana ao hospital. Talvez o neurónio DGS não saiba, ou simplesmente não consiga computar, mas os hospitais onde se faz quimioterapia não existem ao virar da esquina da casa de cada doente. Ir duas vezes por semana ao hospital significa para muito doentes fazerem horas de transporte com outros doentes ou em carreiras públicas! Pense-se Miranda do Douro-Porto! São duas vezes de canseira física, contactos físicos redobrados e visita a um hospital que, mesmo com circuitos independentes, será sempre um local de risco elevado de contaminação! Por outro lado, um hospital que fazia por semana 500 tratamentos, vai passar a ter que fazer mais 500 atendimentos, envolvendo uma logística que vai ocupar um contingente muito significativo de profissionais de saúde, desde funcionários administrativos a enfermeiros e médicos. Isto num momento em que estes profissionais não têm mesmo nada que fazer!

Finalmente, cereja em cima do bolo, o neurónio DGS decreta que qualquer doente oncológico positivo tem que suspender o seu tratamento até à recuperação da infeção (ponto 22)! Não será isto algo que deverá ser avaliado clinicamente e decidido caso a caso pelos médicos que tratam o doente? E já agora, não se pode também deixar ao juízo clínico dos médicos a decisão de quando faz sentido ou não testar um doente oncológico? Não, passamos ao tratamento dos doentes por decreto, bem vindos à medicina nos tempos da pandemia! Enviem-se os médicos ajudar outros países mais necessitados, aqui só precisamos de funcionários técnicos para aplicar os decretos do neurónio DGS.

Sr. Primeiro Ministro, a DGS é uma peça chave na nossa luta contra as mortes diárias e a ameaça da maior bancarrota da história recente do nosso país provocadas pela pandemia Covid-19. Já lhe ocorreu que seria essencial ter uma DGS melhor provida?