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Panteão Nacional

O Panteão não é para todos? /premium

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Não, o Panteão não pode ser para todos. Primeiro porque não caberíamos lá (mas isso resolve-se). E porque se todos fossemos para o Panteão é como se ninguém fosse para o Panteão.

Vamos então por partes: o que é um Panteão? Histórica (e etimologicamente) significa todos (pan) os deuses (théos), por metonímia o local onde se reúnem (ou são lembrados). Os primeiros panteões conhecidos, lugares de congregação dos deuses das religiões politeístas, situaram-se pois sem surpresa em cidades da Antiguidade Clássica: Roma, o mais conhecido, Antioquia (talvez), Pérgamo (possivelmente).

Com o tempo e o descrédito dos deuses do panteão helénico, o termo passou a designar os edifícios em que são homenageados os mortos ilustres de uma comunidade. Ao assinalar a vida desses seus compatriotas, como referência, exemplo e motivo de orgulho, uma comunidade – um país – consolida-se, identifica-se, agrega-se.

Em Portugal, a Igreja de Santa Engrácia em Lisboa foi estabelecida em 1836 como Panteão original. Hoje, esse estatuto está também atribuído aos Jerónimos, ao Mosteiro de Sta. Maria da Vitória na Batalha e à Igreja de Stª Cruz, em Coimbra. Por esse motivo e porque a outros monumentos se pode vir a reconhecer estatuto idêntico, o problema não será tanto de espaço, é mesmo de credibilidade.

Se a ida para o Panteão se banalizar, passando a honra a ser atribuída com facilidade e sem verdadeiro escrutínio, perderá valor. E há sinais da habitual tendência portuguesa para exagerar: nos últimos tempos surgiram vários “panteonáveis”. Podem até os verdadeiros merecedores dessa honra ser levados a recusá-la.

Ao critério do mérito, um mérito indiscutível e para o bem (por exemplo, nenhum ditador ou demagogo deve estar no Panteão), essencial deve associar-se um outro para a atribuição da honra do Panteão: o critério do tempo ou da perenidade. Daqui a 100 anos, será essa pessoa recordada? O seu nome e obra, dentro ou fora do Panteão, resistem à usura do tempo? Sendo subjectivo, assenta em premissas claras e num juízo que faz mais sentido do que o impulso do momento, a paixão faccionária, a amizade ocasional ou o simples (tão português) “já agora”.

Pondo a coisa assim: daqui a 100 anos, quantos se lembrarão de Eusébio? Aposto que poucos, como poucos (?) recordam os nomes dos grandes futebolistas dos anos 20.

Cabe então perguntar: foram esses critérios seguidos no passado?

Sim, com excepções. Nomes como Almeida Garrett, João de Deus, Manuel de Arriaga, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, resistem aos critérios do mérito e tempo. Os mais recentes Aquilino Ribeiro, Humberto Delgado, Sophia de Mello Breyner e Amália Rodrigues, também; dir-me-ão que Amália não preenche o critério do tempo e eu discordo, pois a sua voz mágica continuará a ser ouvida séculos fora. E nos cinco túmulos vazios, nos cenotáfios de pedra que os recordam, Luís de Camões, o Infante D. Henrique, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral contribuem para definir a nossa identidade colectiva, através do orgulho de sermos e nos sabermos da sua cepa. Frutos da mesma raiz.

Em regra parece terem sido respeitados os dois critérios que referi. Haverá excepções: Sidónio Pais, perdurando embora o seu nome, tem obra de duvidoso mérito; Carmona legitimou um regime autoritário; Eusébio dificilmente cumprirá o critério da perenidade.

Pois aqueles que por obras valerosas “se vão da lei da Morte libertando”, são aqueles cuja memória resiste à usura do tempo: no Panteão ou nos nossos corações, resistem-lhe heróis como Vasco da Gama, estadistas como Junqueiro, poetas como Camões, artistas como Sophia.

São os dignos de Panteão. E tantos outros podiam e mereciam lá estar, pois cumprem os critérios, como Dom João II, Pessoa, Negreiros ou Sousa Mendes, que custa entender que surjam de tantos lados nomes que não resistem ao mais simples escrutínio.

Não me refiro, fique desde já claro, a Mário Soares, que permanecerá na memória colectiva nacional para além da vida das gerações vindouras por razões que me escuso de enunciar. Mas também por ele, e por todos quantos verdadeiramente merecem a honra, importa guardar o tempo de maturação e consolidação de uma decisão tão poderosa e plena de significado, não cedendo ao facilitismo das conveniências do momento. Escreveu recentemente André Lamas Leite, e bem, a propósito do respeito pelo Panteão, contra a constante mudança das regras e critérios que se lhe aplicam — quanto menos tempo após a morte da pessoa for tomada a decisão, mais subjectivos se tornam os critérios referidos, os únicos possíveis.

“Panteonáveis” são os cidadãos “que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade” (artigo 2º da Lei 28/2000 que regulamenta as honras de Panteão Nacional). Não sou eu, não somos todos, não serão certamente muitos dos que ultimamente têm vindo a ser referidos em público.

Mais do que homenagear esses portugueses ilustres, a função do Panteão é o reforço do sentimento de identidade e unidade nacional, através do exemplo, perene e inesquecível, da vida meritória que viveram. Só assim os “frigoríficos da glória”, como lhes chamou Eduardo Lourenço aquando da trasladação de Amália para o Panteão, poderão servir para mais do que a conservação vã de vaidades comezinhas ao serviço de agendas de ocasião.

Os homens e mulheres grandes deste país merecem a nossa homenagem. Por eles e para que, graças a eles, ilustres, ilustrados e reconhecidos, façam renascer em nós o orgulho de sermos seus compatriotas.

O orgulho em sermos como eles, portugueses.

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