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Brexit

Modo de sobrevivência /premium

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Se houver visão, espírito grande e coragem, os líderes políticos britânicos tomarão a decisão certa e, com espírito democrático e a lucidez de perceber o que está em jogo, devolverão a palavra ao povo

1. Poucas vezes se terá visto um líder político tão resiliente como Theresa May.

À vista desarmada, o seu acordo com a União Europeia é um nado-morto. Foi aprovado pelo Conselho Europeu, é certo, mas tratou-se mais de um acto de benevolente leniência do que propriamente de uma escolha convicta. No dia 25 de Novembro, os 27 não podiam deixar de estar cientes de estar a concordar com um acordo destinado a nunca ser.

Um pouco de aritmética, consciente de que os leitores estarão cansados desta novela, porque é um pouco isso, e mais não esperam do que o desfecho para poder tirar por si próprios as conclusões que entenderem. A previsão que se segue é aproximada:

São precisos 320 votos para aprovar o acordo (há 650 deputados nos Comuns, mas só votam 639). Os conservadores têm 315 membros votantes e o apoio do DUP, Partido Unionista da Irlanda do Norte. Ora a crer na situação actual, votarão a favor do acordo: 234 conservadores. 15 a 20 trabalhistas. 3 independentes. 1 liberal democrata.

Votarão contra: Os 10 deputados do DUP. Os conservadores rebeldes, seja porque preferem sair sem acordo seja porque querem um segundo referendo, estimados em 80 (podem ser menos ou mais, é imprevisível). Os restantes trabalhistas, isto é 235 (se 20 votarem a favor). 5 independentes. A deputada dos Verdes. 11 liberais democratas (são 12).  Os 4 deputados do Plaid Cymru (Galeses) e os 35 do Partido Nacional Escocês.

Onze deputados não votam, por opção (os 7 do Sinn Féin), por lei (o Speaker, conservador, e os 3 “deputy-speakers”, dois trabalhistas e um conservador). Encontra a lista completa dos deputados e a posição previsível em relação ao acordo neste excelente trabalho do Guardian.

Em resumo, a favor, no máximo, 258 deputados, contra 381. Um fosso intransponível?

2. Vivemos tempos difíceis.

Nunca como hoje é tão difícil governar; nunca como hoje as opiniões foram tão extremadas, as posições tão polarizadas, as convicções tão irrevogáveis; nunca como hoje os cálculos partidários e os interesses individuais se sobrepuseram tão claramente aos ideais, princípios e valores. O Brexit é e não é uma excepção: muitos britânicos votaram por convicção. Houve e há paixão (nacional, soberanista) nos “brexiteers” que querem o Reino Unido dono e senhor de si próprio, houve e há paixão (europeia, multilateralista) nos “remainers” que consideram ser numa união como a europeia que o país se afirma e ganha influência. Mas também houve e há objectivos políticos de curto prazo, egoísmos pessoais, inflexibilidade dogmática.

Por todas essas razões, esta não é uma situação normal. Não podemos prever o que vai suceder no dia 11 de Dezembro por analogia ou mero bom senso. Diz-nos este que uma diferença de tantos votos é quase intransponível: Theresa May tem de convencer 62 deputados do seu partido a votarem a favor do acordo. Se o conseguir, será o maior sucesso da sua carreira política. Um extraordinário resultado. E a certeza da saída do Reino Unido da UE com o “melhor acordo possível” no dia 29 de Março de 2019. May ficará na História do seu país para o melhor – o cumprimento da vontade do povo britânico expressa em 2016 – e para um eventual pior – se as consequências da saída, como a continuidade prolongada de um possível “backstop” na Irlanda do Norte, se confirmarem. Vale a pena ser resiliente? Claro que sim.

3. Mas afinal o que querem os “rebeldes”? Coisas muito diferentes.

O DUP considera que o acordo não garante que nunca haverá uma fronteira entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino; a maioria dos “rebeldes” conservadores rejeita o acordo por não ser aquilo em que o povo votou, podendo levar a um longo período de sujeição às regras europeias, ainda por cima sem participar nas respectivas decisões; alguns conservadores, e a maioria dos trabalhistas, consideram que o acordo deixará o Reino Unido pior do que se ficasse na União Europeia; os escoceses e os galeses votaram a favor da permanência e consideram a saída uma imposição de Westminster ao conjunto do país.

E o que propõem uns e outros, em alternativa a este acordo?

Os conservadores da linha dura, defendem que até uma saída sem acordo é preferível. Alguns trabalhistas, seguindo Corbyn, querem derrubar o governo para permitir novas eleições e renegociar o acordo; outros, a par de alguns conservadores e dos deputados escoceses, preferem um novo referendo. Em suma, arredonde-se o quadrado à vontade do geómetra.

Ora se o acordo for chumbado, não estando a União disponível para renegociar o que quer que seja, face aos prazos a saída sem acordo torna-se inevitável. E ficará iminente. Será evitável? Só  na condição de um novo referendo, que pergunte aos britânicos se estão de acordo com este acordo (foi de propósito…). O referendo poderá ou não conter uma pergunta sobre a eventual reversão do Brexit, agora que ficou finalmente claro o que de facto significa sair da União. Nesse caso, o Reino Unido terá de pedir à União para adiar a data de saída, o que os 27 terão gosto em fazer – porque poucos querem, de facto, ver concretizada a saída.

4. Mas porquê evitar o Brexit? Por uma razão simples: porque ele é mau para todos, a começar pelos europeus e a terminar no Reino Unido. Porque estar de fora não é a mesma coisa que sair, e sair tem os custos hoje visíveis para todos. Porque ninguém explicou aos britânicos, como aliás esclarece um estudo feito pelo próprio Foreign Office em 1973, que se aquando da adesão se tratava de perder alguma soberania para ganhar influência e poder, aquando da saída poderá recuperar-se alguma soberania (uma ilusão, parece-me) mas perder-se-á influência e poder.

Evitar o Brexit porque uma Europa sem o Reino Unido é uma Europa enfraquecida, por muitos paliativos e sucedâneos que se inventem sob a forma de zonas de livre troca, e porque o Reino Unido sem a Europa fica mais fraco e certamente mais pobre.

A grandeza de espírito é um bem escasso. A visão um dom raro. A coragem nem sempre ocorre a quem tem de decidir.

Mas se houver visão, um espírito grande e coragem suficiente, os responsáveis políticos britânicos tomarão a decisão certa e, com espírito democrático e a lucidez de perceber o que está em jogo, devolverão a palavra ao povo. O que este decidir, desta vez com maior clareza e conhecimento da realidade, será o que é justo.

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