Parece que os que deram o Partido Socialista como politicamente acabado se enganaram. Quem diria!? As eleições presidenciais vieram demonstrar, de forma clara, que o PS continua a ser uma máquina de vencer eleições — e que subestimá-lo não é boa ideia.

A vitória esmagadora do candidato socialista, derrotando de forma estrondosa a direita, confirma essa vitalidade. Convém sublinhar que André Ventura tinha plena consciência dos obstáculos que enfrentava. Lidera o único partido com representação parlamentar que se assume abertamente de direita, sem ambiguidades ou rodeios – o que o torna objectivamente o líder da direita parlamentar. E esse facto, por si só, é um obstáculo num país estruturalmente avesso à direita, que a resume constantemente a uma espécie de “Hitlerismo”. A isso somava-se o adversário: uma máquina eleitoral com décadas de poder e implantação — o Partido Socialista. Portanto, para André Ventura a derrota não foi inesperada. No entanto, vai conquistando terreno na política portuguesa.

Nos últimos meses tornou-se comum ouvir, em espaços mediáticos, a narrativa de que o PSD estaria “em grande forma”, devido aos resultados recentes em coligações e por vitórias obtidas com esforço nas legislativas. A ideia implícita é a seguinte: o PS está esgotado e será incapaz de se reerguer após algumas derrotas pontuais. As presidenciais provaram o contrário. Subestimar o PS é um erro — e raramente fica impune. Recordo os entusiastas desta visão política que o candidato apoiado pelo Chega conseguiu o candidato apoiado pelo PSD não conseguiu: passar à segunda volta. Já o candidato apoiado pelo Partido Socialista não só passou à segunda volta, como venceu a primeira volta e esmagou na segunda volta.

O candidato vencedor não foi apenas um candidato apoiado pelo PS. É um militante histórico do PS e também é “apenas” ex-secretário-geral do partido socialista. A sua eleição demonstra a vitalidade desta maquina de vencer eleições, da sua capacidade de mobilizar o seu eleitorado, conquistar indecisos e até captar votos dos seus opositores. Isso não é acaso. É método. E bem sei que me dirão que os “Não! Socialistas.” (como lhes chamou Tiago Dores) tinham de optar. E o PS aproveitou de forma brilhante essa dúvida existencial levando a que estes lhe abrissem caminho para, passado 20 anos, o PS ter um militante (e ex secretário geral) como presidente da República. O Estaline tinha um nome para vocês, meus caros – e o PS também deve ter.

Importa, no entanto, fazer uma distinção essencial. O resultado de André Ventura (e do Chega, apesar da derrota eleitoral nestas eleições, está longe de ser um fracasso como alguns “Não! Socialistas” e “Sim! Socialistas.” querem acreditar (ou fazer acreditar) que tenha sido. Em apenas seis anos de existência, o Chega conseguiu levar o seu candidato à segunda volta das presidenciais. Este facto coloca André Ventura na história da 3ª República. E conseguiu-o sendo o único partido e o único candidato que se assumem sem rodeios, como sendo de direita. Isto não pode ser ignorado.

É verdade que parte do resultado de Seguro se explica por votos de opositores que acabaram por “estender o tapete” do palácio de Belém ao candidato apoiado pelo PS. Mas isto não explica, por si só, uma vitória esmagadora. O que explica é a capacidade do PS de se reposicionar rapidamente, reconquistar “os seus” e conquistar os opositores. Mas esse fenómeno não é exclusivo destas eleições.

O Partido Socialista percebeu algo fundamental. O seu eleitorado tradicional não quer figuras radicalmente ideológicas ou polarizadoras. Não quer Pedro Nuno Santos, não quer Isabel Moreira, nem os radicalismos associados a esse perfil. O eleitorado do PS, quer moderação, previsibilidade e figuras de consenso. Quer José Luís Carneiro. Quer António José Seguro. Quer este perfil de candidato. Pareceu-me evidente quando se deu a saída de António Costa e parece-me ainda mais evidente hoje.

O PS cometeu erros, pagou por eles, mas corrigiu sem pestanejar. Alterou a liderança e regressou ao perfil político “ideal”, o que demonstra uma tremenda capacidade de adaptação e pragmatismo que poucos partidos em Portugal possuem. E assim, vinte anos depois, o PS volta a estar representado na Presidência da República.

É precisamente aqui que se vê a diferença entre um mero partido e uma máquina de vencer eleições. O PS pode perder eleições, mas não perde a capacidade de aprender com elas.