Há um animal que prospera – ou que nunca deixou de prosperar – em Portugal, mais resistente que o escaravelho do pinheiro e mais comum que a sardinha no Santo António: o indivíduo do pequeno poder.

Este, pasme-se, não é ministro, não é banqueiro, não aparece nas manchetes — mas reina no seu pequeno feudo com a solenidade de um déspota de um país de terceiro mundo. É o português investido de um fragmento de autoridade e, portanto, convencido de que tem em mãos o destino do mundo — ou, pelo menos, o de quem tiver a infelicidade de lhe cair sob o olhar.

O pequeno poder veste muitas fardas e comporta diversas linguagens. Às vezes é o segurança da discoteca, de auricular no ouvido e ego em expansão, que decide quem entra e quem “hoje não está com perfil”. Noutras, é o funcionário público que carimba devagarinho o requerimento, saboreando o acto burocrático como se fosse uma sinfonia de Beethoven. Há, também, o chefe de repartição que faz da sua mesa uma trincheira de autoridade, o agente que gosta de se ouvir a si mesmo, e o administrador de condomínio que se considera o guardião da moral urbana. E há, talvez, o mais trágico de todos, o professor académico — o sacerdote do saber — que, em vez de libertar, aprisiona.

Na educação, o pequeno poder assume a forma mais cruel e silenciosa.
É o docente universitário que transforma a avaliação num exercício de adivinhação dos seus gostos pessoais. O que confunde “rigor académico” com autoritarismo, e a liberdade de cátedra com o direito divino à arbitrariedade. O aluno, desorientado, percebe que não há critérios claros: apenas humores, preferências e vaidades. Que a nota não é a medida do esforço, mas a extensão da simpatia. Que a fronteira entre o mérito e o capricho é uma névoa. E, no fim, o professor sai de lá convencido de que formou uma mente crítica, quando apenas domesticou mais uma alma cansada.

O mesmo fenómeno alastra-se pelas escolas, pelos corredores das direcções, pelos conselhos de turma onde se decide o futuro de jovens com base em impressões, intuições e ressentimentos. É o poder discreto de quem nunca foi chamado a prestar contas. Um poder que se exerce com um sorriso paternalista e a frase clássica: “É a minha opinião, e a minha opinião conta.” Não conta. Conta o critério, conta a justiça, conta o respeito — três virtudes que escasseiam onde o pequeno poder floresce.

Em Portugal, o poder raramente se exerce — exerce-se o poderzinho. É o poder de quem não tem poder nenhum, mas que se quer sentir alguém. A portinhola da autoridade é estreita, mas há fila à porta: toda a gente quer o seu turno para mandar, mesmo que seja por cinco minutos. O engraçado é que o português não se indigna por ser mandado — indigna-se por não poder mandar também.

Por sua vez, a tragédia é que o pequeno poder nunca é inofensivo. É ele que mata a confiança, corrói o mérito e esteriliza a justiça. O aluno esforçado que cai nas garras do professor caprichoso, o cidadão que se humilha perante o balcão de uma repartição de finanças, o doente que enfrenta a arrogância burocrática de quem tem uma senha na mão e um crachá no casaco de malha, e o condutor que treme diante do agente que “podia passar a multa, mas não vai”. Tudo isto é um retrato moral do país: uma nação onde a autoridade é mais temida do que respeitada, e onde a arbitrariedade é confundida com competência.

O pequeno poder vive de duas coisas: da impunidade e da ignorância.
Da impunidade porque nunca sofre consequências — quem há-de responsabilizar o segurança da discoteca por se achar o guardião do Olimpo? Ou o professor por arruinar um percurso académico com base em “critérios qualitativos”? E da ignorância porque confunde disciplina com abuso, e justiça com preferência pessoal. É um poder exercido sem consciência, mas com muito gosto. O pequeno poder dá prazer — é a vingança doce de quem se sentiu pequeno a vida toda.

Portugal é um país que se habituou à micro-tirania quotidiana. Um país onde se aceita ser maltratado com um encolher de ombros e um “é o que há”. Onde se entra num serviço público já sem esperança de eficiência, apenas com a paciência de quem sabe que vai esperar. Um país onde o poder se mede em metros quadrados — a secretária, a porta de entrada, a barra do balcão — e não em responsabilidade moral. E assim seguimos, de chapéu na mão e dente cerrado, prisioneiros de um labirinto de vaidades microscópicas.

O mais triste é que o pequeno poder raramente é consciente do seu ridículo. O segurança sente-se um juiz do carácter alheio. O professor, um defensor da excelência. O funcionário, um protector do regulamento. Todos acreditam que estão a fazer “o que deve ser feito”, sem reparar que o seu zelo é apenas o disfarce da sua frustração. É a comédia da mediocridade transformada em convicção moral.

Mas a culpa não é só deles. É de todos nós que, à primeira oportunidade, também queremos a nossa quota-parte do poder. O português pouco sonha com a liberdade — sonha mais em ter o seu próprio balcão onde possa dizer “não é possível” com um ar grave e importante. Queremos o nosso carimbo, o nosso auricular, a nossa avaliação.
O pequeno poder é o espelho da nossa cultura cívica: queremos justiça quando somos vítimas, e autoridade quando somos juízes.

O pequeno poder é a caricatura do poder verdadeiro — uma imitação barata, mas eficaz, que alimenta o ego de quem nunca foi ouvido. É o último consolo dos impotentes: mandar em alguém, nem que seja por capricho.

O português não quer mudar o mundo. Quer apenas uma cadeira giratória, um crachá e alguém a quem dizer “não é possível”. Chamamos-lhe eficiência, mas é vaidade; chamamos-lhe autoridade, mas é medo; chamamos-lhe rigor, mas é ressentimento.

Vivemos rodeados de pequenos deuses que confundem poder com importância e autoridade com barulho.

E talvez o país nunca mude porque, no fundo, cada um de nós guarda dentro de si um pequeno poder à espera de oportunidade.

É o nosso pecado nacional.