Há qualquer coisa de extraordinariamente confortável em explicar aos eleitores como deveriam votar quando não se tem de enfrentar eleições.
Joachim Nagel, presidente do Bundesbank, parece ter descoberto uma nova competência dos bancos centrais. À estabilidade dos preços, à política monetária e à estabilidade financeira, decidiu, aparentemente, acrescentar a avaliação de resultados eleitorais e a informação aos cidadãos sobre quais são os resultados economicamente mais recomendáveis.
Na sequência do resultado da AfD na Saxónia-Anhalt, Nagel declarou-se preocupado. Não apenas com uma proposta económica concreta da AfD – o que seria perfeitamente legítimo e até expectável num presidente de um Banco Central -, mas com aquilo que a ascensão destas forças representa para a sociedade alemã e para os «valores que partilhamos».
Foi, aliás, mais longe. Questionou se semelhante resultado ajudaria a tornar a Alemanha mais atraente para os investidores estrangeiros e respondeu à sua própria pergunta de forma inequívoca: «Definitely not.»
Segundo Nagel, alguns investidores poderão tornar-se relutantes em fazer negócios na Alemanha.
Ora, podemos gostar muito, pouco ou absolutamente nada do resultado eleitoral da AfD. Podemos considerar as suas propostas sensatas, absurdas, perigosas ou economicamente suicidas. É para discutir essas matérias que existem partidos, parlamentos, governos, campanhas eleitorais e, em última análise, eleições.
O que é bastante mais difícil de aceitar é que tenha passado a competir ao presidente do Bundesbank fazer a avaliação política ou moral da escolha dos eleitores.
Durante décadas, os bancos centrais explicaram-nos – e bem – que a sua independência é quase sagrada. Um banco central deve poder aumentar as taxas de juro contra a vontade de um Governo, alertar para riscos orçamentais incómodos e analisar a inflacção, o crédito, a produtividade ou o crescimento sem pedir previamente autorização ao ministro das Finanças.
O curioso é que o conceito parece ter, entretanto, evoluído. O banco central deve ser independente da política, mas aparentemente já não precisa de ser independente de fazer política.
Há uma diferença fundamental entre Nagel afirmar que «uma saída da Alemanha do euro teria determinadas consequências económicas» e declarar-se preocupado com aquilo que um resultado eleitoral representa para «a nossa sociedade» e para «os nossos valores». A primeira afirmação pertence inequivocamente ao domínio da análise económica; a segunda entra, quer se queira quer não, no domínio da política.
A primeira afirmação é análise económica, já a segunda é política.
E atenção, é uma opinião perfeitamente legítima para Joachim Nagel, cidadão alemão. Torna-se bastante mais problemática quando é proferida por Joachim Nagel, Presidente do Bundesbank, numa conferência de imprensa do Banco Central Europeu.
Mas há qualquer coisa ainda mais interessante na teoria de Nagel.
O presidente do Bundesbank receia que o crescimento da AfD afaste investidores da Alemanha, e essa possibilidade não deve ser descartada. Pode haver uma maior instabilidade política, eventuais conflitos com a União Europeia ou políticas que dificultem a contratação de trabalhadores estrangeiros podem, naturalmente, influenciar decisões empresariais e prejudicar o investimento.
E se invertermos a pergunta?
E se não for apenas a AfD que ameaça a prosperidade, mas antes se é a falta de prosperidade que está a alimentar a AfD?
É que a Saxónia-Anhalt não fica propriamente no coração da velha Alemanha Ocidental industrial. Fica no Leste, na antiga República Democrática Alemã, do outro lado da cortina de ferro que durante décadas separou duas Alemanhas, dois regimes políticos e dois sistemas económicos.
E, 36 anos depois da reunificação, há números que continuam a ser pouco confortáveis.
Em 2024, o PIB per capita alemão rondava os 50.800 euros; na Saxónia-Anhalt ficava pelos 36.500 euros, o valor mais baixo entre os Länder alemães. Os trabalhadores a tempo inteiro no Oeste continuavam, em média, a ganhar cerca de 21% mais do que os trabalhadores no Leste. E, em 2025, enquanto a economia alemã conseguiu crescer uns anémicos 0,2%, a economia da Saxónia-Anhalt contraiu 0,2%, com a indústria transformadora regional a recuar 1,8%.
Nada disto demonstra, evidentemente, que as dificuldades económicas produzam automaticamente votos na AfD. Seria uma simplificação intelectualmente desonesta. Mas os números permitem colocar uma questão bastante menos confortável do que censurar os eleitores: será o voto popular a origem dos problemas económicos da Saxónia-Anhalt, ou serão também décadas de fragilidade económica, a escassa prosperidade a pouca ou nenhuma convergência com os outros Länder a alimentar esse voto?
Porque a lógica institucional começa a adquirir uma conveniência quase irresistível. Uma população de determinada região que perde dinamismo económico e oportunidades fica, inevitavelmente, descontente, tendendo a abandonar os partidos tradicionais. Perante o resultado, porém, em vez de se perguntar o que poderá ter levado tantos eleitores a romper com décadas de escolhas políticas convencionais, prefere-se colocar a culpa nos cidadãos.
Os investidores, entretanto, ouvem dizer que aquela região se tornou politicamente problemática, tornam-se mais cautelosos, o investimento escasseia, a distância económica persiste e o descontentamento aumenta. No final deste extraordinário círculo, Frankfurt contempla novamente o fenómeno e conclui, com a serenidade de quem acaba de confirmar uma teoria particularmente conveniente, que o problema está no populismo.
É um mecanismo quase perfeito, sobretudo porque quem governou, regulou, aconselhou e definiu políticas durante décadas nunca é verdadeiramente obrigado a perguntar em que medida também poderá ter contribuído para o problema que agora denuncia.
Chegámos, assim, a uma concepção particularmente curiosa da democracia europeia. Antes das eleições, ouvimos que todas as vozes contam, que cada voto é essencial e que a participação democrática constitui um dever cívico. Depois das eleições, se o resultado coincidir com aquilo que era esperado, celebra-se a maturidade democrática dos cidadãos; se não coincidir, multiplicam-se as explicações sobre populismo, desinformação, irresponsabilidade eleitoral e, inevitavelmente, a preocupação dos mercados.
Talvez seja altura de simplificar o processo. Nas próximas eleições, em vez de boletins de voto, poderíamos distribuir prospectos financeiros e atribuir um rating a cada partido, como por exemplo:
AAA: democrata responsável;
BBB: populismo preocupante;
CCC: pode assustar investidores;
Default: o eleitor não percebeu as instruções.
Em Portugal conhecemos uma versão mais doméstica desta confusão de papéis. Enquanto governador do Banco de Portugal, Mário Centeno entrou repetidamente no debate sobre opções de política económica e orçamental dos governos. É evidente que um banco central deve analisar políticas públicas, estudar as suas consequências e alertar para riscos. Seria absurdo defender o contrário. Mas existe uma fronteira entre analisar as consequências económicas de uma decisão política e transformar uma instituição independente em participante da disputa política em torno dessa decisão.
E essa fronteira é tanto mais importante quanto maior for a autoridade técnica de quem fala. Um governador de banco central não é apenas mais um economista num painel televisivo. A autoridade das suas palavras decorre precisamente da instituição que representa e, por isso mesmo, quanto maior for essa autoridade, maior deveria ser a contenção política de quem a exerce.
Se a AfD defende políticas que colocam em risco a permanência da Alemanha no euro, expliquem-se aos alemães os respectivos custos. Se determinada política migratória agravaria a escassez de trabalhadores, façam-se as contas. Se certas propostas prejudicariam a competitividade das empresas alemãs, demonstre-se economicamente porquê. E, se existirem questões de natureza constitucional, a Alemanha dispõe de tribunais e de instituições próprias para as resolver.
O que dificilmente reforçará a confiança nas instituições democráticas será transformar instituições supostamente independentes em comentadores da qualidade das escolhas eleitorais dos cidadãos.
Até porque talvez exista outra Alemanha que também assuste investidores. A Alemanha da energia cara; a Alemanha da burocracia sufocante; a Alemanha do crescimento anémico e das diferenças económicas que continuam a separar o Leste do Oeste; a Alemanha em que a Saxónia-Anhalt apresenta cerca de 36.500 euros de PIB per capita perante os 50.800 euros do conjunto do país.
Talvez essa Alemanha também merecesse alguma indignação institucional.
Nagel pode até ter razão quando afirma que determinadas políticas da AfD seriam prejudiciais à economia alemã. Mas há uma pergunta anterior, mais profunda e certamente mais incómoda: se a AfD é assim tão prejudicial para a Alemanha, porque é que tantos alemães decidiram votar nela?
É sempre mais confortável olhar para um resultado eleitoral indesejado e concluir que os eleitores criaram um problema, do que olhar para aquilo que aconteceu antes das eleições e admitir a possibilidade de que o problema tenha ajudado a criar o resultado eleitoral.
Os bancos centrais conquistaram a sua independência para poderem dizer verdades incómodas aos governos, não para explicarem aos cidadãos que votaram mal — seja lá o que isso for.