Se nada tivesse feito, teria tido uma vida ainda mais confortável. Nasceu com os meios para isso. Foi um herdeiro, mas, como outra gente da sua idade, nunca quis ser apenas um herdeiro. Francisco Pinto Balsemão fez parte de uma geração de filhos de famílias com fortunas e posições, que não se limitaram a suceder aos pais. Nascidos nos anos 30 e 40, cresceram depois da II Guerra Mundial. Na Europa ocidental, regressara a democracia e as sociedades ultrapassavam velhas misérias. Em Portugal, jovens como Balsemão, ainda de uma elite social restrita, em que toda a gente se conhecia e era parente de toda a gente, começaram a sacudir os muros de uma ditadura que supostamente os protegia, mas de que eles, contra as opiniões da família, se sentiram prisioneiros. Em 1968, o seu inconformismo já era suficientemente representativo para Marcello Caetano, quando sucedeu a Salazar, os tentar ter ao seu lado. Foi o tempo da “Ala Liberal”, em que Balsemão se juntou a Francisco Sá Carneiro, José Pedro Pinto Leite, Joaquim Magalhães Mota, João Bosco Mota Amaral, João Pedro Miller Guerra, e outros.
Em 1973, o Expresso foi um projecto jornalístico que Balsemão concebeu com muito profissionalismo. Mas foi, acima disso, um meio de fazer política, quando a ditadura deixou de ter lugar para os “liberais”. Os “liberais” não fizeram pouca coisa: persuadiram o país de que a queda da ditadura não teria de ser uma orgia de vinganças e novas experiências ditatoriais, como quase foi em 1975, mas que podia e devia ser a oportunidade de normalizar Portugal segundo os padrões da Europa ocidental, na qual, aliás, o país se estava já a integrar economicamente. Mais do que a oposição de esquerda, limitada por um sectarismo grotesco e pelo amor a ditaduras ainda piores do que a salazarista, foram Sá Carneiro, Balsemão e os outros “liberais” que divorciaram o país da ditadura, e assim abriram a brecha por onde passou a revolução de 25 de Abril de 1974.
No país que quiseram europeizar, a sua ambição não era ser jornalistas, advogados, economistas ou empresários. Quiseram e acharam que deviam ser mais: políticos, protagonistas de uma democratização do Estado e da sociedade. Foi assim que fundaram partidos como o PPD, que Sá Carneiro, Balsemão e Magalhães Mota apresentaram ao país em 6 de Maio de 1974. Foi política que fizeram nos anos seguintes, mesmo quando, como Balsemão, faziam jornalismo. Em 1975, o Expresso era um dos órgãos de imprensa por onde respirava o desejo de uma democracia como as da Europa ocidental. Foi esse desejo, que era o de muita gente, que deu força política a Sá Carneiro nos anos 1970.
Francisco Sá Carneiro era muito claro e frontal. Frequentemente, teve muitos dos outros dirigentes do PPD-PSD contra si. Balsemão nem sempre concordou com ele. Por vezes, concordou até mais com os seus adversários. Mas manteve-se fiel a Sá Carneiro, o que não era tão fácil como pareceu depois de Sá Carneiro morrer. Em 1981, recebeu a mais tremenda das heranças: a chefia da Aliança Democrática e do governo depois da morte do seu líder natural e da derrota nas presidenciais, num país polarizado e à beira de uma enorme crise financeira e mais um pico de inflação. Ainda restava muito do revolucionarismo de 1975, e todo se moveu contra ele. O Conselho da Revolução chumbou versões sucessivas da “lei dos sectores”. Os comunistas montaram duas “greves gerais” em seis meses. As FP-25 começaram a matar. Mas foi o governo de Balsemão que negociou a revisão constitucional de 1982, que fez aprovar a lei de Defesa Nacional, e que, contra devaneios terceiro-mundistas, relançou a integração na CEE. Portugal saiu da lista das “semi-democracias”, e o seu horizonte passou a ser a Europa ocidental.
As oposições não foram só de esquerda. Uma parte dos dirigentes da AD nunca aceitou Balsemão como líder. Acusaram-no, como é costume nestas situações, de lhe faltar aquilo que lhe iam tirando: autoridade. Havia divergências antigas (o PSD, por exemplo, estava dividido entre fazer o caminho com o PS ou com o CDS), e outras novas. Em 1982, os políticos já pensavam nas eleições presidenciais de 1986, que viam como o fim da “transição” e o verdadeiro começo do regime, até aí sob a sombra militar do presidente Eanes. Balsemão pareceu a muita gente um provável candidato presidencial. Daí, muita da guerra que lhe fizeram. Daí, também, o facto bizarro de o seu governo ter caído depois de ganhar umas eleições autárquicas em Dezembro de 1982 com 42,7% dos votos e 165 presidências de câmara (o PS, em segundo lugar, teve 31% dos votos e 84 câmaras). Mas a AD descera 5 pontos percentuais em relação a 1979, o que os seus adversários aproveitaram para o declarar deslegitimado. Viu-se amarrado a um longo governo de gestão, entre Dezembro de 1982 e Junho de 1983. Nunca esqueceu nem perdoou.
Depois, sim, foi empresário de comunicação social. É por isso que agora o elogiam. Quem o faz, não o compreende. Não estou a dizer que não foi um grande homem da imprensa. Mas foi político que Francisco Pinto Balsemão quis ser, de uma política que ele, como a sua geração, concebeu como um meio de transformação do país. Nessa vontade, esteve a sua verdadeira grandeza.