O PS descobriu que, afinal, a imigração em Portugal é mesmo um problema. Depois de anos a acusar quem ousasse sequer levantar a questão de ser de “extrema-direita” e “racista”, o PS vem agora pela voz do seu secretário-geral Pedro Nuno Santos reconhecer em entrevista ao Expresso, que Portugal afinal não estava preparado para receber tantos imigrantes. Mais: o líder do PS defende agora que Portugal “tem de ser exigente” com o respeito pelos seus “valores”, destacando o “respeito pelas mulheres” e afirma não querer regressar ao regime da “manifestação de interesse”.

Estas declarações de Pedro Nuno Santos são, sem dúvida, sensatas. Mas são também notáveis considerando que foram precisamente governos liderados pelo PS os principais responsáveis pelo problema – com destaque para o desastroso regime da “manifestação de interesse”. O PS reconhece agora não só que a imigração descontrolada dos últimos anos constitui uma pressão sobre os serviços sociais mas vai mais longe e realça a necessidade de integração e respeito pela cultura portuguesa por parte dos imigrantes.

Sem surpresa, estas declarações geraram reacções indignadas à esquerda. Não só por parte da extrema-esquerda mas também junto da oposição interna à liderança de Pedro Nuno Santos. Houve até no interior do próprio PS quem tenha ido ao ponto de acusar Pedro Nuno Santos de se estar a aproximar do discurso da extrema-direita. O que talvez não deva constituir surpresa: a definição de “extrema-direita” foi sendo progressivamente  tão alargada que era apenas uma questão de tempo até englobar o próprio líder do Partido Socialista.

Já aqui tinha dado conta em Outubro do ano passado que também o PSD dava importantes sinais de mudança no discurso sobre imigração e segurança, acusando (e bem) o governo de António Costa de ter deixado um grave problema por resolver na imigração em Portugal. E até a própria IL – procurando talvez contrariar algumas percepções e acusações de wokismo – propôs que o RASI passe a divulgar a nacionalidade dos criminosos e das vítimas.

Além da gravidade dos problemas que o país enfrenta, estas mudanças – que agora chegam ao PS – não podem obviamente ser dissociadas do crescimento do Chega e da pressão exercida nesta matéria pelo partido e por movimentos mais ou menos orgânicos de protesto que se têm vindo a formar em Portugal. Mas todos estes fenómenos devem ser vistos como sintomas de algo mais vasto e profundo: a alteração do clima intelectual no sentido da rejeição do que até há relativamente pouco tempo eram verdades (quase) inquestionáveis do politicamente correcto (é justo no entanto recordar aqui que logo em 2017, quando era bem mais difícil e custoso fazê-lo, Pedro Passos Coelho corajosamente alertou para as consequências danosas da política de imigração concebida pela esquerda mais radical e viabilizada pelo PS no contexto da “geringonça”).

A manifestação mais impactante dos ventos de mudança que se fazem sentir a nível internacional foi inquestionavelmente a vitória de Trump mas importa aqui realçar, como bem fizeram Teresa Nogueira Pinto e José Bento da Silva num excelente artigo publicado no Observador, que “as novas direitas e as novas lideranças que ocupam este espaço político não são todas iguais”. E reside também nessas diferenças uma boa parte da incerteza sobre as implicações desta vaga de mudança a nível internacional. Dependendo de quais as ideias e correntes que vierem a prevalecer neste movimento de “novas direitas”, as consequências globais serão potencialmente muito diferentes. Daí que importa evitar análises simplistas e amálgamas indevidas.

Estas novas forças e movimentos encontram-se ainda assim unidas por uma importante posição comum na guerra das ideias: a rejeição do wokismo e a resistência à destruição civilizacional imposta pelas políticas e pelo controlo institucional da esquerda radical. Como bem explicou Javier Milei – a figura intelectualmente mais interessante entre as novas lideranças que se têm afirmado à direita – no seu notável segundo discurso em Davos (traduzido e publicado em português num verdadeiro exercício de serviço público pela Oficina da Liberdade):

“Hoje poucas pessoas negam que os ventos da mudança sopram no Ocidente. Há quem resista à mudança, há quem a aceite com relutância, há os novos convertidos que aparecem quando a vêem como inevitável e, finalmente, há aqueles de nós que lutaram uma vida inteira pelo seu advento. Cada um de vós saberá em que grupo se reconhece, certamente há um pouco de cada um neste auditório, mas todos reconhecerão, certamente, que o tempo da mudança está a bater à porta. Os momentos de mudança histórica têm uma particularidade: são tempos em que se esgotam fórmulas que vigoravam há décadas se esgotam, as formas consideradas únicas de fazer as coisas deixam de fazer sentido e o que para muitos eram verdades inquestionáveis é finalmente posto em causa. São tempos em que as regras são reescritas e é por isso que são tempos que recompensam quem tem a coragem de arriscar. Mas grande parte do mundo livre ainda prefere o conforto do conhecido, mesmo que seja da maneira errada, e insiste em aplicar as receitas do fracasso. E o denominador comum em países e instituições que estão a falhar é o vírus mental da ideologia woke. Esta é a grande epidemia do nosso tempo que tem de ser curada, é o cancro que tem de ser eliminado. Esta ideologia colonizou as instituições mais importantes do mundo, desde os partidos e Estados dos países livres do Ocidente, até às organizações multilaterais, passando por instituições não-governamentais, universidades e meios de comunicação social, assim como também marcou o curso do discurso global durante as últimas décadas. Enquanto não removermos esta ideologia aberrante da nossa cultura, das nossas instituições e das nossas leis, a civilização ocidental e mesmo a espécie humana não poderão voltar ao caminho do progresso que o nosso espírito pioneiro exige.”

Voltando ao PS e ao tema da imigração, a mais importante lição a retirar é que, no final do dia (ainda que o dia possa ser longo) é sempre a guerra cultural e das ideias que conta. Quem se move por votos, dinheiro, cargos ou influência social vai necessariamente atrás das ideias dominantes. E também por isso o que realmente conta estruturalmente é a guerra das ideias (um ponto em que Mises, Hayek e Keynes convergiam). Tudo o resto passa. De tal forma que o que parece impensável durante muito tempo pode tornar-se o novo mainstream num abrir e fechar de olhos, com todos os riscos, desafios e oportunidades que essas mudanças acarretam. Prossigamos então.