Não sejamos ingénuos. O Partido Socialista é, de longe, a agremiação política em Portugal cuja elite dirigente provém do estrato social mais elevado, com um predomínio da alta burguesia lisboeta e, claro, com um toque marcadamente masculino. Não por acaso, apesar de toda a retórica de promoção da igualdade, o PS é o único partido dos cinco clássicos da democracia Portuguesa no qual o sonho de ter uma mulher na liderança não passa disso mesmo, um sonho. Nos dias de hoje, essa elite socialista faz uma transumância entre a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa ou o ISCTE e o Governo, frequenta os mesmos restaurantes e estúdios de televisão, e está definitivamente convencida do que o Expresso permite perceber o que é o mundo. Muitos deles consideram-se o mais próximo do sangue azul que Portugal tem.
Naturalmente, poder-me-ão dizer que o novo líder do PS foge totalmente a este perfil. É verdade. No entanto, muito provavelmente, acontecer-lhe-á o mesmo que sucedeu a António José Seguro em 2014, quando Costa, incensado pelo regime como o salvador da pátria, revelando-se depois um primeiro-ministro absolutamente medíocre, fez um golpe de mão e depôs o líder que tinha passado as passas do Algarve na ressaca do socratismo e do memorando que a elite socrática tinha assinado. Na ressaca do costismo, o momento que verdadeiramente vivemos, uma vez que Pedro Nuno Santos foi apenas um interlúdio lúdico, Carneiro tomará conta do partido e o equivalente funcional a Costa também aparecerá a dada altura, quando chegar o devido momento de o sangue azul voltar à sua missão de pastorear o país. Tal como o “Tozé de Penamacor” não era material para controlar São Bento, Carneiro, de Baião, também não o será.
Este pequeno introito traz-me à pergunta central deste artigo: qual a autoridade moral e política que personagens como Augusto Santos Silva, ou mesmo António Vitorino, que, no seu estilo sibilino, disse a mesma coisa na televisão a semana passada, julgam ter para considerarem Seguro uma pessoa incapaz e, no fundo, não merecedora de Belém? À hora a que escrevo, não sei se Santos Silva será candidato a Belém. No entanto, sei de um conjunto de coisas do passado do excelso Prof. Doutor que o deveriam fazer corar de vergonha antes de tecer comentários sobre as qualidades cívicas de alguém.
Recordo com fulgor os tempos da minha própria juventude, quando assistia embevecido às aventuras de Augusto Santos Silva durante o consulado de governação mais corrupto da história da nossa democracia. Em Fevereiro de 2009, Santos Silva afiançava ao país que estava “em curso uma tentativa de assassinato político e moral de José Sócrates” recorrendo novamente à tese da campanha negra. Pouco depois, dando mostras de ser um defensor da liberdade de imprensa, negava que o “Partido Socialista, nem o governo tiv[eram] nada a ver com [a] decisão” de terminar com o Jornal de Sexta-Feira, então apresentado por Manuela Moura Guedes onde, segundo o chefe de Santos Silva, se fazia “uma caça ao homem”. Hoje, é público e notório que não só não havia qualquer campanha negra contra Sócrates, como houve interferência política claríssima para calar jornalistas que começavam a mostrar partes incómodas do PS.
Anos mais tarde, quando Cavaco Silva se recusou a condecorar o antigo primeiro-ministro, Santos Silva recorreu às redes sociais para confrontar Cavaco Silva, afirmando, ironicamente, que este não deveria condecorar Sócrates, porquanto, na sua opinião, Sócrates “não merece tamanha nódoa no seu currículo”. E, claro, “haverá certamente, dentro em breve, um Presidente merecedor da honra de condecorá-lo”. Quem sabe, isto seria já um prenúncio para uma eventual corrida a Belém onde, quiçá, se se candidatar, Santos Silva chame Sócrates à Sala dos Embaixadores e o condecore por serviços prestados à pátria.
Foi eleito Presidente da Assembleia da República, exercendo um consulado profundamente triste e, em alguns momentos, miserável mesmo. Como bom egotista, adorava os seus confrontos com Ventura, impondo impante aquela que era, na sua opinião, a defesa da democracia. Sabia perfeitamente, até porque, apesar dos seus muitos defeitos, a falta de inteligência não é um deles, que apenas estava a contribuir para a popularidade do Chega. Cada pequeno confronto de dois minutos com Ventura produzia material para dezenas de vídeos que se espalhavam como fogo em palha seca nas redes e inflamavam a extrema-direita. A tessitura social e política do país não interessava. Santos Silva estava interessado em promover a sua pessoa e em dedicar-se a uma das suas actividades favoritas em política: malhar na direita.
O seu consulado ficou ainda marcado pelo episódio com as câmaras durante a visita de Lula da Silva a Portugal. Ao invés de mostrar coragem e verticalidade, assumindo por completo aquilo que disse quando julgava que as câmaras não estavam a transmitir, pagando o respectivo custo político e reputacional, fez aquilo que é típico dos cobardes. Mandou abrir um inquérito, tentou culpar os funcionários do Parlamento e ensaiou mesmo uma tentativa de despedir alguém para expiar aquilo que considerava ser “uma flagrante violação de direitos e liberdades mais fundamentais das personalidades que foram vítimas dessa operação”. Quando ficou esclarecido que o vídeo estava não só devidamente autorizado, como fazia parte integral da transmissão da sessão como acontece todos os anos, Augusto Santos Silva não teve a dignidade de pedir desculpa.
É com este currículo político e cívico que Augusto Santos Silva pretende dar lições sobre a qualidade de António José Seguro e as suas capacidades para concorrer a Presidente da República. Não sei se Santos Silva decidirá concorrer. Espero sinceramente que sim. Por um lado, estarão garantidos grandes momentos de diversão. Por outro lado, aguardo ansiosamente pela noite eleitoral e pela derrota humilhante que Santos Silva terá.