Portugal prepara-se para um 2025 de grande relevância política, com duas eleições separadas por poucos meses: as presidenciais e as autárquicas. Mas enquanto as primeiras estão a ocupar diariamente as manchetes dos meios de comunicação, os debates e até as conversas de café, as segundas passam quase despercebidas. Todos os dias, somos inundados por análises sobre quem quer ir para o Palácio de Belém — Luís Marques Mendes, Passos Coelho, Gouveia e Melo, António José Seguro, Mário Centeno e outros nomes que querem mais protagonismo do que têm relevância para tamanho cargo público. E as autárquicas? Tirando agora uns dias do anúncio da candidata do PS à Câmara Municipal de Lisboa contra Carlos Moedas, tem o mesmo palco mediático? Não.

Este desfasamento não é inofensivo. Afinal, quantos portugueses sentem, no seu dia a dia, o impacto direto das decisões tomadas no palácio de Belém? As presidenciais têm um simbolismo importante: escolhemos uma personalidade política que deve ser o garante da estabilidade, o moderador das crises políticas e o fiel guardião da nossa Constituição da República. Mas o Presidente da República não decide sobre aquele buraco na tua estrada, a falta de transportes numa freguesia ou o IMI que pagamos. São os presidentes de câmara, os vereadores e as assembleias municipais que moldam a qualidade de vida de cada um de nós.

Desde a Revolução de 1974, as eleições autárquicas foram fundamentais para consolidar a democracia portuguesa. Foi a política local que garantiu a proximidade com os cidadãos, enquanto as presidenciais moldaram o simbolismo nacional. Mas será que ainda mantemos este equilíbrio?

A verdade é que enquanto discutimos interminavelmente nomes para Presidente da República, ignoramos os debates possíveis sobre os municípios. As eleições autárquicas definem o que acontece nas nossas ruas, escolas e transportes. São elas que tocam diretamente na vida das pessoas. Os muitos mil milhões de euros que as autarquias gerem anualmente são aplicados em decisões que vão desde o apoio à habitação acessível até à limpeza urbana. Mas onde estão os debates sobre isto? Onde está o escrutínio às taxas municipais ou aos orçamentos locais? A ausência de discussão pública sobre as autárquicas é o reflexo de uma lógica política e mediática que valoriza o espetáculo em detrimento do essencial.

Será que damos palco às eleições presidenciais porque são realmente mais relevantes ou porque o espetáculo mediático das grandes personalidades vende mais? A política de proximidade não terá o mesmo glamour, mas tem um impacto direto que não podemos ignorar. É curioso pensar que os transportes que Luís Marques Mendes, Mário Centeno ou Gouveia e Melo utilizam e as taxas que pagam por serviços municipais são definidos pelos presidentes de câmara e não pelo Presidente da República. Mesmo assim, a cobertura mediática continua a olhar para as presidenciais como se fossem o único evento político do ano de 2025.

Há algo errado quando somos rápidos a discutir quem vai a Belém, mas não sabemos o plano estratégico do nosso presidente de câmara para reduzir o IMI ou melhorar os transportes públicos. Esta obsessão pelo espetáculo é amplificada pela Comunicação Social, que todos os dias acrescenta novos capítulos ao “casting” presidencial. Não passa uma semana sem que surjam mais análises sobre Luís Marques Mendes, António José Seguro, Gouveia e Melo, ou mais um “não” de Pedro Passos Coelho assim como surgem entrevistas de outros potenciais candidatos, sem relevância alguma na sociedade, enquanto as autárquicas continuam relegadas para um segundo plano. Pontualmente lê-se algures quais os autarcas em fim de ciclo por limitação de mandatos, mas até nesses casos é raro ver-se uma análise política, ou analistas da praça, sobre a obra deixada nesses concelhos.

E se olharmos para a abstenção? Nas últimas autárquicas, em média, mais de 45% dos eleitores não exerceram o seu direito de voto. Este número é muito preocupante e não só enfraquece a representatividade democrática, como reflete um afastamento entre a política e os cidadãos mesmo ao nível de proximidade onde sempre se disse que havia mais vontade popular de participar civicamente porque debatiam as suas terras. A ausência de um ou vários debates mediáticos robustos sobre a importância da política local contribui para esta apatia, enquanto desvaloriza o impacto concreto das decisões tomadas nas autarquias.

É essencial lembrar que as decisões autárquicas não são meras questões processuais ou administrativas; são atos políticos, são políticas públicas claras e estratégias locais que moldam diretamente o bem-estar das pessoas. Desde a definição de políticas de habitação acessível até à manutenção de infraestruturas básicas, os municípios são responsáveis por áreas cruciais que afetam a vida quotidiana de todos os portugueses espalhados pelos nossos 308 municípios.

A política local é o motor da qualidade de vida, e ignorá-la significa negligenciar o que verdadeiramente importa.

Agostinho da Silva dizia: “Quando se fala verdade, não se pode ser original todos os dias.” E a verdade, neste caso, é que precisamos de inverter esta lógica. Enquanto o país se concentra no espetáculo de nomes para o Palácio de Belém, esquecemos que é nas autarquias que começa a verdadeira transformação. Reduzir o IMI, melhorar os transportes públicos ou apoiar famílias com políticas habitacionais não depende do Presidente da República. Depende dos Presidentes de Câmara.

Se queremos inverter esta lógica, precisamos de mais debates sobre o impacto das autarquias, mais escrutínio aos seus programas e mais atenção mediática. Precisamos de horas de debate sobre políticas públicas que falharam e não devem ser copiadas, mas também aprender com processos locais corretos que transformaram para melhor a qualidade de vida de munícipes de determinados concelhos. É preciso devolver o protagonismo às políticas que tocam diretamente na vida das pessoas. Um debate nacional sobre os municípios não é apenas necessário, é urgente. Não podemos continuar a ignorar o que define a qualidade de vida nas nossas comunidades.

Em 2025, talvez seja o momento de fazermos uma escolha enquanto sociedade: queremos ser meros espetadores de uma feira de vaidades de nomeados para o Palácio de Belém, ou queremos ser participantes ativos na transformação das nossas comunidades? Porque é aqui, no local, que a grande política se constrói.

Que este ano saibamos olhar com o devido valor para os nomes que se assumam para ocupar o lugar do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, avaliando a sua capacidade política e a sua elevação social na representação da nossa República, mas que tenhamos ainda mais foco na política local que nos muda a vida, rua a rua, freguesia a freguesia. 2025 não tem 2 eleições. Não são as eleições presidenciais e as eleições autárquicas, são 309 eleições: As eleições presidenciais e as 308 eleições autárquicas. Talvez pela diferença matemática se perceba o que devemos debater, escrutinar e avaliar publicamente em maior quantidade.