Vivemos um momento de viragem profunda na geopolítica mundial. Nada disto surgiu de repente. É o resultado de uma sucessão de acontecimentos que se foram acumulando ao longo dos últimos anos e que hoje se tornam impossíveis de ignorar. A guerra na Ucrânia continua a marcar o quotidiano europeu, enquanto os Estados Unidos parecem cada vez mais dispersos, intervindo no seu hemisfério, da Venezuela a Cuba, sem deixarem de olhar para o Irão e, por fim, com a sua nova obsessão, a Gronelândia. Ao mesmo tempo, desde a primeira presidência de Trump, Washington passou a concentrar o essencial da sua atenção no sudeste asiático, num confronto estratégico que hoje é claro entre três grandes potências: Estados Unidos, China e Rússia.
Para nós, europeus, o resultado é desconfortável. A Europa deixou de ser central. Há um desinteresse evidente e uma desvalorização crescente do nosso papel por parte dos americanos. A segurança que durante décadas foi tida como garantida já não é assim tão certa. Veja-se os últimos anos de alguma hostilidade interna na NATO, agora mais evidente por causa da Gronelândia. É neste contexto que importa olhar com atenção para as palavras de Vladimir Putin na recente sessão de apresentação de credenciais de dez novos embaixadores.
Convém perceber que, para o Kremlin, o tempo político não corre ao ritmo do nosso imediatismo. A estratégia russa é pensada a médio prazo. Por isso, as declarações de Putin não devem ser vistas como mero discurso circunstancial. Quando afirma esperar um acordo de paz para a Ucrânia “o quanto antes, porque quanto antes melhor”, está a dizer exactamente aquilo que muitos líderes europeus desejam ouvir. Quando acrescenta que pretende “normalizar as relações com os países europeus, hoje reduzidas aos mínimos”, está a enviar uma mensagem clara a um continente fragilizado. E quando fala na construção de uma “nova arquitectura confiável e equitativa para a segurança europeia e global”, está a colocar a Rússia como peça central dessa equação.
A leitura que faço é simples. Putin está a dizer à Europa que, ao contrário do que muitos temem, se obtiver um acordo de paz que considere satisfatório na Ucrânia, ficará por aí. Está também a sugerir que essa nova arquitectura de segurança será segura e confiável para os europeus, lembrando implicitamente que a Rússia já demonstrou até onde está disposta a ir quando, segundo a sua narrativa, se sente provocada.
Mas há mais. Putin fez questão de sublinhar as raízes históricas que ligam a Rússia ao continente europeu. E, retirando o traumático século XX, essa ligação existe de facto. Culturalmente, politicamente e até espiritualmente, a Rússia esteve durante séculos mais próxima da Europa do que da Ásia. Não é irrelevante que Portugal tenha sido um dos países mencionados na sua intervenção. As relações entre portugueses e russos remontam a vários séculos, desde os navios portugueses que aportavam aos portos do Báltico até a afinidades mais subtis, como um certo paralelismo entre o fatalismo português e o existencialismo russo. Já em tempos mais recentes, muitos russos escolheram Portugal como destino nos anos 90.
No fundo, o que Putin parece estar a fazer é uma aproximação estratégica à Europa, assente numa ideia de pertença comum. Uma Rússia que se apresenta como “Europa”, não apenas no mapa, mas na cultura, na literatura, no ballet, na música clássica, no cristianismo e até no cinema soviético, tão apreciado por muitos europeus. A mensagem é clara. Num momento em que a Europa se sente órfã da segurança americana, existe um “irmão” continental, com raízes comuns, disposto a assumir esse papel.
Nada disto deve ser lido com ingenuidade. A Rússia é e continuará a ser um Império. A forma pode mudar, o discurso pode suavizar-se e a estratégia pode adaptar-se, mas a natureza imperial permanece. Ainda assim, ignorar esta mensagem seria um erro. Putin está a falar para a Europa. Cabe-nos decidir se ouvimos, como ouvimos e com que prudência.