A mudança de um ano pode ser apenas isso: um dado do calendário, de interesse para astrónomos, agricultores ou estatísticos. A passagem para um novo quartel de século — mais uma divisão criada pelo ser humano — não altera, por si só, a realidade. E, no entanto, num tempo marcado por ameaças e promessas inquietantes, talvez esta fronteira simbólica nos conceda uma oportunidade rara: parar, escutar e pensar no Reino de Deus, que Jesus anunciou como Reino do Homem plenamente reconciliado consigo, com os outros, com a Criação e com Deus.
Com a esperança renovada pelo Natal que há pouco celebrámos, entramos em 2026 conscientes de que, neste segundo quartel do século, o direito da força parece, cada vez mais, querer substituir a força do direito. A história recente mostra-nos um mundo onde o poder económico, tecnológico e militar se sobrepõe à dignidade humana, reduzindo o homem a instrumento — quando não a mercadoria. A transformação do ser humano em “mercadoria pouco valiosa” no contexto das migrações contemporâneas é um dos dramas éticos e humanitários mais graves do ano que termina, fenómeno alimentado por redes de tráfico e políticas de exclusão que desumanizam o indivíduo, tratada como carga descartável.
Foi precisamente neste ponto que Jesus colocou o centro da sua missão. Ele anunciou o Reino de Deus não como privilégio dos justos instalados, mas como direito oferecido aos sem-direitos, aos excluídos e injustiçados. Fê-lo não apenas por palavras, mas pelo gesto escandaloso da comunhão: “Este homem recebe pecadores e come com eles” [Lc: 15,2], murmurava a sociedade farisaica. Ao sentar-se à mesa com os marginalizados, Jesus antecipava o banquete do Reino e exercia sobre eles o direito da graça, justificando-os pela compaixão — como Paulo mais tarde ousará formular teologicamente.
Assim, Jesus devolveu aos pobres a certeza da sua dignidade indestrutível aos olhos de Deus. O Reino entra no mundo dos humilhados e dos insultados e liberta-os da prisão interior do autodesprezo. A sua “constituição”, o Sermão da Montanha, culmina na proclamação inaudita: “Felizes os pobres, porque deles é o Reino”. Não apenas será — é.
Hoje, porém, vivemos num mundo onde a dignidade parece ser reconhecida apenas em função da capacidade de produzir, consumir e dominar. O nome de Deus é, não raras vezes, manipulado para justificar a riqueza de poucos e a pobreza de muitos. Assistimos ao declínio dos valores que moldavam a pessoa a partir de dentro, substituídos por um imperialismo cultural da eterna juventude, da felicidade obrigatória, da utilidade imediata. Quem envelhece, quem já não acompanha o ritmo, torna-se descartável — “encostado”, muitas vezes hospitalizado, arrumado hospitalarmente, com riscos humanos e éticos que não podemos ignorar.
O Papa Leão XIV tem chamado a atenção para o enfraquecimento do multilateralismo, o aumento do fosso entre ricos e trabalhadores e a fragilidade dos processos de paz. O homem corre o risco de ser reduzido a meio — meio do mercado, meio do poder, meio da guerra.
A Escritura lembra-nos que não é a primeira vez que o povo de Deus atravessa um tempo assim. Quando Israel caiu na angústia do exílio na Babilónia, surgiram vozes proféticas que, no meio do fracasso histórico, anunciaram a restauração [Jr: 29, 11 – 14]. O Reino de Deus, em contraposição aos reinos do mundo, revelou-se então — como hoje — não como domínio, mas como presença ativa e salvífica de Deus, chamando a uma nova relação de conversão que se traduz em relações libertadoras, vida reconciliada e paz com a Criação.
Jesus dirá claramente: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” [Jo: 10,10]. O Reino que Ele inaugura é o da vida plena, integral e radical, onde o ser humano pode beber da água verdadeira, da fonte que jorra para a vida eterna.
E assim se impõe a pergunta, no início deste novo quartel de século: é ainda viável falar do Reino de Deus quando parece avançar, com pretensão de vitória, um reino de morte?
A fé cristã não responde com ingenuidade nem com medo. Responde com discernimento pascal: o Reino de Deus não se impõe pela força, cresce como semente, atravessa a cruz e ressuscita onde menos se espera. Falar do Reino hoje não é fuga espiritual — é ato de resistência evangélica e de esperança ativa.
Biblicamente, a existência humana baseia-se sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a Terra, que o homem rompeu não apenas exteriormente, mas também dentro de si, o que aponta para o fato de que há que se desenvolver uma quarta relação fundamental consigo mesmo, no desenraizamento da autossuficiência e abertura humilde ao amor de Deus e dos irmãos.
A primeira linha de força para a correção será uma espiritualidade querigmática, que nasce do encontro feliz com o amor de Deus em Jesus Cristo e é atualizada na abertura ao seu Espírito. Assim, na Exortação Apostólica Christus Vivit, o Papa Francisco diz: [112]: Eis a primeira verdade que quero dizer a cada um: «Deus ama-te». Mesmo que já o tenhas ouvido – não importa! –, quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca duvides disto na tua vida, aconteça o que acontecer. Em toda e qualquer circunstância, és infinitamente amado.
Esta afirmação não é apenas consoladora; é fundadora. Nela se enraíza o anúncio do Reino de Deus no início deste novo quartel de século. Se o Reino se manifesta, antes de tudo, como a revelação de um Deus que ama sem condições, então toda a vida da Igreja — a sua linguagem, as suas estruturas, os seus processos — é chamada a tornar visível e credível esse amor.
É neste horizonte que se compreende a pergunta decisiva: poderá a sinodalidade na Igreja Católica contemporânea contribuir para a promoção efetiva da dignidade humana? As suas raízes mergulham na tradição milenar da Igreja e foram reavivadas pelo Concílio Vaticano II. O seu relançamento explícito, com a XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (2021–2024), sob o tema «Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão», não constitui um mero ajustamento organizativo, mas uma conversão eclesial.
Um dos seus frutos mais significativos reside na reafirmação da igualdade batismal. Todos os batizados partilham a mesma dignidade, não por função, ministério ou reconhecimento social, mas por terem sido enxertados em Cristo. Uma Igreja sinodal, ao criar espaços reais de participação e corresponsabilidade, restitui visibilidade ao valor intrínseco de cada pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus.
Outro pilar essencial é a escuta, entendida como prática espiritual e não apenas como metodologia. O estilo sinodal exige uma escuta atenta, paciente e comprometida, sobretudo daqueles que se encontram nas periferias existenciais e eclesiais. Esta escuta torna-se, assim, um ato profundamente evangélico e um gesto concreto de justiça, pois reconhece e restitui dignidade a vozes historicamente silenciadas.
Contudo, a sinodalidade só cumprirá a sua promessa se não permanecer no plano do discurso. Por isso, o processo é chamado a prolongar-se numa fase de implementação estruturada, capaz de transformar o espírito sinodal numa mentalidade permanente. O itinerário de acompanhamento até 2028 aponta nessa direção, procurando garantir que a sinodalidade se torne o modo ordinário de ser Igreja. Neste percurso, os grupos de estudo continuam a trabalhar questões decisivas, como o papel das mulheres, o ministério dos leigos e a reforma das estruturas de decisão, sinais concretos de uma Igreja em discernimento.
Neste contexto, o Jubileu de 2025 surge como um momento-chave de integração das intuições sinodais na renovação pastoral e espiritual das comunidades cristãs em todo o mundo. E se a Porta Santa se fechará a 6 de janeiro de 2026, será apenas para que a Igreja se descubra, ainda mais, enviada em missão. Porque o Reino de Deus não se encerra: escancara-se na história sempre que a dignidade humana é reconhecida, cuidada e promovida à luz do amor primeiro de Deus.
Claro que a sinodalidade não é um fim em si mesma, mas um meio para que a Igreja seja mais missionária. Uma “Igreja em pé” e que “acolhe o grito da humanidade” aproxima-se mais do projeto do Reino de Deus na Terra. Aliás o Documento Final do Sínodo (2024-2025) destaca a “sinodalidade como profecia social”, sugerindo que o modelo de comunhão da Igreja deve servir de exemplo para a sociedade na promoção da paz e da fraternidade.
A promoção da paz e da fraternidade na atualidade transcende o idealismo, tornando-se uma necessidade pragmática de sobrevivência global perante a multiplicação de conflitos de alta intensidade e guerras híbridas. Numa sociedade marcada por uma polarização extrema e pela desumanização do “outro”, a paz não pode ser vista apenas como a ausência de conflitos armados, mas como um compromisso ativo com a justiça social e o diálogo intercultural.
A fraternidade atua como o antídoto essencial contra o isolacionismo e a indiferença. Enquanto as guerras declaradas devastam infraestruturas e vidas, as “guerras não declaradas” — manifestadas na exclusão económica, no discurso de ódio digital e na violência sistémica — corroem o tecido social a partir de dentro. Reconstruir a paz exige, portanto, políticas que priorizem a dignidade humana sobre interesses geopolíticos e uma educação para a empatia que reconheça a interdependência entre todas as nações.
Assim talvez possamos abrir-nos à Esperança, crendo, em termos de escatologia inaugural, que o Reino de Deus, instaurado com a vinda de Jesus, já está entre nós mediante a graça, mas ainda não se manifestou plenamente em toda a sua glória, vindo a tornar-se a matriz base do relacionamento humano – uma profecia estupenda para o novo quartel, para uma Humanidade restaurada.