Imediatamente antes do intervalo estabelecido para o mês de Agosto, a esquerda representada na Assembleia Municipal de Lisboa quis deixar aos deputados uma exibição da sua natureza e mostrar-lhes um arzinho do que é capaz. Discutiu-se a Recomendação 182/04 “Pela identificação e desocupação das habitações sociais ocupadas ilegalmente para as disponibilizar aos lisboetas em lista de espera”, apresentada pelo Chega.

O nome do documento era o sumário da substância. Foi preciso explicar à esquerda, com paciência, com tempo, em pequenos passos lógicos, que a desocupação das casas pretendia atribuí-las às pessoas em lista de espera. Não pretendia entregá-las aos senhores dos Vistos Gold nem aos “ricos”, que a extrema-esquerda insiste em ver de maneira caricatural: são gordos, fumam charuto, usam cartola e colete estampado com cifrões, deixam cair as notas dos bolsos a abarrotar. A extrema-esquerda é uma espécie de ilustração do nosso atraso de vida. Disseram, claro, que o Chega, e todo resto da direita que logo defendeu esta proposta do mais sensato que há, “andam à procura dos mais vulneráveis para os perseguir”. É preciso ter uma fé inabalável em santa estupidez. As pessoas que ocuparam ilegalmente as casas da Câmara estão precisamente a impedir que os mais vulneráveis tenham uma casa disponível para eles; e os ricos gordos da cartola, do charuto e dos cifrões, não querem viver nos bairros sociais nem estão nas listas de espera.

É verdadeira uma outra constatação da extrema-esquerda que os deputados daquela ilustríssima miséria esguicharam em jeito de insulto: “Em Portugal, não basta trabalhar para se conseguir pagar uma renda”. De penúria sabem eles. As mesmas esquerdas empenham-se aplicadamente em impedir o desenvolvimento da economia: põem todos os entraves, levantam todos os obstáculos, e levam, sob a forma de impostos, taxas, multas, subsídios e financiamentos, o pouco que resta; a economia portuguesa vive doente. Não havendo economia, sim, é verdade que por acção acumulada das esquerdas, as pessoas trabalham e mesmo trabalhando não conseguem pagar uma renda.

Mas só por ironia se pode imaginar que a esquerda gosta das pessoas mais fracas, pobres ou vulneráveis. Ou que as defende. Não gosta, não defende. Limita-se a instrumentalizá-las (com sucesso, conceda-se: às almas dilaceradas pela culpa e o sentimentalismo do século, nada oferece maior conforto do que a exibição de virtude). Aqueles partidos gostam das pessoas que fazem parte dos seus grupos de pressão, com os quais a extrema-esquerda está organizada. E gostam dos “okupas” que se instalam nas galerias a gritar enquanto decorrem as sessões plenárias.

E não, as pessoas que se dirigem à Assembleia Municipal de Lisboa e falam aos deputados no princípio das reuniões para expor os problemas delas não estão “chateadas”, como também disseram as vozes da estupidez. Essas pessoas estão aflitíssimas, desesperadas, não têm casa, têm família, uma série de filhos menores, muitas vezes são famílias monoparentais, merecem estar numa lista de espera e entrar quando chegar a vez delas. Em lugar de se verem forçadas ao arbítrio de esperar indefinidamente, quando as casas estão ocupadas por arregimentados dos tais grupos de pressão, com quem o próprio vereador do Bloco de Esquerda, no mandato anterior, se entendia bem e cultivava relações da maior cordialidade. Mantendo uma velha tradição de ocupações, aos partidos das franjas radicais não convém que as listas de espera sejam respeitadas com os critérios que a Câmara determinou e que estão dentro da lei. Querem ter lá o seu pessoal, agradecido e preparado para o que der e vier. A extrema-esquerda não pode correr o risco de ver os problemas limitados e as soluções previsíveis. São objectivos “burgueses”. De resto como a democracia em si mesma, que os partidos radicais espremem com profissionalismo e, ao mesmo tempo, detestam do fundo do coração. A extrema-esquerda prospera no caos.