Todos conhecemos a expressão que, na guerra, a primeira vítima é a verdade. Não é. Essa é uma desculpa para quem não quer ver as coisas como elas são. A primeira vítima da guerra é a inteligência. Particularmente a dos comentadores partisans. No caso da actual guerra no Irão os articulistas/comentadores que apoiam Trump viram o seu bom senso, a sua inteligência, a sua cultura, obliterada.

Obliteração n1) A memória. Há 30 anos que o Irão está prestes a conseguir a bomba nuclear. Todos os presidentes americanos têm, de alguma forma, tentado limitar as acções iranianas. Não é, pois, nada de extraordinário, a posição de Trump, face ao Irão. O que é diferente é o facto de nenhum presidente anterior ao actual ter arriscado uma guerra contra o Direito internacional, os direitos das nações, a lógica militar. Só Trump fez o favor a Israel. Na campanha de 2016, Hilary Clinton ameaçou o Irão de guerra e até usou o verbo obliterar! Trump usou essa declaração como reveladora do ímpeto belicista da sua oponente. Será interessante ir ler o que os apoiantes de Trump – cá e lá – disseram nesse momento (lembrem-se que fica tudo na net…). Será que, na altura, não estava em causa a defesa da civilização ocidental? Esta não é a 1.ª vez que Trump é presidente, o que faz poder perguntar: Por que razão não atacou ele na sua 1.ª presidência (por causa do Nobel?).

Aqui ficam, portanto, um conjunto de factos para avivar a memória de quem defende – agora – esta intervenção militar.

Obliteração n2) O bom senso. O argumento de que o que está em causa é apenas (!) o Irão e que devíamos todos nos ater a esse facto, deixando de pensar em Trump, é ridículo (para ser simpático). Se Trump é o líder da nação mais poderosa do mundo e, concomitantemente, líder da civilização à qual pertencemos, não podemos ficar imunes à sua prestação. Temos – sempre – de ir a correr, apoiar as suas decisões? Ou só nas que nos interessam?  Já não me lembro (mas está na net) quem defendia que devia ser permitido aos europeus votar nas eleições americanas… Não irei tão longe, mas, não me podem exigir que diga Ámen ao personagem que, transitoriamente, domina a maior força militar do mundo e que pode ter sido eleito apenas porque se opôs ao preço da carne enlatada.

Não é, pois, possível, separar os factos: Ou se aceita que o presidente dos EUA é o nosso líder e, portanto, não nos é indiferente quem ganha lá nos states, ou não ligamos a esse factor e, como tal, não é o nosso líder e não estamos obrigados a nada.

Obliteração n3) A cultura. Falo quer no lato sensu, quer no stricto. A Europa faz parte da civilização ocidental, mas, é a própria “dona” da sua própria civilização: A Europeia. O actual presidente dos EUA é inculto (matéria sem discussão). Como é apanágio de quem assim é, não se preocupa com os outros, com os seus problemas, com as suas idiossincrasias. Ou se alinha com quem tem a força ou se é obliterado. Quem argumenta, constantemente, que a Europa não existe, que não tem força e que não percebe o favor que Trump nos está a fazer, apenas está a ajudar à obliteração da civilização europeia. Aquela que, na história da humanidade, sempre foi a que tomou a dianteira: Na liberdade religiosa, na liberdade económica, na liberdade política, no combate à escravatura, no combate ao nazismo, no combate ao comunismo, etc., etc., nos direitos culturais, nos direitos humanos, nos direitos ambientais, etc., etc.

Não é esta – a europeia – uma civilização que vale a pena defender? A chamada civilização ocidental é, neste momento, uma pensão sevilhana, onde a porteira cobra para se entrar (e pode entrar qualquer um).

Obliteração n4) A inteligência. É triste assistir a um endurecimento dos textos – particularmente no Observador – por parte daqueles que, acossados (até por trumpistas indefectíveis nos EUA) entendem que o caminho é dar o passo em frente (quando se está à beira do precipício). Falam de um holocausto nuclear, que não está – nem nunca esteve – perto de acontecer e de um descalabro económico para o Mundo (que pode bem acontecer) obliterando a referência que, a acontecer, será responsabilidade de Trump, de Netanyahu e de mais ninguém.

Depois, num exercício quási ridículo, outorgam-se em defensores dos direitos humanos do povo do Irão (esquecendo-se de todas as violações desses direitos por esse mundo fora) colocando a fasquia num nível em que – se nada de substancial vier a acontecer – a sua credibilidade será obliterada. Tudo isto por um orgulho – muito pouco cristão – de não aceitar a realidade: A intervenção é um desastre, sob qualquer ponto de vista.

Na defesa e há falta de argumentos, repetem a lengalenga de Trump: Deram cabo disto e daquilo, arrasaram com aqueloutro, etc. Mas: O regime mudou? Sabemos que não. O que podemos prever é que, daqui a alguns anos, este regime torcionário dos Ayatollah’s estará outra vez capacitado.

É igualmente muito pouco inteligente, não se referirem às anormalidades ditas por Trump, relativamente ao Papa ou ao fim de uma civilização. Já para não mencionar a indigência do seu staff, o nepotismo e a corrupção descarada da actual administração americana. Na tentativa – falhada – de não nos quererem dar nota destes tristes factos, engrossam a voz e arranjam uns amigos (tristes) para dar a ideia de que são muitos. Então lá aparecem um ex-militar, um ex-comediante e mais um ex qualquer coisa que se juntam ao coro de aplaudir um personagem que não tem um átomo de inteligência, de bom senso e de cultura. Qual o argumento ad nauseam? Que quem é contra a intervenção Israel/EUA é de esquerda. Esse navio já partiu. Nos EUA Tucker Carlson e Megyn Kelly já perderam o medo e abertamente dizem o que a guerra é: Um disparate que não vai atingir objectivo nenhum.

Nestes dias, assisti a um excelente documentário sobre a guerra com a ETA (The Challenge: ETA). Desde o seu advento, em 1968, várias abordagens foram tentadas, mas guardei as palavras de um etarra preso que, no último episódio declara: Quem nos derrotou foi a inteligência da Guardia Civil e das forças policiais que foram aprendendo a melhor forma de nos neutralizar.

Terá de ser com inteligência que o regime torcionário dos Ayatollah’s será derrotado. Será com inteligência que os terroristas do Hezbollah e do Hamas serão vencidos. As guerras são ganhas com inteligência. E com conhecimento da história e da cultura contra quem lutamos. Além do bom senso. Muito.

PS: Ao terminar este texto, dou de caras com: 1) Um post de Trump que, como Cristo, trata de um enfermo. Um nojo. Veio o mesmo (Trump, não Jesus) corrigir: Era um médico, porque ele (Trump, não Cristo) cura pessoas… Estou certo de que o ex-comediante irá escrever um texto giríssimo sobre o tema; 2) Uma notícia que dá conta que Trump vai fechar o estreito de Ormuz (esteve sempre aberto até à guerra) e que vai dar mais 2 semanas ao Irão (esta coisa das duas semanas é o quê?). Estou certo de que o ex-militar nos irá esclarecer; 3) Tomo nota que os EUA já só pedem a SUSPENSÃO do programa nuclear do Irão. Não é preciso que escrevam nada. Estou obliterado.