Nas últimas semanas, a instabilidade governativa em Portugal tem suscitado significativas preocupações, especialmente quando considerada no contexto “barril de pólvora” em que se encontra a geopolítica mundial. Este panorama, desafiante para qualquer nação, e em especial para aquelas que compõem a União Europeia, é ainda complexificado através da introdução na equação de uma componente de instabilidade interna que, diga-se, se dispensava.
Numa cadência de acontecimentos de enorme rapidez, tivemos manchetes de jornais sobre a situação patrimonial de membros do governo, debates no Parlamento em que o foco foram os ativos financeiros do Primeiro-Ministro, duas moções de censura chumbadas, uma moção de confiança com anunciado chumbo e um Presidente da República que, praticamente, marcou eleições em direto, sabendo-se já que estas decorrerão entre os dias “11 ou 18 de Maio”. Ora, por muito apreço que tenha ao mês de Maio e o fenómeno eleitoral em si mesmo, tudo isto parece uma perfeita loucura se fizermos o e olharmos ao estado da Europa e do mundo.
Por um lado, do ponto de vista económico, vemos um derreter dos ganhos em bolsa impulsionados pela vitória de Trump nas eleições, em grande razão pela política do seu maior inimigo que é ele próprio. Como já anunciado – sendo este um tema abordado num artigo anterior –, a Administração americana decidiu aplicar um conjunto de políticas protecionistas das quais resultam sanções económicas a diversos países, entre os quais se destacam o Canadá e o México, que, mesmo depois de diversos recuos estratégicos, não estão, até a este momento, a ter o resultado pretendido.
Por outro, na vertente política, vemos um verdadeiro focar dos EUA na sua política interna, deixando de querer exercer o lugar de cabeça das democracias liberais, o que permite que outros poderes – sejam estes a Rússia ou a China – se ocupem de ganhar espaço no globo.
Com o farol apagado do outro lado do Atlântico, começa a acender, tenuemente, um outro do lado de cá. Todavia, a União Europeia parece um doente acordado agora de um prolongado coma que se apercebe que, após tão longo período de ausência de movimento, perdeu todo o músculo e já não se consegue por isso mover. Sendo isto coletivamente óbvio, e percebendo que legislar sobre tampas de garrafa é capaz de não lhe proporcionar um grande peso em termos globais, tenciona agora correr para tentar compensar o prejuízo de anos – se não décadas – de marasmo. Claro que está que o coma deixa sequelas que só com tempo se podem resolver, pelo que nos questionamos se um ressurgimento da Europa como potência global pode ser, no curto prazo, uma solução real ao apagar americano.
A todo o cenário dantesco, este pequeno país à beira-mar plantado decidiu juntar uma crise política interna numa lógica de “perdido por 100, perdido por 1000”.
Portugal economicamente encontra-se numa perspetiva crescente que importaria preservar. Desta trajetória são prova (i) a subida dos ratings internacionais; e (ii) o enquadramento nacional num grupo de países do sul da União, junto com Espanha, onde o crescimento económico é superior à média dos 27. Ora, a instabilidade política é o que precisamos para mudar este rumo, desviando um crescimento e fortalecimento interno muito positivo, para um pântano.
Como sabemos, a instabilidade política tem, por regra, efeitos adversos na confiança dos investidores e no crescimento económico. Mais ainda num mundo interligado, onde as tensões económicas e os conflitos armados são uma constante, sendo a estabilidade interna crucial para garantir a resiliência das nações. Se não nos queremos, pois, suscetíveis a estas flutuações, então não podemos enfraquecer internamente por meras quezílias políticas.
Neste cenário, é crucial que a razão impere. Infelizmente, isto não tem acontecido. A política tem tido muito pouco de razão nas últimas semanas, e isso tem sido cada vez mais claro para todos.
Não é disto que precisamos.
A única forma de manter uma posição à parte do que vai acontecendo fora é termos um governo forte cá dentro. Se não o conseguirmos, o futuro não será brilhante, e essa ausência de brilhantismo terá as já habituais consequências no nosso quotidiano.
Ora, devemos mesmo adicionar mais vetores à confusão já existente? É esta uma decisão lógica? Num contexto onde têm relevância os fortes, queremos mesmo enfraquecer-nos um pouco mais? Em nossa opinião, a resposta a todas estas questões é negativa e só pode conduzir à exigência, de todos nós, de uma solução interna de compromisso que evite novas eleições legislativas; que evite a perda de tempo essencial para o país; e que evite um cenário governativo que pode ser ainda mais complexo que o atual.
Se a geopolítica mundial nos faz lembrar o início do século passado, é mesmo necessário que, internamente, façamos ressurgir a instabilidade política que caracterizou a Primeira República nesse período? Certamente que não.