Em 1987, Abbas Kiarostami filmou, no Irão rural, Where Is the Friend’s House? A premissa é simples: Ahmad, um rapaz, leva para casa, por engano, o caderno de um colega. Ao perceber que o amigo será castigado se não o devolver, decide procurá-lo. Atravessa ruas poeirentas, sobe colinas, bate a portas. Ninguém o ajuda. O dia cai, mas Ahmad persiste.

A simplicidade da história contrasta com a densidade moral que a sustenta. Kiarostami filma a busca do rapaz com a lentidão necessária para que o espectador sinta o peso de cada gesto. O movimento de Ahmad não é apenas físico; é ético. Cada porta batida é um confronto com a indiferença, cada passo um ato de resistência contra a passividade. Esta história transporta-nos para o nosso quotidiano: aquele onde o umbiguismo impera e a indiferença ocupa o lugar da sensibilidade. A ética, no cinema de Kiarostami, não é uma teoria: é a persistência em cumprir uma obrigação elementar, mesmo quando ninguém observa.

O filme propõe uma lição que o mundo contemporâneo parece ter esquecido: a atenção ao outro é o ponto de partida da ética. Vivemos hoje num ambiente saturado de estímulos, onde a distração é permanente e a atenção se tornou um recurso escasso. A tecnologia fragmenta o tempo e dispersa o olhar; a comunicação instantânea dissolveu a responsabilidade na velocidade. Nesse contexto, a ética tende a ser invocada como discurso, mas raramente praticada como atitude.

É revelador como a palavra “amigo” se tornou cada vez mais banalizada. Hoje, todos são “amigos”, mas essa leveza oculta a diferença entre convivência superficial e compromisso verdadeiro. Esta vulgarização não revela apenas empobrecimento lexical, mas também uma indigência emocional: confundem-se simpatia com cumplicidade, familiaridade com lealdade. A amizade deixou de ser uma construção que exige presença, atenção e compromisso, passando a ser um rótulo performativo, proclamado a cada “olá, amigo”.

As pequenas obrigações — responder a uma mensagem, manter uma promessa, ouvir alguém sem pressa — tornaram-se secundárias. Mas é precisamente aí que reside o núcleo da vida moral. Ahmad não salva o mundo, apenas devolve um caderno. No entanto, esse gesto contém uma clareza ética que o mundo digital perdeu: a consciência de que cada ação, por mínima que pareça, tem consequências reais sobre os outros.

Se, na aldeia iraniana de Kiarostami, o caminho é de terra e pó, hoje o percurso faz-se entre ecrãs, notificações e fluxos de informação. Mudou o cenário, mas não o problema: a dificuldade de reconhecer o outro como presença concreta e vulnerável. A indiferença (ontem silenciosa, hoje tecnológica) continua a ser a forma mais eficaz de desumanização.

No final, Ahmad encontra a casa do amigo e entrega o caderno. Nada muda no mundo exterior, mas algo se cumpre no interior da ação: uma obrigação foi respeitada. A ética, aqui, não depende do resultado, mas da decisão de agir de acordo com o dever. Kiarostami lembra-nos que a moralidade não se mede em escala, mas em consciência.

A pergunta que dá título ao filme — “Onde está a casa do meu amigo?” — é, por isso, menos geográfica do que filosófica. Pergunta-nos: onde situamos o outro na nossa vida? Que lugar damos à responsabilidade, à palavra, à atenção? Num tempo em que o vínculo humano é substituído por conexões efémeras, o gesto de Ahmad é um lembrete de que a ética começa no mais simples: reconhecer a existência do outro e agir em conformidade, mesmo sem testemunhas ou recompensa.

A casa do amigo talvez não esteja num lugar, mas numa atitude: a de quem se recusa a ser indiferente. Num mundo que confunde exposição com relação e velocidade com presença, a ética continua a ser, como em Kiarostami, a arte de demorar — e de não virar o rosto.