Nos últimos anos poucas produções televisivas captaram com tanta acuidade a alienação laboral do mundo contemporâneo como Severance (Separação). A aclamada série criada por Dan Erickson propõe um conceito perturbador: e se fosse possível dissociar – de forma cirúrgica e absoluta – a consciência profissional da pessoal, criando duas identidades estanques e incapazes de comunicar entre si? O que poderia, à partida, parecer uma solução redentora para o esgotamento e a sobrecarga laboral, rapidamente se revela um mecanismo de despersonalização e subjugação.

A premissa de Severance espelha, numa linguagem de ficção especulativa, um fenómeno já há muito identificado por teóricos da sociologia do trabalho: a imposição de uma cisão entre a esfera profissional e a esfera pessoal que, longe de proporcionar equilíbrio, funciona antes como um dispositivo de controlo. A ilusão de um delineamento claro entre o «eu que trabalha» e o «eu que vive» acaba por evidenciar o quão profundamente o trabalho coloniza a experiência individual impondo ritmos, expectativas e formas de comportamento que não cessam quando se abandona o espaço físico laboral.

A par disto, a série inscreve-se numa reflexão mais ampla sobre as novas configurações do trabalho no século XXI, onde a ideologia da produtividade total e a dissolução progressiva da distinção entre tempo laboral e tempo pessoal têm vindo a ganhar terreno. O teletrabalho e a hiperconectividade exacerbaram a lógica de disponibilidade constante, tornando a própria noção de horário de expediente progressivamente obsoleta. O controlo exercido pelas corporações não é apenas estrutural, mas psicológico e emocional. Não podemos viver permanentemente absorvidos pelo trabalho, como se a vida fosse um luxo ou uma pausa indesejada. Viver é um direito essencial, não um capricho. É essa vivência plena — com tempo para parar, descansar e ser — que garante o nosso equilíbrio mental e emocional. Às vezes dás por ti a pensar não pedir férias porque tens de dar mais e mais. Não podes ficar para trás. Este pensamento (errado) consome-nos e não nos deixa ter acesso ao mais básico e elementar: viver com qualidade.

Vivemos numa época em que as instituições se tornaram labirintos burocráticos; onde o contacto com o mundo real é substituído por procedimentos, protocolos e linguagem neutra. A memória, enquanto responsabilidade coletiva, evapora-se. Neste sentido, Severance propõe uma inquietante interrogação sobre o estatuto da liberdade individual no contexto laboral contemporâneo. Se a autodeterminação do indivíduo depende da sua capacidade de gerir o próprio tempo e estabelecer limites entre as diferentes esferas da sua vida, até que ponto pode ser considerado livre quando o trabalho exige uma entrega tão absoluta que apenas uma separação cirúrgica da consciência permitiria recuperar alguma autonomia? E, mais importante, essa aparente libertação não seria, em si mesma, uma forma de servidão e/ou um mecanismo de sujeição ainda mais insidiosa?

A relevância da série transcende, assim, a mera crítica à cultura corporativa e incide sobre questões filosóficas e sociopolíticas mais vastas. Severance convida-nos a refletir sobre o papel do trabalho na construção da identidade; sobre os limites da instrumentalização do humano e sobre as novas formas de dominação que, sob o véu do progresso tecnológico e organizacional, perpetuam lógicas de exploração e alienação. A questão central abordada nesta série não é meramente distópica, mas profundamente presente: somos ainda senhores do nosso tempo ou estaremos a cedê-lo – insidiosa e inexoravelmente – a um sistema que nos concebe apenas como engrenagens descartáveis?

O risco é claro: podermos vir a ter instituições sem rosto que não reconhecem os seus cidadãos. Podem até não se reconhecer a si próprias.

Este processo é agravado por pequenos grupos que (frequentemente) já só se relacionam com a estrutura social através de relatórios, estatísticas e soundbites. O mundo real é substituído por uma realidade paralela, construída dentro de gabinetes com ar condicionado e distanciamento social.

Apesar de Severance recorrer a um cenário fictício e algo extremo, a série antecipa com acuidade tendências concretas que não podem ser ignoradas. É imperativo traçar limites claros perante a normalização de práticas que aprofundam a alienação laboral, muitas das quais começam a ganhar terreno sob o impulso de ideias e estratégias de governação marcadamente «trumpianas», onde a desvalorização dos direitos individuais e laborais apresenta-se sob o pretexto de eficiência e controlo institucional.